Um presidente tornou-se
      primeiro-ministro!
Nas Entrelinhas
O coordenador -
Por Denise Rothenburg - Correio Braziliense  
Lula, ao que tudo indica, pretende ficar por aqui, se Dilma for eleita. No papel de líder da frente de partidos em prol da reforma política, será uma espécie de primeiro-ministro informal.
Desde a eleição de Fernando Collor, em 1989, um ex-presidente não chega a quatro meses e 22 dias do fim do mandato tão ativo e presente na mídia quanto Luiz Inácio Lula da Silva. Em outros tempos, a esta altura do campeonato, o presidente já estava em segundo plano e só se prestava atenção no processo eleitoral.
Era sempre como se o presidente estivesse ali só limpando as gavetas e preparando a casa para receber quem fosse eleito para sucedê-lo.
Até mesmo em 1994, quando o presidente Itamar Franco, popularíssimo, se preparava para entregar as chaves do Palácio da Alvorada e do Planalto ao novo inquilino, os candidatos bombavam mais que o presidente.
Na troca de Rubens Ricúpero no Ministério da Fazenda, por exemplo, em setembro daquele ano, os repórteres foram perguntar a Fernando Henrique Cardoso, candidato, quem ele havia escolhido para comandar a pasta. Itamar, irritado, decidiu mostrar que quem mandava era ele e escolheu Ciro Gomes à revelia de Fernando Henrique, que indicara Pedro Malan.
Popstar
No caso de Lula, ele não tem deixado que os candidatos assumam o primeiro plano. Continua como “a celebridade mor” da política nacional. E quem tem observado as declarações recentes dele percebe que, em 2011, o atual presidente dificilmente deixará de lado a posição de protagonista na política brasileira. Na entrevista à revista IstoÉ, Lula falou mais da frente partidária que pretende montar para levar avante um projeto de reforma política. E deu a senha: “Eu quero estar vivo no debate político”.
Embora tenha se referido a uma frente ampla, ele excluiu a oposição. Disse não ter mais a “ilusão” de que poderia trabalhar ao lado do PSDB. “Eles escolheram outro projeto”. Bem, naquela época de 1994, é bom que se registre, quem ficou contra o Plano Real foi o PT e só restou ao PSDB buscar outro que lhe desse apoio. O PFL se ofereceu como o PMDB se apresenta hoje ao PT para a parceria com Lula e Dilma.
Ministro sem pasta
Por causa dessa e de outras questões, esta eleição de 2010 lembra um pouco aquela de 1994, guardadas, é claro, as devidas proporções. Temos hoje, como naquela época, um presidente popular capaz de eleger o sucessor. Uma diferença básica entre os dois momentos é o projeto de quem deixa o cargo. Itamar virou embaixador em Portugal. Lula, ao que tudo indica, pretende ficar por aqui, se Dilma Rousseff for eleita daqui a oito domingos. E o fato de querer liderar uma frente de partidos em prol da reforma política deixou muita gente ontem com a pulga atrás da orelha.
Na política, há quem acredite que Lula, no papel de líder da reforma política e valorização dos partidos — e descartando desde agora um chamamento à oposição — se prepara para ser de fato o coordenador político de sua ex-ministra, uma espécie de primeiro-ministro informal. Se esse projeto vingar, o PMDB que se cuide. O peemedebista Michel Temer, se eleito vice-presidente, espera o papel de ponte entre Dilma e o Congresso Nacional. Vai ficar em segundo plano se o atual presidente da República levar adiante esse projeto de estar vivo no debate político. Lula, mais uma vez, roubará a cena. Quem viver, verá.

 
  
  

 

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