Terroristas trocados pelo embaixador americano.
Quarta-feira, 25/06/2008, O coronel Ustra foi procurado em sua residência pelo repórter Matheus Leitão e por um fotógrafo, ambos da Revista Época. Atendeu ao chamado da campainha no portão. Com o pretexto de fazer uma reportagem sobre indenizações às vítimas dos terroristas e alegando que já havia ouvido outros oficiais - senador Jarbas Passarinho, general Del Nero, general Aloísio dos Santos e provavelmente outros que não foram citados -, o que era verdade, os dois foram convidados a entrar.

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 O coronel levou-os até sua mulher, já que ele tem por norma não dar entrevista. Por que ela? Porque há 20 anos estuda profundamente a luta armada. Porque, cada vez mais, procura aprofundar-se sobre assunto. Dª Joseíta administra o site www.averdadesufocada.com, juntamente com um civil, que mora no Rio de Janeiro. Apesar de muitos afirmarem que o site é do Ustra, o site é dela e do civil.  O assunto lhe interessa, cada vez mais. 

 O TERNUMA, outros sites congêneres e o www.averdadesufocada.com têm feito, permanentemente, campanhas para que os familiares das vítimas sejam indenizados.

 Por favor, não deturpem!  Pleiteiam indenização para os familiares das vítimas que, nas ruas, o Estado não protegeu da sanha dos terroristas.

Voltemos ao repórter, que aparentava trinta anos. Implorava que o coronel Ustra lhe desse uma entrevista. “Precisava mostrar o outro lado, passar a limpo a história, seria imparcial. O Brasil precisava conhecer sua história e outros chavões que conhecemos há mais de 20 anos”. Dizia isso com um ar de jovial honestidade!

 Recebidos com toda a consideração na intimidade da residência do casal, o repórter iniciou a conversa, logo a desviando para o caso dos processos movidos contra o Ustra. “Era preciso dar vez ao coronel, colocar sua versão na mídia”, dizia ele.

 Prosseguiram na conversa de sempre: “dar vez para o coronel Ustra colocar a sua versão na mídia; da necessidade de se chegar ao meio da história; de chegar ao ponto em que a verdadeira história dos anos de chumbo fosse esclarecida; necessidade da abertura dos arquivos”... Vieram as perguntas, às quais a mulher do coronel respondeu, rebatendo as infâmias, mostrando provas e contradições em depoimentos, mas sempre lhes dizendo que não era uma entrevista.  Nesse meio tempo, Dr Paulo Esteves, advogado de Ustra telefonou de São Paulo. Ao ser informado por Ustra da presença dos visitantes, Dr Paulo orientou-o que entregasse ao repórter um documento de 31 páginas feito pelo coronel, inclusive autorizando o uso desse trabalho como subsídio para a matéria.

Trata-se de um resumo da situação de violência na época; da verdadeira motivação da luta armada; da criação dos DOI; da indicação de Ustra para o comando do Órgão; do trabalho do DOI, enfim, um histórico para que fosse usado pela defesa. Em um clima bastante amigável, o repórter pediu que lhe fossem fornecidas as Folhas de Alterações do coronel, pois ele faria uma matéria que mostraria, sem parcialidade, os dois lados da moeda. A mulher do coronel tirou cópias, com autorização dele, de todo o tempo de seu comando no DOI. O repórter esperava encontrar, nesse período, pelo menos alguma repreensão desabonadora.

Ficaram na casa do coronel cerca de três horas e meia, cordialmente conversando e mostrando as contradições que os depoimentos dos presos apresentam, mas que ninguém averigua.

 Como um menino pidão, rogava que lhe ajudassem a desvendar a verdade. Que não era parcial.

 Ilusão! No dia seguinte, no portal da Época, a chamada para o “furo” que sairia no domingo.  Decepção! O documento que o coronel entregara ao repórter foi deturpado com palavras para indispor Ustra com o Senador Romeu Tuma. Outro artigo, de Paulo Moreira Leite, diretor da revista Época, era apenas a expressão da ideologia do autor. Procurado por telefone , o repórter Matheus prometeu fazer algumas ressalvas na matéria, o que foi feito.

 No domingo, a reportagem deixava claro que realmente eles não têm interesse nenhum em chegar ao fim dessa história. Não querem averiguar, nem dar chance para que o leitor faça a sua própria avaliação. Uma pessoa é recebida em uma casa e consegue algumas horas de conversa com um homem que há 20 anos não atende a repórteres. Ocupa sete páginas de uma revista, mas perde duas : uma tecendo comentários sem sentido para o que se propôs e outra com uma fotografia do coronel, não se sabe tirada em que momento e vejam o “interesse” em ser imparcial, em “mostrar” a história:

          Depois de ter, em primeira mão, como ele mesmo disse, um “furo”, um texto de 31 páginas, com os seguintes tópicos:

 

 CONTESTAÇÕES ÀS INJÚRIAS E DIFAMAÇÕES CONTRA MIM

Pelo Coronel Reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra

 

1.    INTRODUÇÃO

2.   MOTIVAÇÃO PARA A LUTA ARMADA

3.   AÇÕES DA ESQUERDA REVOLUCIONÁRIA

4.    LUTA CONTRA A ESQUERDA REVOLUCIONÁRIA

5.   MEU COMANDO DO DOI/ II EX

   6.   DESTINO DOS PRESOS PELO DOI

   7.   DESTINO DOS MORTOS EM CONFRONTO COM O DOI

   8.   EXÉRCITO RECONHECEU E APROVOU O MEU TRABALHO NO DOI

9.   IMPOSTURAS DO REVANCHISMO

a.     Monografia do Maj Perdigão;

                  b.     A vala do Cemitério de Perus; e

c.     “Verdades” dos detratores

        10.  CONCLUSÃO

 

 

Vejam o interesse em ser imparcial, em mostrar a história:                           

 

 

 A reportagem começa: – “o coronel Ustra é conhecido como um “sujeito do barulho”. Ele promove reformas com freqüência, que deixam a rua ocupada por veículos de entrega de material, embarque e desembarque de tijolo, areia e cimento – e aquele som característico de homens trabalhando”.

E continua: “Ustra derrubou o muro da frente, de alvenaria, para construir uma fachada inteiramente de vidro, o que torna a vida dos moradores mais transparente para quem olha de fora.”. Qual o problema? Teriam que se esconder?

 

 Sua casa tem um jardim mantido com cuidados profissionais, quatro carros e uma moto na garagem”. O que é deduzido nem sempre é verdadeiro. Como as aparências enganam! O jardim foi planejado e executado por sua mulher.

 Quanto aos carros, foram comprados com dinheiro honesto. Um é de uma filha, outro do coronel, outro da mulher e o quarto é da auxiliar da casa. A moto pertence ao genro.

Continuo na dúvida. Qual a sua intenção ao descrever tudo isso? Até a sogra de Ustra é citada na matéria. O importante, o documento, vai ficando para o fim. Para ele, parece, é coisa sem importância. E, mais:

“Quase sem cabelos, aos 76 anos, 1,74, um coração frágil que já exigiu três stents (...)Ustra costuma ir à padaria. Continua católico, mas deixou de ir à missa. Diz gostar de ir ao banco pagar contas, faz compras no supermercado e vai ao correio (omite que é para despachar os seus livros vendidos pela internet). Abre a porta quando tocam a campainha”. O que interessa às pessoas, ansiosas para  conhecer os fatos ocorridos nos chamados “anos de chumbo”, o número de cabelos que Ustra ainda tem na cabeça? O que interessa aos leitores esses detalhes triviais  do dia-a-dia das pessoas em foco? É uma revista séria ou um órgão de sensacionalismo marrom? E por  aí ele vai:

 Quando Época apareceu em sua porta, (...) Ustra pediu licença e consultou Joseíta. Voltou dez minutos depois. Desculpou-se pela demora e deu início a  uma conversa de  quatro horas”. De novo, o que interessa  isso? Um marido consultar sua esposa sobre um assunto que envolve a família é algo incomum?    

E continua,  com o seu assunto que nada tem a ver com a matéria que ele havia proposto:

“ A casa de Ustra se assemelha  a muitas residências de militares da reserva  e altos funcionários públicos de Brasília. Com samambaias e uma  grande churrasqueira do lado de fora, tem um estilo impessoal, que lembra uma habitação funcional”. Nem sei como eles viram a churrasqueira. Só se, enquanto esperavam,  aproveitaram, sem autorização do casal, para espiar, pelos vidros das portas da sala, a parte dos fundos da casa, que pode ser impessoal para ele, mas que,  para Ustra e sua mulher, cada cantinho tem um significado especial  e vinte anos  de sacrifícios para pagar. Por que tantos detalhes da vida privada do casal? Falta de assunto, apesar de ter nas mãos um texto de 31 páginas, mas  que a ele não interessava explorar?

E, continuam as observações:

Há objetos característicos de uma classe média mais antiga”

“Grossas garrafas de cristal usadas para servir uísque, vodca e uma bebida cor de Campari. De novo as conclusões do repórter são erradas:  as garrafas contém líquidos com anilina, recurso muito usado para dar colorido ao cristal.

E o documento que recebeu para investigar e procurar a prometida “imparcialidade”? Nada disso. Pretenderam uma matéria, grande, intrigante e fantasiosa para impressionar. Foi o recurso de “encher lingüiça”, para não ter que esmiuçar o conteúdo do documento.

O  alvo passa a ser uma mesa  com porta retratos da família:

“O mais destacado mostra o coronel em viagem ao exterior - sorridente, esquiando”.

“O ambiente é calmo mas há uma tensão permanente no ar, como se ali todos estivessem em vigília.” Joseita fala o tempo inteiro. Ustra faz um ou outro comentário durante as pausas da mulher. Em determinado momento, levanta-se, vai até a cozinha e volta com uma bandeja com torradas e patê.

 O documento de defesa e as Folhas de Alterações também não interessam. Para que entrar na história que está contada nas trinta e uma páginas? Melhor passar para o público sua visão de  psicólogo.  Nem sei onde ele viu todos em vigília, já que na sala só estavam ele, o fotógrafo e o casal, este último muito confiante de que, dessa vez, alguém daria uma chance de sua história ser contada com imparcialidade. Não tinham por que estarem tensos.  Os donos da casa viam no repórter um menino, que poderia ser um neto, prometendo escrever sobre os documentos a ele fornecidos. O repórter, na sua  dissimulação, trocou confiança por vigília

 Já que entrou em tantos detalhes supérfluos, não entendemos por que não escreveu que o coronel foi à cozinha porque sua mulher estava impossibilitada de caminhar sem o andador que está usando nos últimos tempos. Repórter estranho... Será que esse detalhe para ele não tem importância?  

 Essa é a primeira página.  Na seguinte, uma foto do coronel em toda ela.

 Aí, começa o “julgamento”. Os tópicos do documento são praticamente ignorados, até que, finalmente, surge um dado razoável. Creio que, em raríssimas vezes,  o número dos militantes subversivos e terroristas que perderam a vida chega perto de um limite razoável - 300 mortos. Mas a finalidade dessa aproximação com a  realidade,  é dizer que o número de mortos de seu comando (47) é “uma soma considerável”. Não cita que dessa lista,  no documento entregue a ele, 10 militantes estão relacionados separadamente, por não serem de responsabilidade de seu comando. 

Como os “Tribunais Vermelhos” da época da luta armada, jornalistas desse tipo são juízes e carrascos. Fazem o “justiçamento”,  sem direito à defesa.

 Preferiu colocar apenas a versão de um homem, que desde os 16 anos , juntamente com seu pai assaltava e participava ativamente da luta armada;  preferiu repetir a mentira de uma atriz, que inclusive não quis  dar entrevista; de uma militante do PC do B , e da irmã de um militante do PORT que movem um processo contra Ustra; continua  com a afirmativa, que hoje nem os militantes de esquerda acreditam-  que os grupos armados lutavam contra a ditadura.O repórter cita as versões dos militantes, mas omite qualquer comentário sobre o capítulo 9, intitulado: “Verdades dos detratores”, em que Ustra contradiz as acusações .

E vem a dúvida na cabeça do casal: será que ele leu o documento?

 Aproveita um gráfico cuja fonte é o Brasil Nunca Mais, onde diz que a tortura recrudesceu depois do AI-5, em 1968,  e cujo o pico, segundo o gráfico  é em 1970, caindo vertiginosamente até 1974.

 Ustra assumiu o comando do DOI  em 29 de setembro de 1970 e saiu, em gozo de férias em 04/01/1974 , em 23 de fevereiro, entrou em trânsito, vindo para Brasília, para assumir nova função.  No período que ele comandou, o gráfico é visivelmente desfavorável a afirmação , que, com a maior tranquilidade  o repórter faz: “Ustra acabou identificado como símbolo daquilo que o regime militar brasileiro produziu de mais nocivo – a crueldade, a morte, o desaparecimento, a violência contra cidadãos desarmados e sem defesa”. 

 

 Em mais de um terço de página faz considerações a respeito da Lei da Anistia, comparando o Brasil a países sul-americanos, além de  associações  com Guantánamo.

 Os promotores que moveram o processo contra dois comandantes do DOI de São Paulo também são jovens. Também conhecem a história por meio de parte da mídia e por declarações de ex-militantes da esquerda revolucionária.

 As vítimas da violência da luta armada, para as quais seriam sugeridas indenizações (segundo ele, foco principal da matéria)  ficam reduzidas a citação específica de  dois casos: Cardênio Jayme Dolce e, segundo a reportagem,  "o capitão Carlos Lamarca com um grupo guerrilheiro julgou e condenou á morte um tenente  do Exército enviado em sua captura"`

É muita displicência para quem queria fazer uma reportagem sobre as vítimas do terrorismo. Nem a história do  Tenente da Polícia Militar de São Paulo, Alberto Mendes Júnior,  refém trocado por um grupo de subordinados feridos em uma emboscada  e que , depois foi morto , a coronhadas pelo grupo de Lamarca, ele conhece.

A fim  de informar os que ainda não sabem, foram 120 mortos vítimas dos terroristas e centenas de cidadãos com seqüelas. Entretanto, as entidades de  direitos humanos e as autoridades do momento, além de alguns segmentos da mídia, não estão preocupados com eles, nem com suas famílias. A dor tem mais intensidade se for do mesmo credo e viés.

O repórter omite mais um capítulo  do documento que recebeu, A VALA DE PERUS, onde é explicado porque alguns presos eram enterrados com nomes falsos. Pinça trechos e escreve:

 Ustra diz que Tuma comparecia com freqüência ao DOI  e que teria conhecimento de tudo o que acontecia ali, inclusive que pessoas mortas pelo regime teriam sido enterradas com nomes falsos.”

    E de insinuação em insinuação, o repórter que “queria fazer uma entrevista sobre as vítimas do terrorismo”, vai fazendo seu julgamento, sem dar chance ao coronel de apresentar sua defesa. Segundo diz na reportagem, o documento que ele recebeu está no Portal da revista. E quem não  o acessar ou não dispuser de computador? Restarão apenas as denúncias de ex-militantes da luta armada, as deturpações,  as insinuações e as  conclusões impertinentes do repórter Matheus.

Quanto a   ele, a mulher do coronel, várias vezes se  pergunta: será que foi Matheus que escreveu a matéria publicada na Época ou teve o dedo de mais alguém.

De um modo ou de outro, porém, ela se sente traída.  

Mais uma vez a mentira e omissão imperam sobre os fatos.

 

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