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Líder indígena avisa que tribos aguardam decisão do STF. Mas não abrem mão da área total.

O principal dirigente do Conselho Indigenista de Roraima (CIR), Dionito José de Souza, disse ontem que a entidade está comprometida em manter a paz na Reserva Raposa/Serra do Sol até a decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal (STF), mas também adianta que os índios não aceitarão mudanças no texto do decreto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva que define a terra indígena como área contínua.
– As terras são nossas e vamos ocupá-las – afirma.
   Dionito sustenta que 1,7 milhão de hectares pertencem às cinco etnias (macuxi, taurepang, wapixana, ingaricó e patamona), que ocupam a região e reafirma que, de um jeito ou de outro – ou seja, por bem ou por mal – os arrozeiros terão de deixar a área assim que o STF se manifestar, o que deverá coincidir com o fim da colheita do arroz e o início das chuvas na região. A polícia, que tem bases dentro da área, teme que haja conflito entre os próprios índios ou do CIR contra os arrozeiros antes mesmo do julgamento da ação cautelar apresentada pelo governo de Roraima.

Impasse perigoso

Índio da etnia macuxi, o próprio coordenador do CIR aponta um vácuo jurídico que pode suscitar polêmica: a operação da Polícia Federal foi suspensa por uma liminar, mas não houve qualquer alteração na portaria do governo homologando a Raposa/Serra do Sol em área contínua. Se por um lado evitou e eclosão de um conflito sangrento, a decisão do STF pode jogar a questão demarcatória num impasse perigoso. Os grupos mais exaltados querem fazer a retirada por contra própria e só adiaram o plano por causa dos apelos que vêm sendo feitos pela Funai e pela Polícia Federal, que tem negociado à exaustão.

As manifestações em comemoração ao Dia do Índio, no sábado e no domingo, terminaram sem incidentes graves em decorrência da presença das forças federais nos pontos de concentração. Dionito disse que a polícia contornou um princípio de tumulto provocado por um índio que desafiou os agentes federais incentivado pelo líder da resistência, o prefeito de Pacaraima, Paulo Cesar Quartiero.

– Parente (índio) não faz isso sozinho ou por conta própria – afirma. Ele alerta que, além de controlar a ordem pública dentro da reserva, o governo terá de tomar providências para evitar retaliações depois de uma eventual retirada dos arrozeiros.

 

– O Paulo César está incentivando a violência. Dizem que ele está bem armado e que contratou pistoleiros para matar lideres que encabeçam o movimento depois que tudo isso acabar – diz Dionito.

O dirigente do CIR disse que o STF decidiu suspender a Operação Upatakon III com base em informações mentirosas, segundo as quais, a retirada dos arrozeiros implicaria problemas de soberania nacional por causa da interferência estrangeira dentro da reserva. Dionito também discorda da observação feita pelo chefe do Comando Militar da Amazônia, general Augusto Heleno, sobre as ameaças à soberania em faixa de fronteira.

    – A nação brasileira não pode estar com idéia errada. Se fosse assim, então teria de tirar todo estrangeiro que mora em São Paulo ou no Sul do país. Não há nenhum estrangeiro com terras na Raposa/Serra do Sol – diz.

Dionito adianta que os índios querem os cerca de 50 mil hectares grilados pelos arrozeiros para desenvolver projetos compatíveis com o potencial da região: produção de grãos, piscicultura e criação de gado.

    – Se o governo liberar os recursos que precisamos, nada vai parar na economia de Roraima. Temos 30 mil cabeças de gado só na Raposa e podemos desenvolver um projeto de pecuária. Em Boa Vista há índios correndo atrás de comida.

Estima-se em 23 mil o número de índios atualmente misturados com brancos na capital do Estado

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