Editoria: OPINIÃO - O GLOBO
Uma semana de fortes chuvas em parte do Nordeste produziu cenas em Alagoas e Pernambuco idênticas às de grandes catástrofes como o terremoto no Haiti, a tsunami na Ásia e inundações típicas de Bangladesh, Índia e cercanias.
Restaram cidades pulverizadas, infraestrutura em frangalhos e muito trabalho de reconstrução para as diversas instâncias do poder público, além de dezenas de mortos, mais de mil desaparecidos, muitos desabrigados e profundos dramas humanos.
Depois das tragédias, é comum ouvir-se de autoridades que fenômenos naturais desta magnitude são difíceis de prever. Portanto, resta apenas culpar os rigores do clima. Talvez o aquecimento global...
Não é simples assim. Segundo José Oswaldo de Araújo Filho, professor do Instituto de Geociências da Universidade de Brasília (UnB), como é sabido que na região se sucedem secas longas e enxurradas, é possível agir preventivamente na proteção das populações ribeirinhas, as mais vulneráveis. No entender do professor, falta planejamento por parte dos governos estaduais e federal.
Há, ainda, outra grave carência nos governos na defesa das populações: de seriedade na distribuição do dinheiro público, moeda escassa, e até mesmo inexistente, em algumas áreas do governo Lula.
Reportagem de ontem do GLOBO trouxe a prova estatística da manipulação de verbas do Ministério de Integração Nacional com finalidades políticas. Na gestão do deputado Geddel Vieira no ministério, prócer do PMDB baiano, sustentáculo da base governista, o domicílio eleitoral do político recebeu este ano 56,8% de toda a verba da Pasta reservada para prevenção de acidentes, conforme levantamento da ONG Contas Abertas. A Pernambuco coube 0,24%; a Alagoas, governado pelo PSDB, nem um centavo. Geddel é candidato ao governo da Bahia - portanto, qualquer relação entre seu projeto político e o destino que deu ao dinheiro do contribuinte não é mera coincidência.
Desta forma, a catástrofe ocorrida em Pernambuco e Alagoas também pode ser abordada pelo ângulo da ciência política.
A explicação para a indiscutível manipulação político-eleitoral das verbas do ministério por Geddel está no patrimonialismo brasileiro, bastante visível no governo Lula por ele ter loteado parte da máquina pública dentro do mais vigoroso espírito do clientelismo, trocando acesso a verbas públicas e o poder de nomear apaniguados por apoio no Congresso e nas eleições.
Este loteamento beneficiou azeitados esquemas partidários de subtração de dinheiro público para irrigar currais eleitorais. Também via aparelhamento de cunho ideológico permitiu o mesmo por parte dos chamados "movimentos sociais" - MST, etc. Outra vertente da mesma política de criar capitanias hereditárias dentro da máquina pública bem conectadas com o Tesouro beneficiou corporações sindicais, convertidas em correia de transmissão do governo. Até a CUT e Força Sindical, antigas adversárias, se uniram, apaziguadas pelos milhões despejados em seus cofres pela generosidade do Planalto. Viraram neopelegas. Não escapou da cooptação sequer a antiga aguerrida UNE.
As cenas tristes e de impacto registradas em Pernambuco e Alagoas nos últimos dias, infelizmente, podem compor o cenário do estilo da política que se pratica hoje em dia em Brasília.
 
 

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