Na democracia a liberdade está implícita, pois nenhum homem é livre em qualquer outra forma de governo. (Aristóteles)        

Tenho, nos últimos tempos, abusado da paciência de alguns amigos com a difusão de artigos, tratando do momento político em que vivemos no Brasil. Em todos,  na essência, defendi o rigoroso cumprimento da lei. Coerente com essa posição, retorno ao mesmo tema. Concluído o processo eleitoral, cabe a nós brasileiros, verdadeiramente conscientes da grandeza do processo democrático, um momento de reflexão e de humildade. E essa atitude cabe a vencedores e vencidos.

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Uns, pela responsabilidade que assumiram perante uma grande nação; pelas promessas que fizeram em campanha e, agora eleitos, sem o direito de, como desafortunadamente tem acontecido ao longo de nossa história, serem os responsáveis por mais desilusões. Outros, com a importantíssima função de exercer um acompanhamento consciente e severo dos atos do governo, tarefa adequada a uma oposição atuante e aguerrida.

 

Cabe a todos respeitar a decisão das urnas. Mesmo os mais ferrenhos adversários devem desejar prudência e sabedoria ao Presidente Lula e a seu governo, no mandato que agora inicia. Há, ainda, é verdade, uma ação no TSE a ser julgada. Mas essa é outra história, que não deverá estar resolvida em curto prazo. Compete ao Tribunal julgar a questão e aos brasileiros, fiéis ao mesmo princípio de respeito à lei que estou defendendo, acatar a decisão que for exarada, seja qual for.

 

 Alguma expectativa, no entanto, foi gerada, após os longos meses de campanha eleitoral e o resultado das urnas; e esta talvez seja a melhor oportunidade de expressá-la, enquanto os ecos da vitória ainda são favoráveis à formulação de bons propósitos.

 

Espera-se, desta feita, que o povo brasileiro seja poupado do deprimente espetáculo de trocas de partido, em busca da proximidade do poder, mal fechadas as urnas. Não será útil a nenhuma facção política que seja denegrida ainda mais a reputação de nosso Poder Legislativo, já tão carente de credibilidade.

 

Espera-se que não voltem a ocorrer escândalos como o do mensalão, o das sanguessugas e outros do gênero, produzidos pela imaginação sempre fértil de alguns políticos na concepção de falcatruas. E que o Poder Executivo, neste segundo mandato, constitua-se, realmente, em um guardião da ética e dos bons costumes políticos.

 

Espera-se que a origem da vultosa quantia apreendida com figuras de proa do partido do governo, no rumoroso caso do dossiê, seja finalmente explicada, em proveito da própria dignidade nacional.

 

Espera-se que as reais necessidades nacionais sejam sempre encaradas como prioridade e atendidas à frente de interesses imediatistas, pessoais ou partidários.

 

Espera-se que a tentação ao gasto fácil, experimentado no último ano de governo, tenha sido um pequeno soluço, provocado pelo ardor do período de campanha eleitoral. Que a defesa intransigente da moeda volte a ser a tônica em uma política econômica responsável.

 

Espera-se que o tão aguardado espetáculo do crescimento tenha, finalmente, sua vez no cenário nacional e nosso sofrido povo possa aspirar por mais oportunidades de trabalho na banda formal da economia.

 

Espera-se que o Presidente Lula não se deixe seduzir por alguns de seus aliados, daqui mesmo e do exterior, conhecidos por seus conceitos exóticos de democracia, para dizer o mínimo. Que, fiel a seu discurso político, seja o verdadeiro e sincero condutor do aperfeiçoamento de nosso regime político, sem condescendência com qualquer pessoa ou grupo que aja ao arrepio da lei.

 

Espera-se, enfim, para não passarmos por tantos sobressaltos, que, nesse segundo mandato, o Presidente tenha conhecimento daquilo que ocorre dentro de seu governo de forma mais célere e com maior sentido de objetividade.

 

À oposição cabe manter-se vigilante e ativa em relação a esses e tantos outros temas importantes. É assim que funciona a democracia. Nesse embate político reside a beleza do regime democrático; nele estão assentados os alicerces da liberdade, por tantos apregoada.

 

 

 

Gen Ex GILBERTO BARBOSA DE FIGUEIREDO

Presidente do Clube Militar

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