Jarbas Passarinho
Foi ministro de Estado, governador e senador

Dois livros, um a mais completa análise da guerrilha do Araguaia que já li, o outro o mais denso e documentado relato da luta armada entre as guerrilhas urbanas comunistas e a contra-insurreição no tocante à missão do Exército, são duas visões não contrastantes mas complementares. A lei da selva, de autoria do jornalista Hugo Studart, é fruto de jornalismo investigativo.  A verdade sufocada, assinada pelo coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que sofreu — e ainda sofre — imerecidas acusações, é definida no subtítulo: “A história que a esquerda não quer que o Brasil conheça”.

 

O jornalista esforça-se por colocar-se isento na busca da verdade. Mas que é a verdade?, perguntou Pilatos. Os odientos, que não aceitaram fosse a anistia o esquecimento, adotam Thomas Mann: “A verdade é tudo que nos convém”. No início dos anos 1970, Gustavo Corção, que deixei imperdoavelmente passar a oportunidade de vê-lo em vida, enviou-me um livrinho de Jules Monnerot: Démarxiser l´université. Nele, denunciava a “traição do valor-verdade pelos professores encarregados da função pensamento, que substituíram a verdade pelo mito”, o que, para Corção, é a mais grave desonestidade intelectual abrigada na liberdade da cátedra. Gorbachev, em seu livro Avant-Mémoires, diz que a antinomia capitalismo/socialismo, herdada da segunda metade do século 19 pela paixão ideológica, quase levou o mundo ao caos nuclear. No entanto, para ele, a verdade dessa antinomia provou-se caduca ao custo de milhões de mortos.

 Clique aqui e veja onde adquirir o livro Studart tenta equilibrar-se entre a verdade da esquerda armada e a dos que cumpriram a missão de combatê-la. Teve a virtude de abastecer-se nas versões de ambos os lados. Obteve — surpreendentemente para mim — relatórios de órgãos militares mantidos em sigilo, que o coronel Ustra foi o primeiro a quebrar, em seu livro Rompendo o silêncio. Chefe do DOI/Codi de São Paulo, que enfrentou as guerrilhas comunistas de Marighella e Lamarca, revelou o segredo, indignado com as abundantes versões acusadoras sem a devida contestação pública. Os militares, que não estudavam guerrilha nas escolas que cursavam, tiveram de aprender, à custa de seus mortos e feridos, a combatê-la.

No livro de Studart há uma comparação descabida de igualdade entre Lamarca e Carlos Prestes. Este foi responsável pelo “justiçamento” da inocente Elza Fernandes, mas Lamarca foi assassino várias vezes: do tenente Mendes, da PM paulista, seu refém, a coronhadas, de vigilantes de bancos que assaltou, além de ladrão de armas e munição do Regimento de Infantaria de que desertou. No governo de Fernando Henrique foi promovido post mortem, como se herói fora. O Exército paga proventos à família e a Comissão de Anistia concedeu polpuda indenização. Recentemente, o falecido capitão Carlos Prestes foi promovido a coronel com proventos de general, porque “teve a carreira militar tolhida durante o regime militar”. O presidente da Comissão de Anistia, Marcello Lavanère, nos autos do processo, escreveu: “Uma verdadeira nação se constrói assim, com pessoas como Luiz Carlos Prestes, que colocou seu país como prioridade de vida e causa maior, deixando de lado sua própria felicidade e o convívio com a família por um bem social”. O elogio torna desnecessário saber o que o senhor Lavanère pensa do comunismo e ignorar que seu ídolo conviveu com a família na União Soviética, membro destacado do Komintern, “construindo a nação brasileira”.

Louve-se a sinceridade do professor Aarão Reis, da Universidade Federal Fluminense. Quando estudante e guerrilheiro, foi preso. Não se conteve diante da hipocrisia. Assumiu seu papel revolucionário: “É falso proclamar que lutamos por democracia. Lutamos para implantar um regime comunista”, acaba de declarar publicamente. Ao escrever o final do seu livro, o coronel Ustra diz ser preciso “acabar com o mito de que enfrentamos estudantes indefesos que lutavam pela liberdade e contra a ditadura”. Creio que não conhecia, ainda, a frase do professor. No livro de Studart, desenvolvimento de uma tese acadêmica muito documentada e sem tomar partido por qualquer dos lados em luta, mas de contribuir para o conhecimento histórico, ficou-me clara a coincidência com Aarão Reis, pois no treinamento dos guerrilheiros na China de Mao Tse Tung ou no estudo da doutrina da Guerra Revolucionária e no Dossiê Araguaia, não há apologia da democracia. Nem poderia haver, de quem foi adestrado na China e em Cuba totalitárias.

Clique aqui e veja onde comprar o livro Enquanto a mentira deslavada é confessada, o regime que se diz democrático chama às barras do Tribunal o coronel Ustra, acusado de violentar direitos humanos de seus presos, senão por testemunha de credibilidade duvidosa. Marighella defendeu em artigo publicado em Paris o terrorismo. Fez pupilos. Dos terroristas que lançaram um carro-bomba no quartel do II Exército, de São Paulo, figura o ex-secretário do então governador Olívio Dutra. No atentado morreu o soldado Mário Kozel Filho, sentinela. O assassino está vivo e conta voltar ao governo do Rio Grande do Sul se Olívio vencer Yeda Crusius. Os companheiros, sobreviventes de Lamarca, que mataram o tenente Mendes a coronhadas de fuzil contaram essa proeza em livro. Os guerrilheiros mataram, pouco a pouco, na frente dos seus pais, o adolescente que serviu de guia aos militares no Araguaia, Onde estão os defensores dos direitos humanos?

Adicionar comentário

Código de segurança
Atualizar