Duas histórias, uma mentira

Sandro Guidalli

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A transformação do jornalismo no Brasil em ação partidária cotidiana não apenas deforma seus profissionais, apequenando-os, como provoca a desinformação da sociedade que através deles toma ciência dos acontecimentos.

A partir da redemocratização do país, uma nova história, sobreposta à original, passou a ser escrita por jornalistas e por todos aqueles que perderam a luta pelo poder cujo ápice se deu a partir da queda em 1964 do governo proto-comunista de João Goulart.

A partir de então, do retorno dos exilados beneficiados pela anistia e do completo afrouxamento da tutela estatal sobre a atividade jornalística, que já era pequena, puderam os derrotados ir à forra, ora formando novos quadros nas faculdades de Comunicação, Sociologia ou História, ora arregimentando na classe artística e intelectual aqueles que pudessem “glamourizar” sua causa.

Depreciar o Exército brasileiro, ridicularizar os valores mais conservadores e caluniar quem ao regime fardado ou aos Estados Unidos se alinhassem, passou a ser coisa corriqueira na imprensa, como se a guerra não tivesse acabado e sim, apenas começado, tendo, entretanto, um dos lados já se retirado do ringue por iniciativa própria.

Longe de arrefecer, a batalha solitária dos jornalistas de esquerda, a grande maioria do país, pelo controle absoluto da mídia, cada vez ganha novos eventos. Para atingir o objetivo final, ou seja, a implantação no país daquilo que foi tentado nos anos 60, continua valendo tudo. Afinal, para os socialistas, todos os meios justificam todos os fins.

Um dos últimos episódios desta batalha de loucos em que não há opositor deu-se em terreno mais que amigo: as páginas de Carta Capital, a revista em que capitalistas e marxistas convivem, os primeiros sendo bajulados quando do interesse do editor e os últimos sendo incentivados a não desistir após cada nova derrota eleitoral.

Foi sem sustos, pois, que li na edição de 19/06 deste ano, às páginas 19 e 20, uma "reportagem" assinada por Maurício Dias sobre o repúdio de militares à locução feita por Bete Mendes num documentário sobre a participação da FEB durante a segunda guerra.

Para quem não sabe, a ex-atriz e deputada foi militante do setor de Inteligência da organização terrorista Var-Palmares, estando presa no DOI com outros 12 jovens em São Paulo por 18 dias em outubro de 1970.

Quase quinze anos depois, ou seja, em agosto de 1985, Bete Mendes, a "Rosa" da Var-Palmares, resolveu denunciar como seu torturador na ocasião em que foi presa o então adido militar no Uruguai, coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, comandante do DOI/CODI entre 1970 e 1974. Ambos se encontraram, cordialmente, durante os eventos promovidos em Montevidéo quando da visita de Sarney ao país vizinho, ocasião em que Bete Mendes fazia parte da comitiva presidencial. 

Dizendo-se indignada, porém, pelo reconhecimento e pelo fato de o coronel cumprir missão no exterior, Bete Mendes, chegando ao Brasil, mandou carta ao então presidente Sarney pedindo o afastamento do coronel a quem passava a acusar em plenário e pela imprensa, sempre solícita a escutá-la sem que ao coronel fossem dadas as menores chances de defesa.

Inconformado com o que sempre considerou uma calúnia sem precedentes, Brilhante Ustra escreveu um livro (Rompendo o Silêncio , Editerra Editorial, 345 págs.) em que defende sua inocência e em que levanta perguntas que não foram respondidas por Bete Mendes, as quais são fundamentais para qualquer investigação que se faça sobre o assunto.

Algumas delas:
1) Por que a denúncia de tortura tanto tempo depois e após tantas oportunidades para fazer isso antes?
2) Bete Mendes disse que viu corpos de amigos torturados enquanto esteve no DOI e que faziam parte da lista de desaparecidos. Quantos corpos ela viu? Em que dia e local? Quais os nomes dos desaparecidos?
3) A ex-deputada disse também que o corpo de um amigo, morto a pancadas, foi-lhe mostrado com o objetivo de desequilibrá-la emocionalmente: Que amigo era esse? Qual o seu nome, codinome e a que Organização pertencia?
4) Por que Bete Mendes não divulgou seu arrependimento, documentado em depoimento prestado ao lado de seus dois advogados ao Conselho Permanente de Justiça no dia 30 de março de 1971? Nele, a ex-atriz afirmou que "não acredita em nenhuma organização subversiva e acha inviável seus propósitos porque chegou à conclusão de que eles querem apenas destruir".

O último episódio que gerou a repetição das velhas acusações sem provas foi esse, em que Ustra revela-se contrariado pela participação de "Rosa" no documentário "A Cobra Fumou". O assunto foi parar na Carta Capital, que o aproveitou apenas para relembrar a versão da história contada por Bete Mendes. Fez-se aqui o que era mais fácil e conveniente, perdendo-se a chance de esclarecer os fatos e dar espaço a quem se considera caluniado.

Desta forma, o "coronel torturador" sequer foi ouvido em mais um capítulo da batalha para manter sob constante ataque o sepultado regime militar ao mesmo tempo que em ex-terroristas acabam como vítimas na história contada pelos derrotados.

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Como ninguém vai mesmo ouvir o coronel, esta coluna o faz abaixo em entrevista exclusiva (afinal, uma coletiva seria impensável dado o quase completo desinteresse da imprensa em saber o que este homem tem a dizer):

Sandro Guidalli - Do ponto de vista estritamente jornalístico, qual o balanço que o senhor faz da sua história com a ex-deputada Bete Mendes?

Brilhante Ustra - Jamais houve por parte da imprensa intenção de desmascarar a senhora Bete Mendes. Os jornalistas que abordaram o assunto sempre estiveram, incondicionalmente, a seu lado, levando sua versão mentirosa às manchetes dos principais jornais, TVs e revistas. Eu fui surpreendido, no Uruguai, com os telefonemas do Brasil, narrando o escândalo que a imprensa promoveu, sem me dar qualquer chance de defesa. Felizmente, no meio militar, quem leu se inteirou da verdade e me apoiou em bloco. Sempre gozei de prestígio e de consideração no meio de meus superiores e subordinados. O Ministro Leônidas Pires Gonçalves manteve-me no cargo até o último dia de minha missão, o que prova a confiança em mim depositada. No meio civil, muito sensível à mídia e influenciado pelo magnífico desempenho da atriz banhada em lágrimas nas novelas da TV, predominou por muito tempo a versão enganosa. Afinal, existem pessoas que agridem artistas na rua porque em novelas desempenham papel de vilão!

SG - Como a imprensa se comportou durante todos os episódios que o envolveram?

BU - Reforçando o que foi dito acima, a imprensa sempre foi de uma parcialidade total. Comprou a versão da "Rosa" e seguiu em frente, há 16 anos, formando a cabeça da juventude, sem procurar desmenti-la jamais. Escrevi um livro, "Rompendo o Silêncio ", para, entre outras coisas, provar que a ex-deputada participou de uma farsa, montada especificamente para, por intermédio de minha pessoa, denegrir o Exército (os fatos que ela diz denunciar "teriam se passado nas dependências do Exército"). Esse livro teve três edições e esteve entre os mais vendidos do país, segundo relações publicadas na revista Veja. A primeira edição – 3 mil exemplares - esgotou-se em 48 horas. Provo e comprovo que Bete Mendes é uma grande farsante, que só me caluniou porque estava escudada em suas imunidades parlamentares. Na ocasião, em horário nobre, na entrevista concedida à TV Manchete, pedi-lhe que respondesse a algumas perguntas que até hoje continuam sem respostas.

SG - Qual a sua principal queixa?

BU - A falta de interesse, da maioria da imprensa, para que a verdade deste caso apareça. Em nenhum momento foram pedidas a Bete Mendes provas de suas acusações.

SG - O senhor não teme, quando procurado pela imprensa, ter suas palavras alteradas com o objetivo de prejudicá-lo ainda mais?

BU - Não atendo à imprensa há muitos anos. Todas as vezes que tentei esclarecer alguma coisa, o que disse não foi publicado ou deliberadamente foi modificado. Sempre que proponho responder, por escrito, a alguma solicitação de entrevista, exigindo que ela seja publicada na íntegra, ela é rejeitada.

SG - Predomina no jornalismo brasileiro o pensamento socialista. Nada mais natural, portanto, que o ódio às Forças Armadas do país, ao capitalismo e a tudo que represente ameaça às esquerdas. O que não considero aceitável é o comportamento que passa por cima de tudo em nome da ideologia. O seu caso pode ser um exemplo disso.

BU - As esquerdas, em seu trabalho de conscientização, que reconhecemos coroado de êxito, elegeram a mídia em geral como o instrumento maior de uma orquestração voltada a mostrar os militares como agentes de um sistema capitalista que sustentava uma "ditadura cruel e repressora das liberdades individuais e políticas". Assim, o combate à ditadura militar é a generalização falaciosa que se faz da ação das esquerdas, encobrindo a sua real intenção que sempre foi a de implantar no País um regime marxista-leninista ou a sua ditadura do proletariado. A todo o momento, vemos jornalistas de formação socialista ou intoxicados por esse trabalho de conscientização, que se referem aos governos da Revolução de 1964 com uma ferocidade que não encontra respaldo na vivência política da sua faixa etária. Cito, como exemplo, uma reportagem do Correio Braziliense, de setembro de 2001, que fala de Carlos Lamarca como o "símbolo da resistência à ditadura militar que se instalou no Brasil após o golpe de 1964", fazendo, dessa forma, uma tácita aprovação dos métodos terroristas desse criminoso, comprovando a tese de que tais jornalistas canhotos passam por cima de tudo em nome da ideologia.

SG - Aproveito a oportunidade de entrevistá-lo para ouvir sua opinião sobre o seguinte: é comum o regime militar ser identificado com a repressão aos meios de comunicação. Censura, coação e outras palavras estão diretamente vinculadas ao regime. Queria que o senhor respondesse de forma objetiva: havia mais liberdade aqui do que em outras ditaduras no continente? A existência de O Pasquim durante bom tempo não prova a benevolência do regime com a mídia? A censura que havia chegava muitas vezes a ser patética. Como o senhor responde a isso?

BU - É claro que o Brasil não vivia a plenitude da Democracia, como é entendido esse regime na sua essência. Vivíamos a chamada "Democracia Relativa", em que as liberdades políticas restringiam-se a limites muito bem definidos pela própria razão de ser da Revolução de 1964, ou seja, como um movimento destinado a impedir o processo de comunização do País. Desse modo, criaram-se instrumentos legais que amparavam ações coercitivas como a censura, com vistas a impedir ou neutralizar um trabalho de massas diuturnamente desenvolvido pelas esquerdas. Entendo como "patética" a censura dessa época por distorções de censores muitas vezes despreparados intelectualmente para esse trabalho, o que municiava veículos como O Pasquim na ridicularização do regime, sob a própria complacência deste. Se havia maior liberdade aqui do que em outros países do Continente, não sei responder, mas, como testemunha desse período histórico, afianço que a imensa maioria do povo brasileiro nem se preocupava com tais instrumentos de exceção, pois não lhe causavam nenhum prejuízo efetivo, enquanto que o mesmo não se podia dizer dos comunistas e seus companheiros-de-viagem, a quem se dirigiam o esforço coercitivo. Afinal, seria verdadeira tolice um movimento revolucionário não se proteger das causas que o deflagraram.

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Cronologia dos fatos
1. Primeiro encontro: em 29/09/70, quando da 2ª prisão de Bete Mendes no DOI/CODI/II Exército-SP, órgão de combate a Organizações terroristas sob comando de Brilhante Ustra entre setembro de 70 e janeiro de 74.

2. Segundo encontro: no Uruguai, em 1985. Ustra, como Adido Militar, e Bete Mendes, como Deputada Federal, sem partido, integrando a comitiva do Presidente José Sarney, em visita oficial.

Contatos com a Deputada
1. Em 12/08/85, na Embaixada do Brasil, quando agradeceu Ustra por ter mudado sua vida, segundo relata o próprio coronel. (Bete Mendes contou que o primeiro contato foi ainda no aeroporto de Montevidéo e que Ustra teria feito questão de vê-la, fato enfaticamente desmentido pelo militar).

2. Em 13/08/85, à noite, quando, a pedido de Bete Mendes, Ustra apresentou sua mulher, na recepção ao Presidente. Nessa ocasião, ela repetiu o que tinha dito no dia anterior.

3. Em 14/08/85, despedida no aeroporto, na sala VIP. Retorno da comitiva ao Brasil.

Repercussão
1. Em 17/08/85, o escândalo nos jornais, na TV, em carta ao Presidente, em discurso no Congresso Nacional. No Uruguai, Brilhante Ustra, surpreso, recebe telefonemas de parentes e amigos que repercutem as denúncias de Bete Mendes.

2. Em 5 de Março de 1987, lançamento do livro "Rompendo o Silêncio ", com uma entrevista de 20 minutos na TV Manchete, ao jornalista Alexandre Garcia. Nessa ocasião, cobrada sobre algumas afirmações mentirosas, segundo o coronel, a Deputada não respondeu. A partir desse momento, Bete Mendes passa a fazer acusações genéricas.

3. Em 19 de Junho de 2002, a revista Carta Capital faz matéria em que reafirma as denúncias contra o coronel, desta vez aproveitando-se da polêmica locução da ex-deputada e atriz em documentário sobre a FEB, criticada por Brilhante Ustra.

Comentários  

0 #5 Wanderli 20-10-2015 03:10
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10206773996297563&set=a.2831552877014.147476.1504908568&type=3
+4 #4 SERGIO 12-05-2014 17:55
A VERDADE TEM QUE VIR A TONA SEMPRE
+5 #3 Pedro Cândido 07-05-2014 11:23
Citando Anne:
Voces todos deveriam eh estar presos!!!!
Talvez internados! goulart nunca foi comunista e o que vcs fizeram foi crime e hediondo.


Eu cliquei em um item para sinalizar a minha aprovação ao texto do autor, porém sem perceber o item daria crédito ao comentário imbecil da Anne. Me desculpem! Eu jamais aprovaria um comentário tão ridículo e sem fundamento como o que foi realizado por essa leitora.
+6 #2 Pedro Cândido 07-05-2014 11:19
Parabéns pelo texto. Muito esclarecedor.
-14 #1 Anne 30-05-2013 11:22
Voces todos deveriam eh estar presos!!!!
Talvez internados! goulart nunca foi comunista e o que vcs fizeram foi crime e hediondo.

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