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Categoria: Política Externa
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General da Reserva Luiz Eduardo Rocha Paiva
O artigo é continuação do anteriores - “Amazônia e a ‘Marcha da Insensatez”. O título remete ao livro da historiadora Barbara Tuchman, na década de 1980, pois insensata é a política governamental naquela região desde os anos 1990. O texto contém extrato do artigo “Amazônia: vulnerabilidade, cobiça, ameaça”, que publiquei na Military Review (maio/ago de 2008) e em outras revistas de assuntos de defesa, podendo ser acessado na internet. A 1ª versão é de 2006.
Cenário hipotético de conflito com ameaça à nossa soberania.
[Início da descrição]. Em 2024, o Brasil não mudara sua postura de ceder a pressões internacionais e não ocupou, não desenvolveu e não integrou a Amazônia.


A necessidade de recursos estratégicos pelas potências dominantes trouxe à América do Sul novos atores como China, Rússia e Índia. Os EUA, antes quase hegemônicos, não mais se impõem em todo planeta e não têm como impedir a projeção desses competidores em sua histórica zona de influência, mas ainda são a maior potência militar. O Brasil, nesse contexto, tem dificuldade de exercer a liderança na região e muitos parceiros continentais, atraídos pelo poder de barganha dos novos atores, nem sempre apoiam o Brasil em seus contenciosos.

“Os recursos da Amazônia, muitos recentemente descobertos, são escassos no mundo e vitais para as grandes potências competidoras e seus aliados, como são os do Oriente Médio na atualidade”.
Os novos atores no subcontinente passaram a ser, também, diretamente interessados na exploração de nossos recursos, à revelia dos interesses brasileiros. A exemplo do que fizeram os Impérios contra a África e a China no século XIX, ao invés de entrarem em conflito entre si, viram mais vantagens em entrar em acordo e impor ao Brasil condições compartilhadas de exploração de suas riquezas.
“Desencadeiam intensa campanha mundial acusando o Brasil de não ter condições de gerir a Amazônia, preservar o meio ambiente, proteger populações indígenas e coibir delitos transnacionais.

Preconizam a necessidade da ingerência internacional para assegurar o desenvolvimento sustentável da região e o aproveitamento de suas riquezas por ‘toda a comunidade de nações’, bem como deter a destruição da floresta (‘pulmão do mundo’), que alegam ser uma das causas do aquecimento global. As potências, com o aval da ONU, pressionam o Brasil nos campos político, psicossocial (propaganda adversa e ação psicológica), econômico (pressões e boicote) e científico-tecnológico (boicote), aplicando a estratégia indireta, a fim de conquistar seus interesses sem necessidade de empregar o poder militar. O Governo resiste às pressões, que comprometem a soberania nacional, e sofre a escalada dos boicotes e da propaganda adversa, a que se soma a ameaça (coação), no campo militar, de ocupação, bloqueio ou danos de áreas estratégicas sensíveis do território, não necessariamente na Amazônia (como fizeram na Sérvia em 1999). Tentam, assim, evitar uma intervenção com tropa, por considerar o elevado custo da invasão”. [Fim da descrição].

O desfecho do cenário pode ser um conflito armado. Ao militar e ao diplomata cabe identificar ameaças potenciais, a fim de se tomar hoje as medidas necessárias para impedir que se tornem concretas amanhã. Uma ameaça deve ser visualizada antes de ser vista, pois se um país quiser “ver para crer”, será tarde demais. Defesa não se improvisa! Relações externas envolvem, além de outras áreas, tanto diplomacia quanto defesa. Se a Nação desconsidera a possibilidade de conflitos armados, se crê na solução de todos contenciosos apenas pela diplomacia, então para que custear Forças Armadas?
Num conflito militar, seria praticamente inviável a invasão e ocupação de amplas fatias do território nacional, inclusive por uma potência global isolada ou em coalizão. O Brasil, territorialmente, é inconquistável por ser um país “baleia”, como mostrou a história na Rússia e na China.

A imposição de interesses alienígenas na Amazônia não implica, necessariamente, uma ação militar em toda a região, pois o custo em recursos humanos e materiais seria muito elevado. Mas o agressor poderia infligir danos militares à nossa infraestrutura e bloquear ou ocupar temporariamente áreas limitadas do território até o País aceitar um acordo com imposições do interesse do agressor ou de uma coalizão.
Exemplos. A ocupação temporária da bacia petrolífera de Campos, da hidroelétrica de Itaipu ou a ameaça de paralisação ou danos à infraestrutura, particularmente no Sudeste, seja por uma força aeronaval, seja por meios cibernéticos. O que fariam o governo e a Nação diante da ameaça ou concretização de um apagão de combustível e energia que paralisasse o Brasil?

Roraima e a foz do Rio Amazonas são, também, áreas sensíveis que, ocupadas, permitem isolar Manaus e a Calha Norte. A desocupação só seria feita após o(s) agressor(es) imporem condições de exploração do patrimônio amazônico de acordo com seus interesses. Ao saírem, o Brasil não teria nenhuma perda territorial, mas viveria a humilhação de ver sua soberania compartilhada com o(s) vitorioso(s).