Igreja Matriz.dos Santos Cosme e Damião
Foto: O Globo

 Nenhuma surpresa, num país em que já derreteram a Copa Jules Rimet e já falsificaram até remédio para câncer!
Ricardo Setti
A Igreja Matriz dos Santos Cosme e Damião, construída em de 1535, assaltada por três bandidos: há muito tempo passamos dos limites do intolerável — e não acontece nada.
Vocês viram o que aconteceu em Igarassu, na região metropolitana do Recife, não é? Três bandidos invadiram a preciosidade denominada Igreja Matriz dos Santos Cosme e Damião — uma relíquia extraordinária da história do país, a mais antiga em funcionamento no Brasil, construída em 1535 — e, depois de tentarem levar até o dinheirinho com que os fiéis contribuem para o funcionamento da diocese (não havia nada na sacristia), foram arrebentando armários e baús e levaram duas peças preciosas, tombadas pelo Patrimônio Histórico da União.
Alguma surpresa? Na verdade, nenhuma. 

Não custa lembrar a quantas anda a pouca vergonha neste país, e há muuuuuuuuito tempo. Um país em que as pessoas cada vez mais não vêem limite para nada: uma espécie de pico simbólico na falta de vergonha na cara da nação ocorreu há muitos anos, em 1983, quando pilantras jamais descobertos levaram embora da sede da Confederação Brasileira de Futebol o maior troféu conquistado até hoje pelo esporte brasileiro, a taça Jules Rimet, a taça do tricampeonato mundial, abiscoitada em definitivo com a vitória na Copa do México, em 1970, com quase dois quilos de ouro maciço.

 Derreter a taça e vender o ouro no mercado negro foi o fim inglório de um símbolo que significava muito não apenas para o esporte, mas para o Brasil, para o orgulho nacional. 

Depois disso, aconteceu mais tanta barbaridade, simbólica ou gritantemente real, que o brasileiro de bem passou a formar uma espécie de couraça de torpor para suportar as más notícias que chovem de todo canto. Até remédio contra o câncer — contra o câncer ! — conseguiram falsificar, colocando amido e outros produtos completamente anódinos em medicação que representava a esperança de sobreviver ao inferno para um grande número de pessoas. 

Chacinam-se pessoas nas periferias das grandes cidades como parte da mais absoluta rotina, a ponto de esses crimes horrendos merecerem cada vez menos espaço. 

O Brasil aplica percentual do PIB maior do que o Japão em educação, e temos um ensino público escandalosamente ruim, comprometendo as futuras gerações e a competitividade do país no mundo. 

Na saúde, não é diferente: uma quirera do que se arrecada chega ao beneficiário final, porque um Estado gordo, lerdo, insensível e incompetente faz as verbas desaparecer nos meandros da burocracia. 

Governantes cínicos e canalhas avançam nos cofres públicos, diante de uma impunidade descarada que o final do julgamento do mensalão mostrou ser quase impossível reverter. 

Aplicam-se todo tipo de golpe nas pessoas decentes, abusa-se a todo momento da boa-fé que ainda resta nas pessoas, as instituições existem, custam caro, e funcionam mal. 

Ou seja, vão continuar roubando objetos históricos e preciosos — as igrejas do interior de Minas estão dilapidadas, o mesmo ocorre em Estados do Nordeste –, vão continuar vandalizando monumentos respeitáveis, vão continuar assaltando os cofres públicos, vão continuar abusando da paciência de nós, cidadãos. 

Disso eu não tenho a menor dúvida. Há muito tempo passamos do limite do intolerável, em várias áreas, e não acontece nada.

Fonte: http://veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/politica-cia/vagabundos-roubam-a-igreja-mais-antiga-do-brasil-feita-35-anos-depois-da-chegada-de-cabral-nenhuma-surpresa-num-pais-em-que-ja-derreteram-a-copa-jules-rimet-e-ja-falsificaram-ate-remedio-para-can/

 

 

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