Marco Antonio Villa – 22/02/14
A proximidade dos 50 anos do golpe militar brasileiro tem despertado o interesse em historiadores, cientistas políticos, jornalistas e sociólogos, que trazem a público diferentes olhares sobre aquelemomento histórico. Alguns autores enriqueceram suas obras com novas informações, como Elio Gaspari com sua série sobre a ditadura, que revela documentos que reforçam a presença americana no golpe. Outros, como Daniel Aarão Reis, no recente Ditadura e democracia no Brasil (Zahar), se aprofundam na análise da participação ativa da sociedade civil nos acontecimentos de março de 1964, propondo que a ditadura instalada seja qualificada como civil-militar. E, ainda, há quem procure matizar a ditadura, tanto para relevar seus efeitos como para reconhecer avanços modernizadores devidos aos governos militares. É o caso do historiador Marco Antonio Villa, que está lançando seu Ditadura à brasileira – 1964-1985: a democracia golpeada à esquerda e à direita. A tese mais contestada do autor é a que defende que não se pode falar de ditadura no período 1964-1968 (até a decretação do AI-5), em razão da movimentação política e cultural e da existência de espaço democrático vivo no tecido social e das instituições. Além disso, o historiador acusa a opção pela luta armada como uma forma de desprezo pela via política, já que, até 68, ainda havia condições de resistência democrática. Villa ainda faz questão de diferenciar a ditadura brasileira de outras expressões autoritárias na América do Sul. Por fim, considera que com a anistia se encerra o ciclo, o que resume o arco temporal da ditadura aos anos 1968-1979. Em entrevista ao Pensar, Marco Antonio Villa avalia o significado de 1964 para a sociedade brasileira e o que ainda há está vivo daquele período. “Pouca coisa mudou”, decreta o historiador. 

Os 50 anos do golpe militar têm despertado interesse em vários autores e universidades. O que 1964 significa para a história brasileira?

O ano de 1964, assim como 1930, é emblemático na história política brasileira. Foi um momento de definições. Serviu como teste para a democracia da época. Infelizmente para o Brasil, as instituições ainda eram frágeis, a elite política – em sua maioria – era golpista e desprezava a democracia. Assim, em vez de desatarmos o nó górdio construído principalmente por Jango, acabou-se, mesmo sem ser esta a intenção inicial, abrindo caminho para um longo período de arbítrio. 

Havia outra saída para a crise instalada em 64?

A saída seria uma negociação via Congresso Nacional e que garantisse a aprovação de algumas reformas e as eleições presidenciais de outubro de 1965 Mas a maior parte da elite política queria o golpe, tanto à direita, como à esquerda. Jango tinha o seu golpe, assim como Brizola e o PCB. A direita também tinha o seu – na verdade, vários grupos direitistas articulavam o “seu” golpe. A saída democrática foi inviabilizada. 

Recentemente, houve grande polêmica em torno da expressão ditabranda, que trazia à tona a comparação da ditadura brasileira com a de outros países do Cone Sul. Como você avalia essa questão?

Não há qualquer parentesco do regime militar brasileiro com as ditaduras do Cone Sul. Na Argentina, por exemplo, a ditadura desestatizou a economia; no Brasil ocorreu o processo inverso. Os militares argentinos bateram de frente com o ensino público de terceiro grau; no Brasil, os governos militares expandiram as universidades federais. Durante todo o regime militar ocorreram eleições: 1965, 1966, 1968, 1970, 1972, 1974, 1976, 1982. Ocorreu alguma eleição na Argentina? Ocorreu alguma eleição no Uruguai? E o Congresso aberto? Na Argentina de Videla e no Chile de Pinochet foi a mesma coisa? A ditadura chilena instituiu o horário político gratuito na televisão e rádio? Algum presidente argentino falou de democracia na posse? 

Ainda há traços da ditadura na sociedade brasileira?

Como no processo de transição do regime militar para a democracia os representantes da velha ordem acabaram assumindo – oportunisticamente – a hegemonia, o novo já nasceu velho. Hoje, no aparelho de Estado temos a presença dos mesmos interesses de classe do pré-1985. O Brasil dormiu na noite de 14 de março com Tancredo presidente e acordou, no dia seguinte, tendo no Palácio do Planalto José Sarney. E dizem que Deus é brasileiro…. Assim, apesar da importância da Constituição de 1988 e das instituições criadas, o manejo do cotidiano do Estado é realizado pelos setores oligárquicos/familiares, isto nos estados mais atrasados, e pelo grande capital, no caso dos estados mais avançados. Em suma, pouca coisa mudou. 

Os partidos e os movimentos sociais brasileiros aprenderam com a história?

Não. Vivemos o pior momento da história política republicana. São anos, como já escrevi, marcados pela hipocrisia. Não há mais ideologia. Longe disso. A disputa política é pelo poder, que tudo pode e no qual nada é proibido. 

Como você avalia a criação e o trabalho desenvolvido pela Comissão da Verdade?

Péssimo trabalho. O problema começou com a aprovação da lei. Depois pela designação de pessoas que desconheciam como encaminhar o trabalho de uma “comissão da verdade”. Depois de tanto tempo, qual o resultado concreto dos trabalhos? Deu alguma contribuição para a discussão do passado político? A comissão serviu como palco para que o governo pudesse, como de hábito, fazer um acerto de contas com seus adversários. O PT – e é uma sua característica – confundiu a sua visão de mundo com a dos brasileiros. 

Fonte: www.uai.com.br

 

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