O Estado de São Paulo - Presidente da associação de produtores, preso na véspera por liderar protestos, é solto após pagar fiança de R$ 500 - Por Loide Gomes, BOA VISTA
Os manifestantes contrários à retirada dos não-índios da reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima, bloquearam ontem mais uma ponte na região para dificultar o acesso dos policiais federais que executam a Operação Upatakon 3. Desta vez o bloqueio se deu na ponte sobre o Rio Cotingo. Na segunda-feira, eles já haviam fechado a ponte sobre o Rio Surumu com caminhões, tratores e pneus velhos. A Raposa Serra do Sol é uma área de 1,7 milhão de hectares, situada acima da linha do Equador, na fronteira do Brasil com a Venezuela.

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O presidente da Associação dos Rizicultores de Roraima, Paulo César Quartiero, foi solto após o pagamento de fiança de R$ 500. Ele tinha sido preso na véspera, quando liderava o protesto na localidade de Surumu, acusado de quatro crimes: desacato a autoridade, desobediência, obstrução de rodovia federal e incitação à desordem pública.

Segundo seu advogado, Valdemar Albrecht, o caso será encaminhado para o Tribunal Regional Federal da 1ª região, já que Quartiero é prefeito de Pacaraima.

Por causa do incêndio na ponte do Rio Araçá na madrugada de segunda-feira, Albrecht diz que os rizicultores terão dificuldades de transportar o arroz já colhido. Por outro lado o Conselho Indígena de Roraima (CIR) diz que está sem condições de prestar atendimento médico a 10 mil indígenas.

Ontem o CIR protocolou oficialmente pedido de segurança às comunidades na Fundação Nacional do Índio (Funai), na Advocacia-Geral da União (AGU) e no Ministério Público Federal. A entidade pediu atenção especial às comunidades Surumu, Barro e Contão, que estão no epicentro do conflito e são as mais atingidas pelos bloqueios das pontes. Agora, o único acesso à Raposa Serra do Sol se dá pelo município de Normandia, o que aumenta o percurso em 60 quilômetros.

A Operação Upatakon deverá mobilizar 500 agentes federais e homens da Força Nacional de Segurança. Seu objetivo é retirar da reserva os últimos ocupantes não-índios que ainda estão lá. Há pequenos proprietários rurais e alguns comerciantes, mas a principal resistência vem dos grandes produtores de arroz.

A expectativa em Boa Vista é de que o desenlace ocorra antes do dia 15 - data do terceiro aniversário da assinatura do decreto de homologação da reserva pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Os índios já tinham avisado as autoridades federais que, se elas não tomassem providências até o fim deste mês, eles mesmos fariam a desintrusão dos brancos. “Cansamos de esperar, e se o governo não agir agora nós vamos lutar. Sabemos morrer, mas também sabemos matar”, disse ao Estado o coordenador do Conselho Indígena de Roraima, Dionito José de Souza.

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