Ernesto Caruso
      
       Por que houve 1964?
       Livros e manchetes demonstram; quem viveu se lembra. Os iletrados não leem, não sabem; são facilmente tangidos. Os inocentes úteis se envolvem mais pela emoção do que pela razão. Os brutos inconformados com a vida que não lhes sorri, por incompetência/indolência se realizam com a violência e a revolta que entendem justas. Os jovens não provedores de si próprios, em confortável ninho, inconformados com as desigualdades, mais autoafirmação, são revoltados pela própria natureza... Mágica e sininhos! Embarcam na nave da utopia. Partidários, máquina estatal, afinados, contratados e claque doutrinam nos movimentos sociais, estudantil, operário-sindical, religioso, imprensa, internet. Moto contínuo. Aconteceu, está acontecendo.

No Brasil, perderam, mas deixaram um rastro de violência e sangue, em 1935, 1963/64, 1968/70. Na América Latina o terrorismo marxista-leninista assolou, matou muita gente inocente, Uruguai, Argentina, Chile, Equador, Peru..., Cuba, ditadura de Fidel desde 1959; a Colômbia, como fez mal as lições de combate, lá resistem sequestradores/terroristas, integrantes das FARC, colegas dos “genoínos”. Na Europa, Ásia, África. Rússia, Alemanha, Hungria, Tchecoslováquia, China, Vietnam, Coreia, Angola, Moçambique..., satélites da soberania limitada, com quase 150 milhões de vítimas.

Assim, causa perplexidade o aparente paradoxo boiando na grande imprensa tupiniquim entre tais fatos comprovados na amplitude do tempo e nos continentes, com vidas ceifadas pela foice e o martelo e, não reconhecer que não ocorreram no Brasil. Simples razão: foram derrotados na luta armada empreendida por incompetência, mas muita desgraça. Estão no poder pela via democrática pela qual não lutaram.

Imprensa que foi viva e forte contra o comunismo e coparticipe do Movimento Cívico-militar que cortou na raiz as intenções do fraco governo Goulart sob controle de Luiz Carlos Prestes/PCB. Como exemplo, vale citar o nome do insigne patriota Julio de Mesquita Filho. História escrita e oportuna.   
   
O livro MARÇO 64: MOBILIZAÇÃO DA AUDÁCIA, 1965, de José Stacchini, repórter do jornal O Estado de São Paulo, esclarece tais acontecimentos. Reproduz a carta de Mesquita Filho, de 20/Jan/1962, ao Estado Maior clandestino onde demonstra a articulação posta em andamento para a derrubada do governo Goulart.  Divergindo de alguns pontos, ressalta as falhas dos movimentos de outubro de 1945, contra a ditadura de Getúlio em agosto de 54, com a precipitação de entregar o poder “a homens que vinham do mesmo passado”.

Discute sobre o prazo de permanência de um governo discricionário; trata do expurgo dos quadros do Poder Judiciário, como absolutamente necessário, mas sem violências desnecessárias; opta pela decretação do estado de sítio, de início, com a dissolução das Câmaras, após a conquista da confiança da opinião pública; defende a vigência da Constituição de 46, com alterações; propõe nomes para as pastas ministeriais; conclui que “seria meio caminho andado para que o País se convencesse de que, afinal se haviam apagado da nossa História os hiatos abertos na sua evolução pela ditadura do Sr. Getúlio Vargas, e pela ação corruptora dos seus discípulos nos governos que se sucederam até os nossos dias”.

Proclama: “Acha-se o País em estado de profunda comoção...”. Apresenta aos chefes da conspiração um projeto de Ato Institucional.  Os seus dezesseis artigos definem que o governo será constituído por uma Junta Militar, que serão dissolvidos o Senado, a Câmara dos Deputados... que governadores e prefeitos poderão ser confirmados ou destituídos e nomear interventores...

Estas reminiscências destacam a participação do jornalista em defesa das instituições democráticas, sob ameaça de um governo alienado dos seus compromissos com a Constituição Federal e infiel às liberdades fundamentais.

Ameaça que hoje se repete no modelo chavista, no culto aos irmãos Castro, no cerco à imprensa livre, no controle do parlamento e da Justiça, comendo pelas beiradas.

Na crise da Ucrânia em debate no programa Painel, quando um dos convidados comenta sobre a queda do Muro de Berlin em 9 de novembro de 1989, lembra Willian Waack que as manchetes do dia seguinte se referiam a que Silvio Santos não era mais candidato à presidência da República. Muro de Berlin, desde 1961, 28 anos de mortes e tentativas de fuga do inferno comunista, 66 km, 302 torres de observação e tiro, 127 redes elétricas, 255 pistas com cães ferozes. Não mereceu importância.

Reconhecer é preciso que a “Mobilização da audácia”, feliz título da obra de Stacchini, envolvendo civis e militares, impediu que o Brasil se transformasse em país comunista e por efeito dominó contaminasse as nações vizinhas. Brasil sem “balseros”, sem divisão Norte-Sul, sem FARC, sem muro, mas sob instabilidade escorvada como se fosse combustão espontânea. Socialismo do século XXI, negação da liberdade. 
 

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