ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 24/01

BRASÍLIA - A prioridade da política externa brasileira em 2014 é restabelecer uma relação saudável e produtiva com a maior potência do planeta. Precisa dizer qual é?

A ironia é que, enquanto os EUA têm acesso a comunicações do mundo todo, o ruído na linha entre Washington e Brasília continua.

O governo Dilma não se contentou com as seguidas demonstrações de Obama, que determinou um diagnóstico da espionagem, foi à TV se explicar e convidou o chanceler Luiz Figueiredo para ir ao país.

E o governo Obama registrou com satisfação a decisão firme do Brasil de não acolher o delator Snowden, mas não consegue entender outras sinalizações não só do governo brasileiro, mas da própria Dilma.

Ficou "disappointed", em linguagem elegante, ou sentiu um soco no estômago, em outra nem tanto, com a derrota dos caças da Boeing para os da sueca Saab. E está tentando digerir como natural a demora de Figueiredo em marcar a data da sua ida.

Por último, os EUA perguntam-se, perplexos: como o Brasil pode almejar uma vaga permanente no Conselho de Segurança se simplesmente desdenha a participação nas negociações de Montreux pela paz na Síria?

Os EUA incluíram o Brasil numa demonstração de confiança e não entendem como o chanceler, que já iria para Zurique, ali ao lado, enviou o segundo escalão para Montreux por ordem de Dilma. Qual foi o recado? Na diplomacia, tudo tem significado.

Quem conhece bem o Brasil e a América do Sul até pode deixar barato: foi algo meio impensado, erro de avaliação. Mas, para quem não conhece --os que estão lá, à distância, no Departamento de Estado-- só aumentam a perplexidade, as interrogações, a crise de confiança.

Se a prioridade de 2014 é a reaproximação com os EUA, a política externa parece não estar começando bem o ano. Provavelmente, menos pela capacidade de Figueiredo, mais pela incompreensão de Dilma sobre o que vem a ser diplomacia.

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