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Categoria: Política interna
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Carlos Langoni, o guru de Guedes, acha que o neoliberalismo salvará o Brasil
Langoni garante que, na teoria, o plano de Guedes vai dar certo
Correio Brasiliense - Rosana Hessel
Toda semana, a agenda pública do ministro da Economia, Paulo Guedes, oscila entre as cidades de Brasília e do Rio de Janeiro, onde ele costuma despachar às sextas-feiras. E a pessoa mais frequente nos compromissos oficiais do chefe da equipe econômica na capital fluminense é um ex-professor do ministro, o economista Carlos Langoni, diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getulio Vargas (FGV) e ex-presidente do Banco Central, de 1980 a 1983. Desde que Guedes assumiu o cargo em janeiro, o guru foi recebido pelo pupilo no Rio, em média, duas vezes por mês.

Além de se aconselhar sobre os planos da agenda econômica, o superministro de Bolsonaro aproveita os encontros frequentes com o mestre para fazer debates acadêmicos. “Conversa de economista de Chicago é meio caótica e desorganizada. Falamos sobre tudo. Até sobre a parte acadêmica e teórica. De vez em quando, começamos a discutir teoria econômica. Não tem nada a ver com política. É uma digressão, até para relaxar. E o resto é brainstorming. Vão surgindo questões naturalmente”, revela Langoni.

Quando a agenda liberal proposta pelo ministro Paulo Guedes será colocada em prática?
Nos encontros de agenda, temos uma discussão mais livre do que ele pretende, com debates sobre o que ele está desenhando a curto, médio e longo prazos. Ele se preocupa muito com a sequência temporal. Acho que ele está absolutamente correto quando começa com a ancoragem fiscal. Sem essa ancoragem, todo o restante da agenda fica prejudicada. Depois da reforma (da Previdência), ancorada a questão fiscal e deixando claro que os deficits crônicos serão revertidos — ainda que a médio prazo —, que a dívida pública não será explosiva e que o déficit primário será reduzido, tudo isso cria um choque de expectativa e de confiança. Isso vai permitir que, principalmente, a reforma tributária e a esquecida de abertura da economia completem a estratégia liberal e a economia comece a andar.

Mas a economia está andando de lado, com tantas reduções nas projeções do PIB…
A economia, na verdade, está parada. Está estagnada. O país saiu da recessão, mas vivemos um período de processo relativo de estagnação. Isso era previsível até que essa agenda de mudanças estruturais comece a ser implementada. Aí que está o desafio político.

Vivemos em uma democracia e tudo tem que ser debatido e aprovado pelo Congresso…
Mas eu acho que, ao final e ao cabo de todos esses desafios de governabilidade, a reforma vai ser aprovada, porque é absolutamente necessária. Qualquer governo teria que enfrentar essa questão da Previdência logo na partida. Eu acho que está certo.

E o que vem na sequência?
Vem a reforma tributária, uma simplificação com redução dos impostos sobre os investimentos e sobre o lucro das empresas, que é muito importante. Depois, as mudanças de marcos regulatórios que vão beneficiar o investimento também na área de infraestrutura, na área de energia, na questão do projeto do gás, que está sendo discutido. E depois, vem a abertura negociada, que é uma abertura multidimensional. Isso porque não é só acesso ao mercado, mas também acesso a investimento e à transferência de tecnologia. É a agenda liberal, além de todo o processo de concessões e privatizações. Ele está desenhando uma nova economia. Os contornos ainda estão indefinidos e ainda com sombra e com certas dúvidas e incertezas. Mas, quando o desenho e as medidas forem sendo aprovadas, o país entra em um ciclo virtuoso. As pessoas vão começar a perceber que o país está indo em outra direção. E aí a questão crucial, que é restabelecer a mobilidade social e começar a reduzir essa taxa elevadíssima do desemprego.

Mas o desemprego cresce. Estamos vendo uma piora muito grande nos indicadores de forma geral neste primeiro trimestre do ano. Como reverter isso no curto prazo?
Essa é uma ótima pergunta. Primeiro, não cair na tentação dos pacotes e das soluções mágicas. Não existem mais soluções mágicas. Então, não é mais possível querer tirar o país dessa relativa estagnação com medidas pontuais, com benefícios creditícios de bancos públicos, com isenções tributárias. Até porque o governo não tem margem fiscal para isso. E as políticas seletivas dos bancos públicos não produziram nenhum efeito importante para o crescimento sustentável. É preciso manter a estratégia. Avançar nas reformas e deixar bem claro que é o caminho do encontro do crescimento. Isso não vai acontecer no primeiro nem no terceiro trimestre. Se a reforma da Previdência for aprovada até julho, tem que encaixar em seguida a reforma tributária, que é mais simples de ser absorvida e compreendida pela sociedade. O governo não vai aumentar a carga tributária. Vai simplificar e reestruturar os impostos. A partir daí, acho que pode ter um segundo semestre já com a confiança voltando, preparando o terreno para um crescimento mais forte no ano que vem.

E o que vai puxar esse crescimento?
O investimento vai ser liderado pelo setor privado, não será mais gasto público nem consumo privado. Ele vem a reboque. Primeiro vem o investimento forte em infraestrutura. Há um enorme volume de recursos externos interessados no país. É bom lembrar que, apesar de toda essa turbulência que o país está vivendo e viveu no passado durante o período de eleição, o volume de investimento estrangeiro direto está rodando na faixa de US$ 85 bilhões por ano. Eu acho que pode ser muito mais, pode ser acima de US$ 100 bilhões, quando o risco político diminuir e passarmos essa fase de tensão aguda com o debate em torno da reforma. A resposta da economia vai ser muito rápida. Acho que o grande desafio é gerenciar essa transição.