E não é que a faixa fica bem nele...

Correio Braziliense
No atual vazio político, num campo de luta em que os representantes do povo encolhem-se diante das patrulhas supostamente modernas, o general Heleno ganhou uma batalha. E ganhou sem dar um tiro. Só precisou abrir a boca e ter a coragem de falar.

 

 

 

 

 

 

 

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O tsunami globalista que se seguiu ao colapso da União Soviética parecia ter arrasado na sua passagem as veleidades nacionalistas. Mas era só impressão. Baixada a poeira, o nacionalismo ressurge como fenômeno essencial deste início de século 21. É no vetor nacionalista que as potências já estabelecidas buscam o discurso adequado para enfrentar os desafios à sua hegemonia. E é no nacionalismo, especialmente, que os candidatos a potência vão buscar a força intelectual e política capaz de levar à conquista de novos espaços de influência e poder.
 

O renascimento do nacionalismo em escala planetária era inevitável desde que a globalização viu gastar a sua maquiagem e revelou-se apenas como o novo nome do imperialismo. A trincagem nos alicerces da ilusão globalista está nítida no crescimento da xenofobia contra os imigrantes na Europa, na força renovada do protecionismo e do isolacionismo nos Estados Unidos, bem como na escancarada pressão que o Primeiro Mundo emprega para relativizar a soberania territorial, e portanto geopolítica, das nações emergentes e das nações rebeldes. Como já dito nesta coluna anteriormente, atenção para Kosovo, atenção para o Tibete, atenção para Santa Cruz de la Sierra.

O conceito imperialista de soberania relativa está diariamente no noticiário, seja para especular com o separatismo, seja para legitimar ações militares das grandes potências (ou de seus aliados) ao arrepio do direito internacional. A essa pressão ideológica, entretanto, não se opõe ainda na periferia do sistema um movimento político e intelectual que tenha representatividade e eficácia. A razão é simples. A esquerda do pós-socialismo deixou-se hipnotizar pela sereia da globalização. Passou a criticar não o imperialismo, mas os aspectos supostamente mais desumanos dele.

Emprenhada pelo multiculturalismo, a esquerda imaginou ter encontrado um atalho para o futuro: o capital finalmente dissolveria as fronteiras nacionais e abriria objetivamente as portas para uma transformação de alcance planetário. O resultado, naturalmente é a frustração. Que o digam os brasileiros estúpida e arrogantemente barrados no aeroporto de Madri. Que o digam os norte-africanos ameaçados pelas políticas cada vez mais intolerantes dos governos europeus. Que o digam os mexicanos e outros latinos diante do muro erguido ao longo do Rio Grande na fronteira com os Estados Unidos.

Perdidas as ilusões, volta-se à realidade fria, que não muda em sua essência há pelo menos dois séculos. As nações que desejam se projetar com força no cenário mundial precisam, em primeiro lugar, de líderes que as mobilizem em defesa de seu território, de seu mercado e de seus recursos. Em suma, de sua autodeterminação. É o que se passa, por sinal, nos países que nos rodeiam. O caso mais recente é o do Paraguai. Onde o presidente eleito, Fernando Lugo, retoma um fio histórico interrompido com a derrota para a Tríplice Aliança em meados do século 19.

Como os fatos caminham à frente das idéias (em geral, elas aparecem para explicá-los), a demandas populares nacionalistas na potência emergente que somos carece por enquanto de líderes que se apresentem como tal, bem como de idéias estruturadas e de símbolos políticos que sirvam para agregar e mobilizar o país nesta nova época. PT e PSDB, cada um à sua moda, são legendas filhas da globalização. Nasceram e cresceram num ambiente em que o nacionalismo era achincalhado e ridicularizado como expressão suprema do atraso e da recusa à contemporaneidade.

Um olhar detido sobre o Palácio do Planalto e o Congresso Nacional revela o vácuo político em um país cujas questões cruciais confundem-se com a esfera da nação, mas cujos partidos e políticos nem de longe dão sinais de desejarem ocupar esse espaço. Aí, belo dia, aparece um general respeitado, como é o comandante militar da Amazônia, Augusto Heleno Pereira, e revela que o rei está nu. Diz sem meias palavras que a nossa política indigenista não serve nem aos índios nem ao país, mas apenas para enfraquecer o controle nacional sobre a região mais estratégica do Brasil.

Quando o general Heleno abriu a boca para dar sua opinião, muita gente reagiu. Ele recebeu todo tipo de crítica. Dele só não se disse uma coisa. Não o acusaram de estar mentindo, de descrever uma realidade inexistente. Ou seja, no vácuo político, num campo de luta em que os representantes do povo encolhem-se diante das patrulhas supostamente modernas, o general Heleno ganhou uma batalha. E ganhou sem dar um tiro. Só precisou abrir a boca e juntar coragem para falar. 

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