PF relaciona dinheiro a Dantas e vê indícios de “proventos do crime”
Por Fausto Macedo, Marcelo Godoy e Rodrigo Pereira
O advogado e ex-deputado do PT Luiz Eduardo Greenhalgh recebeu R$ 650 mil que a Polícia Federal relaciona à organização criminosa liderada pelo banqueiro Daniel Dantas. Em conversa interceptada às 12h13 do dia 4 de abril, o petista discute com um homem identificado como Carlos Amarante como investir seu dinheiro. Em seguida, ele revela, segundo os federais, que recebeu “honorários de R$ 650 mil”. Amarante fornece uma conta no HBS Pactual para que a quantia seja depositada.

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“Há indícios de que esses valores sejam, na verdade, proventos do crime”, afirma o relatório da operação assinado pelo delegado Protógenes Queiroz.

As interceptações feitas pela PF mostram que, desde dezembro de 2007, pelo menos, Greenhalgh já fazia lobby para Dantas dentro do governo federal e de outras administrações petistas, como o governo estadual do Pará.

No dia 12 de dezembro, o banqueiro conversa com sua irmã Verônica Dantas sobre possíveis ações contra o Opportunity. No diálogo, eles revelam que o petista contou a Guilherme Henrique Sodré, o Guiga, sócio da empresa GLT Comunicações, que “estão armando contra”.

Na conversa, Dantas e Verônica demonstram confiar nas informações do advogado. Eles chamam Greenhalgh pelo seu codinome no grupo, segundo a PF: Gomes. De acordo com Dantas, “Gomes não é alarmista”.

Além de Greenhalgh, outro ex-deputado do PT, Sigmaringa Seixas, também foi mobilizado para ajudar o banqueiro.

É o que provam, aponta a PF, as conversas entre os dois petistas. No dia 16 de maio, às 11h55, Greenhalgh telefonou para Seixas e disse: “Estou convencido: para o que eles querem, você é o melhor, pelo menos pra conversar, pra sentir, pra ver uma estratégia de aproximação.”

Mais adiante, Greenhalgh revela suas intenções em relação ao sócio-fundador do Opportunity. Ele demonstra querer “reabilitar” Dantas dentro do governo e do PT.

A conversa ocorreu pouco depois de o banqueiro fechar a venda de sua parte na Brasil Telecom (R$ 985 milhões) à Oi. “Porque o cara agora vai pegar o que ele vendeu e vai cantar noutro lugar”, diz o petista. “Ele tá começando outra vida. Vamos ver. Se fosse na época da União Soviética, tinha que reabilitar esse cara”, afirma. Greenhalgh conclui, no entanto, que seu desejo dificilmente se realizará e explica o motivo: “Ele (Dantas) faz muita bobagem, mas, se a gente puder evitar que ele seja constrangido e tal, a solução é essa.”

Para o delegado Protógenes, não há dúvidas de que os serviços prestados por Greenhalgh passam longe da assessoria jurídica. “Em verdade, no contexto geral, ele seria o homem de ligação entre pessoas do Poder Executivo Federal, empresas estatais e Daniel Dantas”, afirma.

Além disso, o grupo tentou “enfiar” uma emenda no meio da Medida Provisória 412, que tratava da prorrogação do Reporto, o Regime Tributário para Incentivo à Modernização e Ampliação da Estrutura Portuária. O grupo de Dantas tem empresas na área portuária por meio da Santos Brasil S.A.

Em 2003, o banqueiro foi beneficiado pela Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp), que ignorou ordem do Ministério dos Transportes para suspender a concessão de portos no País. A decisão abriu caminho para a Santos Brasil assumir operações de área de 180 mil metros quadrados do porto.

A conversa sobre o Reporto ocorreu entre Greenhalgh e o publicitário Sodré, o Guiga, que é o responsável por contatos de Dantas com parlamentares, de acordo com a polícia.

 

Petista diz ser vítima de represália por causa da Abin

Fausto Macedo, Marcelo Godoy e Rodrigo Pereira

O ex-deputado e advogado Luiz Eduardo Greenhalgh (PT) afirmou ser vítima de represália porque “descobriu a ação da Agência Brasileira de Informações (Abin) no caso” que levou à prisão Daniel Dantas. De fato, em telefonema em que conversa com o chefe de gabinete da Presidência da República, Gilberto Carvalho, o petista relata a ação de um agente no Rio que estaria seguindo o executivo Humberto Braz, ligado ao Opportunity.

Em nota, Greenhalgh se explica: “Reafirmo que agi nos limites da profissão de advogado. Todas as conversas que tive com qualquer pessoa sobre esse caso foram, como está na moda dizer, absolutamente republicanas.”

Sigmaringa Seixas, advogado e também ex-deputado pelo PT, reagiu com indignação aos grampos da PF e às conclusões dos policiais. “Estão malucos. Também pediram a prisão de uma jornalista porque ela publicou uma matéria. Conheço o Luiz Eduardo há mais de 30 anos. Temos história política e como advogados juntos”, justificou.

“Não me lembro de ele me pedindo isso, mas, e se tivesse, qual o problema de achar que eu sou melhor para falar sobre determinado assunto, determinado inquérito que possamos estar trabalhando juntos? Qual o problema? Espantoso é gravar conversa entre dois advogados e depois surgirem transcrições maldosas. Isso é que é espantoso. Estamos vivendo um Estado policial”, acusou.

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