ALN abandona companheiro ferido - 06/10/1971
Pela editoria do site

No dia 6 de outubro de 1971, às 7 horas, na Rua Artur Dias, nº 213, São Paulo, os militantes da ALN Monir Tahan Sab (Careca ou Sharif), Venâncio Dias da Costa (Rossi) e Zeca Yutaka (Roberto Japonês) tentaram roubar um carro pertencente a um capitão da Polícia Militar. O capitão e o soldado PM, motorista do carro, revidaram ao ataque dos assaltantes. Em conseqüência do tiroteio, o capitão perdeu um dos dedos da mão e o soldado foi ferido com um tiro na perna.

Teto completo


Os assaltantes conseguiram fugir. Monir estava ferido com um tiro na garganta e Yutaka com um tiro de raspão na bacia. Foram levados para um aparelho da ALN, ocupado por um casal de militantes, em Santo André/SP.

 

Na tarde desse mesmo dia, um dirigente da organização foi ao aparelho acompanhado por uma médica, que avaliou a situação e pouca coisa pôde fazer no sentido de minorar o sofrimento de Monir.

 

No dia seguinte, 7 de outubro, Lídia Guerlenda, Eliane Potiguara Macedo e Yuri Xavier Pereira, todos da ALN, seqüestraram, à tarde, no Hospital das Clínicas (HC),  um cirurgião de tórax. Ao saber do que se tratava, o médico explicou que era especialista em tórax e que pouco poderia fazer a respeito de um tiro no pescoço. Indicou um amigo especialista em cabeça e pescoço, que por ele foi trocado. Esse especialista pouca coisa pôde fazer, por absoluta falta de recursos médicos. Sugeriu que Monir fosse internado num hospital, para ser operado.

 

         Nesse mesmo dia, um companheiro da direção da ALN marcou um ponto com os donos do aparelho para o dia 10 de outubro. Ora, no estado em que se encontrava, nesse espaço de três dias, Monir certamente morreria.

 

          Supõe-se que a direção da ALN aproveitou a situação para se livrar de Monir, pois ele vinha divergindo da maneira como a ALN conduzia a luta armada.

 

Reforçando a idéia, Luís Mir em seu livro A Revolução Impossível, escreve:

“A lista de justiçamentos, além de Márcio, incluía Sebastião Mendes Filho e Munir Tahan Sab. Foram salvos pela repercussão e pelo choque do fuzilamento de Márcio. Dentro e fora da esquerda armada.”

 

No dia seguinte, 8 de outubro, o casal responsável pelo aparelho levou um amigo médico para examinar Monir e este foi taxativo: se não o internassem num hospital, teria poucas horas de vida.

 

Monir pediu ao casal que o entregassem ao seu irmão, que saberia como proceder para salvá-lo. Atendendo ao seu pedido, eles o levaram até o bairro do Ipiranga, onde o entregaram ao irmão que, imediatamente, o encaminhou ao Hospital São Camilo, ao mesmo tempo em que comunicava o fato às autoridades.

 

Após receber assistência médica adequada, foi transferido pelo DOI para o Hospital das Clínicas (HC), onde foi submetido a três cirurgias.

 

 Informados de que a ALN queria justiçar Monir, o DOI era obrigado a manter, continuamente, no HC, uma Turma de Busca e Apreensão, para dar-lhe segurança e evitar que fosse resgatado pela organização ou fosse por ela assassinado.

 

Após um período no HC, por medida de segurança,   Monir foi ransferido para o Hospital Geral de São Paulo (Hospital Militar do Cambuci), onde passou a convalescer. Sempre que precisava fazer uma nova cirurgia, ela era feita no HC. Algumas vezes, durante a semana, era conduzido do Hospital Militar para o Hospital das Clínicas, onde fazia os curativos.

 

 Monir  sempre se mostrava agradecido pela assistência que os membros do DOI lhe prestavam e reconhecia que, se estava vivo, muito devia ao que a repressão estava fazendo por ele e quando  lhe foi pedido um testemunho escrito para registrar a maneira como estava sendo atendido, logo se prontificou.  E, no Hospital Militar, onde se recuperava,  de livre e espontânea vontade, escreveu o seu depoimento.

 

Nessa ocasião, por estar ainda padecendo com os seus ferimentos, ansioso pelas futuras intervenções cirúrgicas por que passaria e com a esperança continuada de um dia vir a gozar de plena saúde, escreveu o seu depoimento com sinceridade, com as palavras surgindo de um coração agradecido e que via no comando do DOI o caminho para a sua cura.

 

Nesse depoimento, Monir não entregou nenhum militante, nem mesmo citou o nome dos companheiros com quem praticou a ação. Não “abriu” as pessoas que o atenderam, nem o “aparelho” onde foi atendido.

 

 Será que hoje, já recuperado,  levando vida normal, ele teria a coragem de vencer o patrulhamento ideológico e confirmar o depoimento transcrito abaixo?

 

 “Após ser ferido em tiroteio, juntamente com outro companheiro que também caiu ferido, fomos conduzidos por outros dois companheiros para o aparelho de um destes.

O meu estado era crítico: havia levado um tiro na altura do pescoço, que provocara um tremendo rombo. Logo quando recebi o tiro calculei que havia atingido alguma artéria importante, mas no aparelho vi que não, embora expelisse muito sangue pelo orifício produzido pelo projétil no meu pescoço.

Expelia, sem parar, golfadas de sangue coagulado; às vezes o orifício era bloqueado por pelotas de coágulos, impedindo-me a respiração, que só era recobrada com muito esforço, depois de muito tossir.

Quanto ao outro companheiro, sofreu um ferimento de raspão na altura da bacia, imobilizando-lhe uma das pernas.

Pois bem, voltando ao meu caso que era mais sério, víamos que a qualquer momento eu poderia vir a falecer por falta de respiração.

Isto me levava a avaliar o meu estado e, desde o início, sentir que teria de ser socorrido com urgência.

Voltamos, naquela altura, toda nossa esperança no esquema médico que a direção da ALN havia dito para os militantes, que havia montado. Nossa primeira preocupação, diante deste fato, foi contatar a direção. Antes, porém, conseguiu-se entrar em contato com o grupo divergente da ALN, colocando-os a par da situação.

À tardinha chega no aparelho uma moça que se dizia médica, juntamente com um elemento dos divergentes. Fazem pouco de prático, uma presença mais para constar, possivelmente para avaliar até que ponto poderiam tomar posição diante do problema.

No dia seguinte, de manhã, surge no aparelho um elemento de direção na ALN com um médico seqüestrado. Mas, além de alguns remédios, não traziam nenhum outro material. Não pôde fazer mais do que algumas injeções e ligar soro no meu braço.

O elemento da direção se limitou a fazer alguns comentários inoportunos acerca de ações.

O médico foi embora às 11 horas e o militante da direção ficou até um pouco mais tarde, sem tomar nenhuma medida acerca de nossa segurança: o aparelho já estava saturado do entra-e-sai de pessoas que não parava mais, chamando naturalmente a atenção dos vizinhos, além da grande possibilidade que havia de ser detectado  pela polícia, a partir de informações do médico que lá esteve. Eram então dois companheiros feridos, o dono do aparelho e sua mulher, e ainda mais uma aprendiz de enfermagem que estava ajudando-nos, que corriam o risco de se verem cercados no aparelho pela policia, e a direção da ALN sem esboçar a menor preocupação, quando ela tinha condições de deslocar cada um dos feridos para aparelhos mais seguros etc.

Pois bem, o pior de tudo é que o dito companheiro de direção deixou o aparelho e só marcou ponto para 3 dias depois com o dono do aparelho que introduzia e retirava as pessoas do aparelho.

Isto implicava simplesmente no seguinte: a organização não saberia nada acerca do desdobramento de nosso estado, principalmente, o meu que era mais grave, durante 3 dias. Interessante é que meu estado era de gravidade tal que qualquer um via logo que em 3 dias, no mínimo, ele agravaria de maneira fatal.

Estes dois dados, estes dois fatos, acima expostos foram bastante para concluirmos e para chegarmos ao consenso de que a direção da ALN havia nos abandonado à própria sorte, embora tentando fazê-lo de forma sutil, levando um médico seqüestrado para dar uma satisfação, pelo menos, aos quadros da organização.

Tiramos uma posição comum que via na divergência existente entre nós e a dita direção, o motivo principal da conduta da organização, abandonando-nos.

Tivemos uma sensação concreta que o nosso estado crítico, principalmente o meu, era aproveitado pela direção para se ver livre de nós que a criticávamos pela condução que dava à luta, pela forma cupulista, oportunista e carreirista que seus elementos chegavam à direção. Isto tudo era agravado quando agindo assim ela demonstrava também a falta total de senso humanitário, da falta de flexibilidade diante dos problemas concretos que a guerra trazia. Fazendo tudo a partir de um falso espírito guerrilheirista, sem um critério de análise e avaliações concretas de cada fato que surgia, e procurando dar a solução mais correta a cada um.

A partir daquele momento vimos que todas as medidas deveriam ser tomadas por nós mesmos e não contar mais com a organização.

Foi assim que, no dia seguinte, o dono do aparelho veio com um médico que conhecia.

Este ajudou a atenuar o meu estado um pouco, já que havia piorado muito, mas mostrou, sobretudo, que havia necessidade urgente de eu ser atendido por um especialista para ser operado.

Convenci aos dois companheiros que eu deveria ser entregue às autoridades para que pudesse ser medicado. Defendi a posição que diante do abandono por que encontrávamos, eu deveria entregar-me como solução para tratar-me, diante da omissão da direção da ALN.

Eles acabaram concordando. Para isso chamamos meu irmão, para quem fui entregue no bairro Ipiranga.

Fui conduzido, por meu irmão, ao Hospital São Camilo. Dois dias depois, fui para o Hospital das Clinicas, onde fui submetido a3 cirurgias: gastronomia, traqueotomia e extração da bala.

Hoje, me encontro em plena recuperação, em bom estado num hospital onde a assistência é das melhores, aguardando para ser submetido a mais outra operação, desta vez do esôfago, que me devolverá as condições necessárias para poder alimentar pela boca e respirar pelas narinas.

Em todo este tempo, isto é, desde quando me entreguei, até hoje, os órgãos de repressão, mais concretamente a Operação Bandeirante, vêm me dando toda a assistência possível, têm se esforçado ao máximo, no sentido de oferecer-me condições para tratar-me em busca de minha plena recuperação, além da proteção que vêm me dando.

É bom, aliás, falar que a cobertura da OBAN tem sido decisiva na minha recuperação e no meu tratamento de um modo geral.

Espero operar daqui a poucos dias e sair-me bom, graças às minhas condições físicas atuais e aos recursos médico-hopitalares que a OBAN vem me propiciando.

 

Ass: Monir Tahan Sab

SP, 09/01/72.”

 

O original desse manuscrito deve estar arquivado no Superior Tribunal Militar.

 

Fontes:

 -"A Verdade Sufocada - A história que a esquerda não quer que o Brasil conheça" - Carlos Alberto Brilhante Ustra

 - Projeto Orvil

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