Por Chico Neto
Quem se lembra de Salomé, personagem encarnada por Chico Anysio nos anos 70 que vivia ao telefone dando bronca no "João Baptista"? Embora vivêssemos uma rebarba de ditadura, o quadro não foi censurado porque, ali, era uma figura caricata – não a pessoa Chico Anysio colocando em saia-justa o todo-poderoso general João Figueiredo, nosso então presidente. Mas esses são tempos passados.

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Hoje, o Casseta & Planeta deita e rola, faz paródias em cima de fatos reais sem precisar mascarar os nomes dos envolvidos. Em sua última edição, fez troça do senador que até para ir à piscina não quis largar a cadeira de presidente do Senado – posto que só não perdeu por grande camaradagem dos colegas que usaram o voto secreto para provar que, cada dia mais, não importa ao poder o que a sociedade e os eleitores anseiam.

Haverá quem veja nesses quadros um teor excessivamente bufo, carregado nas tintas de críticas que, ao serem assim apresentadas ao telespectador, dão a fatos graves o tom de palhaçada. Não quero ser pessimista, mas a coisa é pior do que isso.

Palhaçada é a situação em que muitos de nós nos encontramos, protagonistas involuntários de descasos e afrontas do poder que, convém lembrar, todos ajudamos a constituir. Há políticos que, uma vez empossados, praticam no cotidiano um rosário de desrespeitos a seus eleitores.

E estão por toda parte. Se antigamente não se podia apontar o dedo para desmandos, hoje de tudo se fala na mídia – mas, fora a "liberdade" de expressão, nada mudou. Continuamos a ser achincalhados por algumas representações de má índole. E isso, longe de ser engraçado, revela um contorno sem graça, patético.

E o patético ganha facilmente contornos de cômico, quando de repente nos percebemos sob uma grande lona verde-amarela de um circo dos horrores. Tem o homem que esconde dólares na cueca e continua na ativa, o que favorece empresa de amigo com dinheiro público e não é importunado, o bando dos 40... No fundo, cada um deles se sente aplaudido, tanto pela nossa inoperância quanto pela garantia de impunidade. Quem é o palhaço? A platéia, claro. Merecemos ou não virar caricaturas de humorísticos de TV?

Editor do Viva!
http://www.clicabrasilia.com.br/impresso/noticia.php?IdNoticia=305667&busca=picadeiro

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