Renato Alves 
Correio Braziliense -  25 de janeiro de 2014
Brasília-DF
Arrastões em lanchonetes e restaurantes, um aposentado assassinado na garagem do prédio na 112 Sul, sequestros relâmpagos a qualquer hora do dia e em qualquer lugar, roubos a joalherias de shoppings e, para terminar a semana, três irmãos baleados no Cruzeiro. Contrariando as estatísticas do mundo cor-de-rosa da Secretaria de Segurança Pública, nunca o brasiliense se sentiu tão inseguro.
As razões são complexas. Passam pela impunidade, pela desigualdade social e pelo avanço do crack.

Mas, no caso do DF, excluem-se a falta de pessoal, de equipamentos, de treinamentos, de recursos e de salários decentes para as nossas polícias.

Os agentes de segurança da menor unidade da Federação dispõem, entre tantos aparelhos, dos mais modernos helicópteros e até de um avião. O DF tem a melhor proporção de policiais militares por habitante do país. Na teoria, seria a unidade mais protegida. Talvez faltem planejamento e comandos técnicos e rigorosos.

Não é de hoje, nossas políticas estão contaminadas pela politicagem — no pior sentido da palavra. Gente que deveria apenas cuidar da segurança dos cidadãos faz carreira pensando em votos, cargos e dinheiro públicos. Eleita, leva consigo uma tropa a gabinetes e se mete a indicar comandantes em todos os níveis da PM e dos Bombeiros, além de delegados na Polícia Civil. Não à toa, um terço dos PMs estão lotados em gabinetes dos três poderes. Há policial civil e militar cedido até para cidades fora do DF.

Para piorar, diante da escalada da violência e do medo da população, às vésperas de uma Copa do Mundo, os PMs brasilienses fazem operação tartaruga. Ignoram chamados e se atrasam para atender aos que consideram os mais graves.

Todos têm o direito de lutar por melhores condições de trabalho. Mas, muitos, principalmente servidores públicos, erram feio ao fundamentar as reivindicações se comparando apenas a outros servidores, como os PMs em relação aos agentes da Polícia Civil e do Detran. Um soldado da PMDF em início de carreira ganha R$ 4,3 mil, mais auxílio-alimentação de R$ 650, além de folgar três dias a cada dia trabalhado. É muito, levando-se em conta o restante do país.

Os PMs e os servidores públicos em geral não são os vilões do país. Apesar de muitos olharem apenas para o próprio umbigo, outros têm reivindicações justíssimas. Mas quem recorre a estratégias insensíveis e até criminosas, como a tal operação tartaruga, merece todo o descrédito da população

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