Correio Braziliense - 29/01/2014
 
Havana — A presidente Dilma Rousseff defendeu ontem os financiamentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ao porto de Mariel, em Cuba. A ajuda de quase US$ 1 bilhão ao projeto cubano, enquanto os investimentos em infraestrutura no Brasil caminham a passos lentos, recebeu críticas de especialistas, mas, para a presidente, é plenamente justificada porque as obras tiveram a participação de cerca de 400 empresas brasileiras. Além disso, segundo Dilma, "a parceria com Cuba é estratégica" e o porto também interessa ao país.

Os comentários da presidente foram feitos à margem da segunda reunião de cúpula da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), inaugurada ontem em Havana sob a presidência do chefe de Estado cubano, Raúl Castro. O financiamento ao projeto de Mariel, afirmou Dilma, não significa que o governo tenha deixado de investir em portos no Brasil.

A cerimônia de abertura do encontro teve críticas aos Estados Unidos e um minuto de silêncio em homenagem ao falecido ex-presidente venezuelano Hugo Chávez, principal incentivador do bloco.

A reunião, da qual a maioria dos governantes da região participa, pretende enviar uma mensagem firme contra o embargo econômico a Cuba mantido por Washington desde 1962. "Há anos, as democracias da América Latina vêm pedindo o fim do embargo. Há anos, os Estados Unidos ignoram esse pedido", avaliou à France Presse o cientista político Patricio Navia, da Universidade de Nova York. Nesta quarta-feira, os representantes dos 33 países membros da organização devem assinar uma declaração contendo mais de 80 pontos, com temas que vão desde à luta contra a pobreza até o desarmamento.

O embargo já havia sido criticado na véspera por Dilma, na solenidade de inauguração do porto de Mariel, cujo projeto de modernização foi conduzido pela construtora Odebrecht. Na ocasião, a presidente assumiu o compromisso de liberar mais US$ 290 milhões para as obras, que já receberam US$ 682 milhões do BNDES.

Ontem, no pronunciamento que fez na abertura da cúpula, a presidente disse que a integração latino-americana só será completa com o fim das restrições a Cuba. Pouco antes, em entrevista, ela havia desautorizado notícias de que o governo vai elevar de 1% para 2% do Produto Interno Bruto (PIB) a meta de superavit primário neste ano e promover corte no orçamento entre R$ 40 bilhões e R$ 50 bilhões. Nenhuma decisão foi ainda tomada, explicou.

Amenidades
Na segunda-feira, Dilma aproveitou a passagem por Havana para se reunir com o líder Fidel Castro, irmão do chefe de governo. De acordo com o jornal oficial Granma, eles mantiveram um "diálogo ameno" sobre os investimentos brasileiros na ilha e temas internacionais. A presidente agradeceu ainda a participação de Cuba no programa Mais Médicos. Ela foi acompanhada no encontro, que durou mais de duas horas, pelo ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel.

No discurso de abertura da cúpula, Raúl Castro atacou o programa de espionagem denunciado pelo ex-analista de inteligência norte-americano Edward Snowden, que atingiu, inclusive, governantes aliados dos EUA, como a própria Dilma Rousseff. "É preciso evitar que o ciberespaço se torne um palco de operações militares", disse. "Os chamados "centros de poder" não se conformam por ter perdido o controle desta rica região", acrescentou.

O presidente cubano também atacou o "crescimento desmedido" dos lucros das empresas multinacionais, que, segundo ele, enfraquecem o balanço de pagamentos dos países latino-americanos. Embora considerando que os benefícios do investimento estrangeiro para a região "são inegáveis", ele afirmou que os países precisam definir "políticas adequadas nas relações com o capital estrangeiro".

» Repressão continua
A organização de defesa dos direitos humanos Anistia Internacional denunciou a detenção arbitrária de dezenas de opositores em Cuba às vésperas da cúpula da Celac e pediu o fim da repressão política na ilha. "A atitude das autoridades cubanas é um ataque ultrajante às liberdades de expressão e de reunião que não deveria passar inadvertida aos muitos líderes que nestes dias se encontram em Havana", disse o dirigente Javier Zúñiga, em um comunicado divulgado em Londres, onde fica a sede da entidade.
 

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