André Naddeo
Direto do Rio de Janeiro
Portal Terra 21/07/14  

A ativista Eloísa Samy, que é procurada pela Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, pediu asilo político ao Consulado do Uruguai na capital fluminense na manhã  desta segunda-feira. Ao lado do também ativista David Paixão e da namorada dele, Camila Nascimento, ela espera a resposta do país vizinho.

“Eu vim aqui pedir asilo político. Isso é uma tremenda arbitrariedade. Eles me receberam e estão fazendo contato com o embaixador em Brasília. Já fiz pedido formal e estou esperando documento para dar entrada efetiva no pedido. Não tenho nenhum tipo de expectativa, estou pedindo socorro mesmo", disse Eloísa, que é advogada, ao Terra.

Eloísa é figura conhecida das manifestações de rua do Rio de Janeiro e no inquérito policial consta que ela teria fornecido sua residência para membros do grupo de ativistas. Ainda na denúncia aceita pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ), ela é citada como uma ativista no início das manifestações, mas que depois passou a incitar os atos violentos. Bastante abatida, Eloísa Samy diz temer pela própria vida. "Assim que soube da (prisão) preventiva, fui para rua e fiquei vagando. Arrumei R$ 300 com uma amiga que não quis que eu ficasse na casa dela por medo”, contou.

Sem ter onde ficar, a ativista colocou um pouco de roupas em uma mochila e decidiu partir para o consulado uruguaio, onde a polícia não pode entrar. A expectativa dela é permanecer no local até que a situação seja resolvida. Dois policiais civis chegaram a entrar na sala onde Eloísa se encontra, num prédio na zona sul do Rio de Janeiro. Diante da ação, um funcionário do prédio - que não quis se identificar - tentou controlar a situação, falando com os policiais: "vocês não podem entrar aqui".

Ao serem impedidos de ficar no local, após a identificação junto a um funcionário do consulado uruguaio, uma vez que a polícia brasileira não tem poder de atuação em embaixadas e consulados, os dois policiais se retiraram do local. Todo o fato foi presenciado pela reportagem do Terra.

Membro do Coletivo de Advogados do Rio de Janeiro (CDA-RJ), Rodrigo Mondego conversou com Eloísa num momento posterior ao contato que o Terra teve com os acusados - após pedido de um funcionário do consulado, a reportagem teve que deixar o local.

Ele explicou que a cônsul uruguaia no Rio, Myriam Fraschini Chalar, recebeu o grupo e que ela está reunindo informações sobre o caso com a finalidade de emitir um posicionamento oficial. Ela será a responsável por comunicar o fato para a embaixada do país, em Brasília, o único com poder para tomar qualquer tipo de decisão.

“Não existe nada concreto, não sabemos como é a legislação uruguaia para esse caso, quais são os tratados, está tudo muito no início ainda”, explicou Mondego. “Não existe nada de concreto. A gente vê pela própria denúncia do MP (Ministério Público) que nada tem relação com a realidade. Citam envolvimento dela (Eloísa) com a FIP (Frente Independente Popular), mas ela é contra, tem problemas com a FIP. Estão faltando com a verdade. Ela é hoje, sim, uma perseguida política”, completou.

Por volta de 13h30, um grupo de manifestantes chegou ao prédio e começou a protestar, inclusive com faixas pedido o fim da perseguição aos ativistas.

Acusações
David Paixão, 18, e Camila Nascimento, 19, estão em uma escuta, divulgada hoje pelo jornal O Globo, em que falam das ações de manifestantes que jogaram coquetéis molotov contra policiais da Tropa de Choque durante um protesto contra a Copa do Mundo no Rio de Janeiro. Ainda dentro das investigações, os demais, entre eles a ativista Elisa Quadros, a Sininho, são acusados de planejar um incêndio na Câmara Municipal do Rio de Janeiro.

David Paixão era ainda adolescente quando foi adotado por Eloísa Samy e passou a viver com a advogada, que por sua vez também já atuou pelo Instituto de Defesa dos Direitos Humanos (IDDH), do Rio. Assustado, junto com Camila, sua namorada, ele preferiu não conversar com a reportagem. “Eu nem sei o que te dizer, cara”, explicou.

Na sexta-feira, o juiz Flavio Itabaiana de Oliveira Nicolau decretou a prisão preventiva de 23 pessoas que estão sendo investigadas pela Delegacia de Repressão a Crimes de Informática que ligam as pessoas a atos violentos praticados durante das manifestações que acontecem desde o ano passado na cidade.

 

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