Governos Lula e Dilma são qualificados como ‘vergonhosos’ no quesito de reforma agrária

O Globo  14/02/14 

 BRASÍLIA - Nesta sexta-feira, último dia do Congresso Nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), coordenadores nacionais do movimento falaram nas estratégias para os próximos cinco anos. Aumento das invasões de terra, união com aliados de esquerda, independência eleitoral e massificação do movimento foram os tópicos mais abordados. Em uma demonstração de endurecimento das reivindicações, a marcha de quarta-feira em Brasília (chamada por eles de "MSTzaço"), que reuniu mais de 15 mil pessoas e fez Dilma receber os militantes, foi citada como exemplo a ser seguido. No protesto, 42 pessoas ficaram feridas após confronto com a polícia.

Se eles estão achando que nós já éramos, que nós íamos ficar em assentamentos, estão errados. Na quarta, demos o recado de como vai ser nos próximos cinco anos — afirma Jaime Amorim, um coordenador geral do movimento.

Segundo observações do próprio movimento, os últimos tempos foram de criminalização e despolitização para o MST.

— Não vamos ficar aqui fazendo análises, porque as análises já foram feitas. Mas nós tivemos nos últimos dez anos uma desmassificação, uma desmobilização e uma criminalização. É um sentimento real — afirma Amorim.

Os governos Lula e Dilma foram qualificados como "vergonhosos" no quesito da reforma agrária, principal pauta dos sem-terra.

— São governos sem comprometimento. Nós não devemos nada a eles — diz Amorim. Juliana Oliveira, militante do MST, completa: — Esse governo não reconhece que nesse território tem gente e tem luta.

Além de presente no discurso, a necessidade de independência de processos eleitorais foi ressaltada na cerimônia com autoridades na noite desta quinta-feira. A organização informou que nenhum pré-candidato à Presidência compareceu porque não é a intenção do MST alinhar-se a alguma figura. A ideia é que o Estado deve ser enfrentado, pois é ele que poderá concretizar a reforma agrária após pressão popular. As únicas alianças citadas, que devem ser feitas e fortalecidas, foram com outros movimentos sociais, tanto brasileiros quanto internacionais.

— É hora de dizer a nossos aliados, nossos amigos, que nós estamos juntos nesta luta por um novo modelo de organização da sociedade. Povo da Venezuela, Bolívia, Cuba, aqueles que acreditam que é possível continuar a lutar pela sociedade socialista. O MST tem papel na revolução dos miseráveis, dos injustiçados — afirma Jaime Amorim, que completa: — Eles dizem que o inimigo deles é o Estado, é o latifúndio e a mídia. Nosso inimigo é um só. Se nós temos um inimigo em comum, vamos fazer luta conjunta.

Indígenas, quilombolas, ribeirinhos, sertanejos e extrativistas também foram citados pelos locutores como "amigos". Por outro lado, por várias vezes, o termo "inimigo" foi utilizado em referência ao latifúndio, burguesia, mídia e governo.

— É preciso reconhecer que nossas táticas de luta foram estudadas e investigadas pelo inimigo. Nós somente conseguiremos avançar contra o sistema latifundiário se surpreendermos — diz Kelly Mafort, coordenadora do MST.

A ampliação do movimento deve se dar de forma ostensiva, segundo os coordenadores. De acordo com eles, o MST tem presença em mais de mil municípios. Mas apontam que "ainda há muito espaço": mais de 4 mil não foram ocupados. Para isso, argumentam, é necessário reafirmar os objetivos do movimento: luta pela reforma agrária, contra a propriedade privada e o latifúndio.

— Nessas cidades onde o MST não está, há companheiros de sindicatos, igrejas e partidos políticos nos esperando — diz Amorim.

O "MSTzaço" - como foi chamada a marcha de quarta-feira - foi frequentemente citado como prova de que o movimento está vivo e "de pé, não ajoelhado". Jaime Amorim pediu para que seja feito um "MSTzaço" em cada estado no dia 17 de abril, Dia Internacional das Lutas Camponesas. Além disso, foi anunciado que cada estado deverá fazer em maio, no mínimo, uma ocupação.

— Na luta de classes, todas as armas são válidas. Pedras, foices, máscaras e facões — diz Juliana Oliveira.

Copa do Mundo também foi citada como descontentamento e possível presença do MST nos protestos de rua:

— Não somos contra a Copa, mas não aceitamos o dinheiro da reforma agrária ser usado para construir estádios. Nós vamos estar com eles (jovens) na rua em junho e julho — afirma Jaime Oliveira

 

Comments powered by CComment

Adicionar comentário

Código de segurança
Atualizar