Protógenes

Ricardo Galhardo, Soraya Aggege e Luiza Damé - O Globo
O delegado Protógenes Queiroz deixará sexta-feira o comando da Operação Satiagraha, investigação da Polícia Federal (PF) sobre supostos crimes do grupo do banqueiro Daniel Dantas, do megainvestidor Naji Nahas e do ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta. Os dois auxiliares de Protógenes no caso, os delegados Carlos Eduardo Pellegrini e Karina Souza, também sairão das investigações. A saída de Protógenes foi acertada numa reunião entre ele e o diretor de Combate ao Crime Organizado da PF, Roberto Troncon, na segunda-feira, em São Paulo. É a primeira vez que um delegado deixa o comando de uma grande operação da PF no auge das investigações.

 

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Fontes envolvidas na investigação disseram que os três delegados enfrentavam "pressões políticas" de Brasília desde que surgiu o nome do chefe de Gabinete da Presidência, Gilberto Carvalho, no noticiário. Em gravações interceptadas pela PF, Carvalho aparece repassando informações ao ex-deputado petista Luiz Eduardo Greenhalgh, que trabalhava para Dantas.

O diretor interino da PF, Romero Menezes, nega que Protógenes tenha sido afastado. Segundo ele, o delegado pediu para fazer uma especialização da Academia Nacional de Polícia, em Brasília, a partir de segunda-feira. O curso, de 30 dias, é uma exigência para a promoção de delegados com dez anos de profissão à "classe especial", último estágio na carreira na PF. Desde março, o delegado acompanha aulas pela internet. Protógenes se comprometeu a entregar, na sexta-feira, o relatório dos três inquéritos sobre Dantas.

 

Gilmar nega habeas corpus a presos

Desde o início da fase ostensiva da operação, terça-feira da semana passada, Protógenes vem sendo alvo de críticas que vão do presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, até o ministro da Justiça, Tarso Genro. Gilmar atacou a "espetacularização" das prisões para, depois, conceder habeas corpus a Dantas. Parte dos ataques foi endossada por Tarso e pelo diretor da PF, Luiz Fernando Corrêa.

Ontem, Gilmar negou habeas corpus a Hugo Chicaroni e Humberto Braz, presos por tentativa de suborno à PF em nome de Dantas. O ministro entendeu que eles estavam diretamente envolvidos na tentativa de corromper o delegado e sua situação é diferente da dos outros presos porque foram pegos em flagrante.

Quarta-feira passada, Corrêa determinou a abertura de uma sindicância interna para apurar supostos excessos do delegado. O motivo oficial seria a divulgação da operação em desacordo com o manual de procedimentos internos da PF. A cúpula da PF estava irritada também porque Protógenes se recusou a repassar aos chefes imediatos informações sobre a operação - só fazendo isso às vésperas da ação. O delegado também irritou Corrêa ao pedir a ajuda da Agência Brasileira de Inteligência (Abin).

Em declarações semana passada, Protógenes também teria permitido a interpretação de que o ex-ministro José Dirceu está sob investigação e de que a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, poderia, numa segunda etapa, entrar na lista.

Antes de acertar a saída, Protógenes foi à Justiça para garantir a matrícula no curso e pedir recontagem de tempo de serviço, que pode se traduzir em aumento de salário. Tarso disse ontem que foi coincidência que as férias de Corrêa, que começaram segunda-feira, e a licença do delegado tenham ocorrido simultaneamente.

Segundo Tarso, o delegado da Operação Satiagraha completou dez anos de serviço e, pelas regras da PF, teria de sair para fazer uma reciclagem.

- É uma rotina. E o inquérito já está 99% concluído, e até o relatório ele já fez - disse Tarso.

A assessoria de imprensa não soube informar os motivos da saída de Karina e Pellegrini, mas a PF negou que tenha relação com as críticas de Gilmar. Karina teria pedido para ser remanejada para a corregedoria da PF e Pellegrini, que estava emprestado, deve voltar para o setor de origem. Segundo a PF, novos delegados serão designados para acompanhar as investigações.

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