Por Marco Balbi
            Com o título de Resistência à ditadura, Ferreira Gullar assinou um artigo veiculado pelo jornal Folha de São Paulo, em 2 de março de 2014.
            O poeta usa a pauta para, elogiando a exposição intitulada "Resistir é preciso", em exibição no Centro Cultural do Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, colocar algumas pequenas observações críticas, principalmente em função de omissões a fatos e personalidades.            Ousaria colocar alguns aspectos em contraposição ao articulista e  começo pelo título. O Brasil não teve um regime ditatorial no período de 1964 a 1985, mas sim um regime de exceção. Quem assim o afirma é o conceituado advogado constitucionalista Ives Gandra da Silva Martins. Ainda me valendo do mesmo jurista, corrijo outra assertiva colocada no início do texto, quando o autor se refere ao golpe militar. Dr Ives define como reação democrática de 31 de março de 1964, ele mesmo partícipe, quer como profissional liberal, quer como integrante de um partido político, do movimento que depôs Jango, reunindo parcela significativa de civis e militares irmanados com o mesmo desiderato.             Ferreira Gullar assevera que a exposição é um dos eventos que visam demonstrar a repulsa da sociedade brasileira pelos 50 anos do evento histórico. Parece-me que a sociedade brasileira passa ao largo do assunto, mesmo veiculado de maneira incessante por toda a mídia. Além disso, este e outros eventos são sustentados por órgãos públicos, ou seja, pelo bolso desta mesma sociedade escorchada por impostos. Se ela fosse chamada a se manifestar, será que aprovaria o emprego dos recursos neste mister?

            Ao salientar as omissões da exposição o autor ressalta as diferentes peças e espetáculos teatrais que estrearam e estiveram em cartaz durante os anos de 1964 até 1966, com críticas severas ao regime em vigor e absoluto sucesso de público. Agora, poeta, responda uma pergunta: que "ditadura" foi esta que permitiu que Opinião, Liberdade, Liberdade, Se correr o bicho pega, se ficar  o bicho come e Arena canta Zumbi fossem encenadas? O senhor mesmo ressalta a importância do teatro como forma de protesto e o julga pouco representado na exposição.

            Ainda na área cultural ocorreu a omissão da importância da revista Civilização Brasileira, editada durante 15 anos, até que o editor Ênio Silveira fosse preso. Será mesmo possível que a "ditadura" levasse todo este tempo, para se aperceber do papel desempenhado pela revista, ou as causas para a prisão do editor foram outras? A narrativa me fez lembrar palestra e artigo de autoria do Dr Heitor de Paola, onde ele, que participava de maneira atuante como membro da UNE no conjunto das forças que se opunham ao regime, abordou exatamente o tópico ao qual o poeta explicita, ou seja, havia ampla liberdade cultural. Quanta diferença para os adoradores do regime cubano, russo ou chinês, não é verdade, poeta?

            A seguir o autor reclama que só existe uma fotografia para relembrar a marcha dos 100 mil. Ora, marcha por marcha, multidão por multidão, não dá para comparar com as marchas da família com Deus e pela liberdade levadas a efeito nas principais cidades do país, algumas imediatamente antes da reação democrática e como parte dela. E, vale relembrar que o ano de 1968, quando ocorreu a marcha dos 100 mil, que até uma conhecida personalidade política atual tentou se posicionar nela, mediante amadora montagem fotográfica, foi um ano ímpar na história mundial, com protestos dos mais variados matizes e motivações diversas. A marcha dos 100 mil enquadra-se neste caso.

            O autor passa a fazer referência aos que partiram para a luta armada. Cita como um equívoco a opção realizada, diz que a maioria era contra, mas não deixa de elogiar o desprendimento e a coragem dos que o fizeram. Meio em cima do muro! Ressalta que a exposição dá destaque aos que morreram, mas comete um equívoco histórico: diz que muitos integrantes foram assassinados! Houve uma guerra interna entre os anos de 1968 e 1974 e o Estado se defendeu da agressão, pois ele Estado é quem detém o monopólio da força. Acresça-se que em momento algum os terroristas, guerrilheiros, ladrões e assassinos tiveram qualquer tipo de apoio da população brasileira que ordeira e pacífica vivia a sua vida da melhor maneira possível e com qualidade.

            Somente ao final do artigo o autor descobre a pólvora. Ao constatar que várias personalidades que ao seu ver desempenharam papel importante para por fim ao regime de exceção, lamenta que só um deles  é ali lembrado: Lula! Ele não concluiu, mas eu o faço: numa exposição patrocinada pelo Ministério da Cultura de um governo do PT, numa instituição umbilicalmente ligada ao PT, o Banco do Brasil, o poeta queria que ressaltasse quem? E viva o queremismo! Lula vem aí, no mais tardar em 2018, já discursou o Rui.

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