Indígenas contrários à demarcação de reserva queimam ponte. Arrozeiro que liderou manifestação é preso em flagrante - Por Ana Marques e Evandro Éboli
BOA VISTA e BRASÍLIA.
Depois de entrar em confronto com índios, a Polícia Federal prendeu ontem Paulo César Quartiero, o maior plantador de arroz da reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima. Ele foi preso em flagrante acusado de atear fogo numa ponte que dá acesso ao interior da reserva, próximo à Vila Surumu. Quartiero, que se recusa a deixar a reserva, seria um dos principais alvos de uma operação que vinha sendo preparada pela PF para ser deflagrada semana que vem. Mas o conflito de ontem antecipou a prisão.

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O confronto aconteceu depois que moradores das vilas próximas e índios contrários à retirada dos arrozeiros queimaram uma ponte que dá acesso à reserva. Com paus, pedras e flechas, eles impediram a entrada dos agentes federais. Também invadiram a escola da vila, onde seria instalada a base de trabalho da Polícia Federal. O filho de Quartiero, Renato Quartiero, foi ferido pela explosão de uma bomba caseira, confeccionada pelos próprios manifestantes.

Desde o início da madrugada de ontem, o clima era tenso. Sobre a ponte de acesso à vila, dezenas de pessoas contrárias à homologação da reserva fizeram piquetes com tratores e caminhões pertencentes aos produtores de arroz. A resistência à passagem dos policiais foi liderada por Quartiero, preso sob a acusação de dano ao patrimônio público e desacato a autoridade. Ele foi levado à sede da superintendência da PF em Boa Vista, onde foi interrogado.

Segundo José Negreiros, assessor de imprensa da PF em Roraima, Quartiero foi indiciado por desacato a autoridade, desobediência, incitação à desordem e bloqueio de via federal - crimes afiançáveis, o que permitiria a sua liberação, após o interrogatório. O advogado dele, Valdemar Albrecht, negou as acusações e disse ser ilegal a operação da PF, batizada de Upatakon.

- Não há ordem judicial, e ações contra a homologação estão tramitando no Supremo Tribunal Federal - disse.

A prisão de Quartiero antecipou o início da operação, prevista para começar dia 10. A ação para retirada dos não-índios da reserva estava programada há cerca de três anos, desde que o presidente Lula assinou o decreto que homologou a demarcação da terra indígena, em abril de 2005. Desde a semana passada, dezenas de agentes federais foram para Boa Vista e fizeram incursões na reserva, para analisar a área e preparar a ação.

A ação é coordenada pela Casa Civil. Participam a Polícia Federal, Incra, Ibama e Funai. Quartiero é o grande alvo. Para retirá-lo da terra, os coordenadores da operação decidiram que vão enquadrá-lo por crime ambiental. Nas suas fazendas, ele desmatou terra ilegalmente, desviou curso de rio e destruiu mata ciliar.

- Será mais fácil pegá-lo por crime ambiental do que por invasão de terra indígena, que pode ser contestado na Justiça - disse ontem um integrantes do grupo que coordena a operação e prefere não ser identificado.

A Operação Upatakon deverá contar com um contingente de 250 agentes da Polícia Federal e cerca de cem policiais da Força Nacional de Segurança. Desta vez, a PF não pediu o apoio do Exército. Ano passado, estava prevista uma operação semelhante. Os militares foram chamados a participar, mas se recusaram, por defenderem a presença dos rizicultores naquela região de fronteira. O documento com detalhes da operação enviado pela PF ao Ministério da Defesa vazou e foi entregue a parlamentares de Roraima contrários à demarcação.

Fonte: OGlobo 

 

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