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Categoria: Lançamentos
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Diario de Natal 10/09/2006

 Militar apontado como participante de 502 torturas durante os quatro anos em que comandou o Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, lançará livro esta semana em Natal. A verdade sufocada (Editora Ser, 541 pág), nome da obra de subtítulo A história que a esquerda não quer que o Brasil conheça, foi lançado nacionalmente em abril passado e traz informações sobre a estrutura do órgão classificado pelo jornalista Ricardo Kotsho como ''sinistra sigla de repressão fora de controle''. O lançamento está marcado para o próximo dia 14 e será na AS Livros de Candelária - em galeria comercial próxima ao Natal Shopping.
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A acusação que encabeça a matéria é de outro repórter remanescente do período militar, Elio Gaspari, pesquisador dos ''Anos de Chumbo'' e que, numa edição de' O Globo de 2005, escreveu: ''Ele (Brilhante Ustra) comandou o DOI-Codi de São Paulo entre 1970 e 1974, período durante o qual foram desbaratadas as principais organizações esquerdistas envolvidas com a luta armada e atos terroristas. Do período em que comandou o DOI ficou a marca de 502 denúncias de torturas''. O texto de Gaspari foi publicado meses antes de o coronel Brilhante Ustra pôr o ponto final em A verdade sufocada. O livro que narra três décadas de memórias do coronel reformado teve como base de pesquisa material conseguido junto a dois volumes produzidos nos anos 80 por cerca de 30 oficiais do Centro de Informações do Exército brasileiro.

Antes de ser marcado para AS Livros, o lançamento do livro estava previsto para acontecer na Academia Norte-riograndense de Letras (ANL). O Poti ouviu o presidente da Academia, o advogado, poeta e escritor Diógenes da Cunha Lima, por telefone, já que o entrevistado se encontrava em Brasília (DF) no meio de semana. ''Acho que o direito à defesa é universal e não é uma acusação que o impede de manifestar sua versão'', diz. A notícia, porém, chegou aos ouvidos do jornalista Ticiano Duarte que, ao contatar o colega Vicente Serejo, manifestou-se contrário ao fato de o lançamento ser na ANL. Sanderson Negreiros e Lenine Pinto, também integrantes da Academia, reforçaram o quórum dos que não concordavam com o evento ter sede na entidade literária mais representativa do estado.

Ticiano Duarte diz, inclusive, ter recebido telefonemas de colegas após a circulação dos rumores acerca do lançamento de A verdade sufocada. Há cerca de duas semanas o grupo de acadêmicos foi, tendo Serejo como porta-voz, a Diógenes da Cunha da Lima, pedir para que a decisão fosse revogada. E foi o que aconteceu. ''A Academia Norte-riograndense de Letras não é o lugar apropriado para este tipo de coisa. É um caso polêmico e, se acontecesse, daria a impressão que a entidade estava em defesa do coronel Brilhante Ustra'', argumenta Duarte. De acordo com o presidente da ANL, o cancelamento do evento se deu informalmente, sem a necessidade de convocação de assembléia. ''Tínhamos aceitado mas, como se trata de um órgão colegiado, respeitamos a reação contrária, e desistimos de lançar o livro'', observa Diógenes da Cunha Lima.

''Irei, seja lá onde for, apóio e acho que deve ser feito. É o direito que a pessoa tem de apresentar sua versão'', conclui. A reação contrária a Natal sediar o evento levou o Centro de Direitos Humanos e Memória Popular do Rio Grande do Norte (CDHMP/RN) a organizar um movimento de caráter informativo, ressaltando, principalmente, a trajetória de Carlos Alberto Brilhante Ustra.