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Categoria: Diversos
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 Por Jarbas Passarinho
O delegado da Polícia Federal, querendo ou não, criou um problema mal resolvido que tem várias facetas obnubiladas. A Polícia Federal, ao que tudo indica, tem alas independentes que se hostilizam dentro do órgão. Em documento devidamente encaminhado à Procuradoria Geral da República, o delegado Protógenes denuncia obstrução da apuração. Noutro, informa que seus subordinados, que o acompanhavam na investigação do affair Daniel Dantas, foram seguidos e espionados.

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É normal que o diretor-geral da Polícia Federal exigisse de Protógenes a informação dos nomes dos alvos da investigação, um dia antes da realização da operação, com a ameaça de retirar-lhe todos os meios e afastá-lo se não obedecido? Corro o risco de julgar errado se a pressão para saber os nomes dos que seriam presos espetacularmente no dia seguinte seria curiosidade profissional apenas, ou dever não observado pelo delegado? Seria por falta dessa natureza que levou o seu chefe a considerá-lo insubordinado?

Não conheço o dr. Teixeira e não posso fazer julgamento de suas intenções em cobrar do subordinado, em termos ásperos e embutidos em ameaça de interromper a operação. Não aprecio invadir o campo vasto da leviandade. Outra vertente nublada é o Ministério Público, que está empenhado em esclarecer a possível sabotagem ao trabalho do delegado Protógenes, sonegando-lhe meios, prontamente dados assim que ele deixou a chefia da operação. Também quer saber como se deu o suposto vazamento dos dados sigilosos da operação. E o autor.

O delegado Protógenes, por seu turno, não inventa metodologia de trabalho, quando chama a televisão para documentar as prisões, já que essa tem sido a forma pela qual vem procedendo a Polícia Federal. O presidente da República, que certamente tem muito melhores e abundantes informações, não gosta do que ele chama de pirotecnia, das operações casadas com os holofotes das televisões. Isso foi considerado uma das provas da indisciplina do delegado demitido. Demitido, escrevi eu?

Não foi o que informou a nota oficial dos superiores do delegado. Exaltado, disse o mesmo, ante as câmaras de TV, o presidente Lula. Entre irado e desafiador, afirmou que o delegado Protógenes deixou a função porque pediu para deixar. Desafiou-o a dizer o contrário, desafio que ficou sem resposta. Houve reunião inusitada, por várias horas, com o desafiado e seus superiores hierárquicos imediatos, do que resultou um resumo de três minutos como informação ao público. Pois o delegado, no dia seguinte, reafirmava ter sido dispensado da investigação.

Não chego a afirmar, como o fez um grande jornal, que o desafio do presidente foi uma farsa. Eu, chamar o presidente de farsante? Nunca praticaria tal ignomínia, mas se meus ouvidos ainda me permitem ser ouvido, como atesta meu último mapa audiométrico, digo que ouvi o presidente dizer, com ênfase de quem está tomado do que Bobbio chamava de santa indignação, que o delegado Protógenes deveria continuar na missão. Ora, indisciplinados, os superiores do delegado já o haviam substituído na Operação Satiagraha (Ah! Louvores à erudição da PF).

Protógenes, que vai ilustrar-se no curso que lhe falta para alcançar o mais alto posto na corporação, se ainda pretendia envolver Luiz Greenhalgh e o filósofo Mangabeira Unger, a sua substituição o terá frustrado. O advogado, referência da esquerda petista, começou a aumentar seus bens defendendo presos de motivação político-ideológica e polpudas indenizações a outros heróis. Dedica-se, agora, a missões mais tranqüilas e mais rendosas: aluga seu prestígio para manter contato com poderosos ocupantes de gabinetes do Executivo. Simples e afetuosas conversas podem ser-lhe bem mais úteis nos tempos de ouro atuais que nos de chumbo, perigosos, do passado recente.

O filósofo, apurou Protógenes, advogou para a Brasil Telecom, da rede Dantas, por módicos US$ 2 milhões e, agora, manteria patriótica ligação pessoal para desenvolver a Amazônia. Por meio do lobista que o declarou, indica projetos para Dantas. Mangabeira, genial estrategista do aqueduto Amazônia/Nordeste, com que acabará as secas imemoriais que infernizam os nordestinos, diz que o delegado não tem disso senão ilações. Quer provas do que o lobista de Dantas chama de “a turma do Mangabeira”.

Ilações são um perigo. Por elas César repudiou Pompéia, inocente. Ademais, as provas materiais são de difícil obtenção. Até a confissão do réu, o seu advogado manda que, diante do juiz, diga que a fez submetido a tortura. Não é à toa que juízes se sentem obrigados a absolver o criminoso por falta de provas. E eles podem, depois, vir a pertencer a um governo honrado.

Jarbas Passarinho foi governador, ministro de Estado e senador