Por Reinaldo Azevedo
Eu não vou, naturalmente, me especializar em contestar Eliane Cantanhêde. Mas fazer o quê? Ela lida muito mal com a história, e isso requer reparos, especialmente porque escreve num grande jornal, e o que pensa talvez faça alguma diferença. Nas duas vezes em que interveio no debate sobre os e-mails das Farc que citam brasileiros, ela o fez pelo avesso, atribuindo culpas ao governo... colombiano!!! E se dedicou a comparações despropositadas, já devidamente contestadas aqui. Na coluna de hoje, resolveu abordar a manifestação marcada para hoje no Clube Militar do Rio. Se Eliane fosse Salomão, ela realmente dividira a criancinha ao meio para contentar os dois lados. Ela em vermelho. Eu em azul.

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Estava um bafafá em setores do governo ontem por causa da manifestação programada para hoje no Clube Militar do Rio, agremiação que faz e acontece, não tem papas na língua e a gente nunca sabe exatamente até onde está falando sozinha ou verbalizando o que o pessoal da ativa não pode (até para não ser punido). Um erro leva a outro.
O clichê de que um erro leva a outro costuma juntar no mesmo balaio os culpados e os inocentes, os provocadores e os sensatos. Aliás, essa fórmula aplicada à história já rendeu tantos desdobramentos interessantes... Vejam, por exemplo, Chamberlain e Daladier. Por que não reagiram com presteza ao pintor de paredes, o celerado do bigodinho? Ah, vocês sabem, um erro levaria a outro. Deu no que deu.

O primeiro foi do ministro da Justiça, Tarso Genro, que não tinha nada que puxar para o governo -e, portanto, para Lula- a reabertura da Lei da Anistia, três décadas depois. Ficou isolado até no próprio governo. O segundo erro é a reação fora de hora e de dimensão da milicada no Rio.
Atentem para sutileza do texto. Ela não acha que o erro está em encruar o debate 30 anos depois — o único inconveniente é “puxar para o governo” — aliás, do ponto de vista de quem está fora do governo, que , suponho, seja o de Eliane, melhor seria que ele tivesse escrito “empurrar para o governo”. Tarso está isolado? Então por que Lula não põe um ponto final na história ou um ponto final do Tarso ministro de estado? É tão simples. Mas sigamos.
Por que a reação é “fora de hora”? Os militares reagiriam quando? Convenham: até demoraram demais, não? Há meses se lançou um livro sobre os mortos e desaparecidos — já é a quinta vez que as esquerdas reciclam os mesmos cadáveres —, com a presença ampla, geral e irrestrita de autoridades do governo — muitas delas deitaram falação revanchista. Agora Tarso foi além: promoveu um audiência no Ministério da Justiça e liderar a causa. Então a hora é esta.
Quanto ao vocabulário... “Milicada” é linguagem pejorativa de segundo grau — uma espécie de coletivo de “milico”, que já é um termo depreciativo. Não, Eliane não diria "terroristada" para gente que esmagou crânio a coronhadas, por exemplo. Ou diria?
Estou começando a achar que Eliane não dividiria a criancinha ao meio. Mas não seria por senso de justiça que não o faria
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No fogo cruzado, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, deu um chega-pra-lá no conterrâneo Genro, alegando que, se é para reabrir a Lei da Anistia, que o seja no foro adequado -o Judiciário. Como se dissesse ao Planalto: "Segura os seus radicais que eu seguro os meus".
Huuummm... Essa frase sobre os radicais, se você não sabe, leitor, é uma alusão ao presidente Ernesto Geisel. Em 1975, ele mandou rezar uma missa para o jornalista Vladimir Herzog, morto sob tortura. Os militares não gostaram, e Geisel teria dado essa recomendação a Dom Paulo. A comparação superestima Jobim, uma vez que o conflito de agora em nada se assemelha àquele. Ademais, o ministro da Defesa, que se saiba, não controla “radicais” porque não há “radicais” a serem controlados. Eu estou enganado, ou os militares estão pedindo apenas o cumprimento da lei?

Lula, aparentemente, está segurando os dele, porque Genro recuou, e a fogueira apagou. Sei. Estou entendendo errado, ou Eliane agora acha que Jobim está sendo muito mole e não está segurando os seus?

Quer dizer, teria apagado, se não viessem os radicais do outro lado para jogar lenha, fósforo e gasolina. Além da manifestação em si de hoje, a turma de pijama ameaça distribuir fotos e perfis de ministros que reagiram ao regime militar e aderiram à luta armada, como José Dirceu, Dilma Rousseff, Franklin Martins, incluindo o próprio Tarso.
Nem lenha, nem fósforo, nem gasolina. Apenas fatos. Se é verdade que houve tortura durante o regime militar — e é —, trata-se, igualmente, de uma verdade que houve ações terroristas. Se há um “lado” e, como quer a colunista, um “outro lado”, é preciso distinguir quem reage de quem age. Ou ela esperava que a “milicada” fosse para a fogueira como carneiros?
De resto, observem: os militares são “milicada”; os da reserva são a “turma do pijama”. Já José Dirceu, Dilma Rousseff e Franklin Martins apenas “reagiram ao regime militar”. que coisa mimosa! É? Assalto a banco ajuda a derrubar a ditadura? E seqüestro? E treinamento em Cuba?

Uma boa pergunta é: quem lucra com isso? Ninguém, muito menos os participantes da provocação, ops, da manifestação de hoje, que, no mínimo, vão passar por defensores da tortura e de torturadores.
Viram só? Há quase um ano essa presepada da revisão da Lei da Anistia vem sendo discutida, mas os “provocadores” são os “milicos”, os soldados “de pijama”. Não! Não há grande risco de os militares passarem por “defensores da tortura”. Eu diria que ele não é maior do que o de Eliane passar por “defensora dos terroristas”.

O que não é elogiável em lugar nenhum, em tempo nenhum. Mas o pior é se, além de pijamas, aparecerem fardas lustrosas, com quatro estrelas no peito, simbolizando o topo da hierarquia militar. Há uma convivência elegante no governo entre o lado militar e o lado da antiga militância revolucionária de esquerda. Que permaneça elegante. E jamais vire uma guerra.
Elegância a gente discute em salão de moda ou de cabeleireiro. O que há entre os militares e os civis que aderiram ao terrorismo e que hoje estão no poder é outra coisa, Eliane Cantanhêde. Há uma Lei de Anistia.

E foi uma Lei de Anistia pactuada pela sociedade brasileira. Sei porque fiz parte da luta, porque participei de reuniões, de passeatas. Fomos “nós”, Eliane, os que estávamos à esquerda, que pedimos a “Anistia ampla, geral e irrestrita”, conforme se lê em todos os cartazes e faixas da época. Eu estou tratando, agora, de história.

E essas três palavras se tornaram um lema político porque setores do governo militar aceitavam, sim, a anistia, mas não para crimes de morte e ações terroristas. O que deixaria alguns ministros de agora, veja só, fora do perdão. A chamada sociedade civil e os movimentos de esquerda se mobilizaram em favor do perdão político sem restrições — e aí apareceu na lei os tais “crimes conexos”. Para todo mundo.

Não, senhores! A anistia brasileira não foi feita à matroca, só para livrar a cara do ditador da hora. Foi um longo processo — como foi a transição para a democracia. A Anistia se deu em 1979, e a primeira eleição direta para presidente veio só dez anos depois. Nesses quase 30 anos, não ocorreu a ninguém romper aquele pacto fundador da moderna política brasileira, Mais: os militares aceitaram calados, dentro da Constituição, a reparação às chamadas vítimas do regime — vocês sabem: as indenizações e pensões que caíram na mais absoluta esculhambação. Até Lula recebe...

Nem “milicada” nem “turma do pijama”. Militares brasileiros, que cumprem, como deve ser, rigorosamente, a Constituição do país, resolveram reagir aos aloprados que estão no topo da hierarquia do governo promovendo revanche e arruaça com a historia. História que não é propriedade privada de ninguém — nem da tal Comissão que se transformou num cartório de prebendas. Pouco me importa se as famíias dos presos e mortos acham isso e aquilo. Respeito seu esforço, mas nao lhes dou o país para governar.

Quanto a divulgar as biografias, Eliane pode ficar tranqüila. Tarso, Franklin Martins, José Dirceu e Dilma Rousseff já afirmaram, com voz muito firme, que têm orgulho do seu passado. É... Até outro dia, Franklin matinha em seu blog a carta comunicando o seqüestro do embaixador americano e as reivindicações dos seqüestradores. Sinal de que acha que ela lustra a sua biografia.

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