O Estado de S. Paulo
Por Sandra Cavalcanti
Dependendo da análise jurídica do presidente da República, foi burrice. Pelo menos esta é a conclusão a que chegamos ouvindo suas respostas e seus comentários na entrevista concedida à TV Cultura. Ele conta que chamou o então coordenador de sua campanha, que foi seu ministro e é presidente nacional do seu partido, o PT, e lhe perguntou de forma direta: 'Ricardo, você sabe quem armou esta burrice?' Mas o ex-ministro, também da turma que não sabe de nada, não sabia de nada!

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O presidente não se conformou com o fato. 'Como não saber? Gente sua! Auxiliares seus! Gente do nosso comitê e do comitê do Mercadante!'

Segundo ele mesmo, o presidente teria usado um palavreado bastante forte. Muito gentil com as ilustres jornalistas presentes, porém, poupou-as de repeti-lo... Mas tratou de tomar as providências, com severidade, como, disse ele, sempre fez durante toda a sua vida. 'O companheiro errou? Tem de pagar pelo erro.' (É bem verdade que ninguém foi demitido. Uns foram afastados. Outros pediram demissão. O inquérito que corre foi aberto pelo Ministério Público, diante da ação eficiente da Polícia Federal.)

Na entrevista ficou claro que, apesar da bronca que passou nos aloprados, ele continua achando que os 'companheiros' só foram 'burros'. Ou seja, obviamente eles não foram suficientemente competentes para que o plano desse certo! Isso, sim, foi imperdoável.

Quanto ao pobre do Berzoini, a coisa ainda foi mais deprimente. O presidente da República não admite que ele não soubesse de nada. O presidente da República não aceita essa desculpa. O chefe tem de saber de tudo, pois não? Dentro desse seu raciocínio, a única exceção parece ser o presidente da República. Só a ele cabe não saber de nada.

A chantagem nos Correios, o mensalão, o valerioduto, o superfaturamento na publicidade, os dólares no avião dos pastores do bispo Macedo, os dólares na cueca, os dólares para a compra do dossiê falso, as contas do pagamento de cartilhas, a violação do sigilo bancário do caseiro Francenildo, a prática repetida de rapinagem nas prefeituras petistas, tudo isso escapou à sua vigilância. E, é sempre bom lembrar, se não fosse a briga interna que explodiu entre os aloprados, o Brasil estaria até agora encantado com a 'extraordinária habilidade política' revelada pelo presidente da República ao montar a sua fidelíssima bancada majoritária no Congresso! Que talento! Que demonstração de força persuasiva!

Na entrevista, visivelmente irritado com as perguntas pertinentes dos jornalistas, ele mais uma vez se mostrou incapaz de responder com clareza e exatidão. Tergiversou, rodeou e fez apenas o que sabe fazer: auto-elogios! Mal o entrevistador terminava a sua fala e lá estava o presidente da República repetindo, pela milésima vez, as suas habituais arengas.

Ouvindo-o, e o vendo, um pessoa desavisada imaginaria que, até o início de 2003, o País estava à deriva. Ele diz isso com a maior leviandade. No entanto, todo mundo sabe que, desde 1994, o Brasil vinha lutando e vencendo uma terrível batalha contra a inflação, que culminou com os belos resultados que aí estão até hoje. E tudo isso apesar de o PT e suas lideranças terem sempre trabalhado contra o Plano Real.

Uma pessoa que chegasse agora ao Brasil e ouvisse as declarações do presidente da República iria supor que a modernização dos portos fora obra dele. Imagine! Foram quatro anos de luta atroz contra os sindicatos do atraso. Luta iniciada em 1993 e só terminada em 1997!

Na entrevista, o presidente disse que 'sempre foi parlamentarista'. Chega a ser piada... E mais piada ainda foi ouvi-lo dizer que vai 'lutar pela fidelidade partidária e pelo financiamento público das campanhas'. Pode ser que essa, agora, venha a ser a saída do presidente e do seu PT, depois que o famoso 'processo petista de montar bancada fiel' e 'trocar o caixa 2 pelo mensalão' acabou descoberto e desmoralizado.

Sua posição quanto às privatizações é absolutamente dinossáurica. Nem a esquerda chinesa acredita mais nisso! A sorte do Brasil foi, exatamente, o Estado ter conseguido se libertar dos entulhos monopolistas e autárquicos, herdados de duas ditaduras.

Quem tem boa memória sabe que, até há poucos anos, entre as entidades federais que integravam o patrimônio da União, estavam o bondinho do Corcovado, hotéis falidos em estâncias hidrominerais, empresas de telefonia que não instalavam novas linhas, empresas de navegação cheias de funcionários e sem navios , empresas ferroviárias sem trilhos e sem trens, portos, outrora movimentados, parados e enferrujando ao tempo.

Tudo isso mudou. Graças à retirada do Estado, o patrão dono preguiçoso e incompetente saiu de cena. Hoje, os usuários dos serviços são prioridade. Empresa que não der conta do recado perde a vez e o lugar.

É claro que, para a mentalidade petista, isso é um desastre. Quantas nomeações de companheiros deixarão de ser feitas? É por isso que o presidente acha que a privatização da Vale do Rio Doce foi um erro e que as empresas estatais de telefonia deveriam continuar a infernizar a vida de todos nós.

Nestes próximos dias, certamente teremos novos pronunciamentos do presidente da República. Tivemos o cuidado de não chamá-lo de Lula, neste artigo, porque ele se mostrou ofendido com a sem-cerimônia do seu opositor na eleição. Faz questão das deferências.Tudo bem. Existe, no entanto, uma pergunta que continua no ar e não ofende Sua Excelência: de onde pode ter vindo o dinheiro que foi encontrado em poder dos seus 'meninos', naquela sandice? Ou naquela burrice? Ou naquele crime?

O Berzoini, coitado, não sabe. Mas o chefe dele é obrigado a saber, não é?

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