JB Online - Secretário quer ouvir líderes militares que combateram a guerrilha
A Comissão de Mortos e Desaparecidos, da Secretaria Especial de Direitos Humanos, convidou para prestar depoimento no próximo dia 7 de maio, em Brasília, o prefeito de Curionópolis (PA), Sebastião Curió Rodrigues de Moura – o oficial que comandou as prisões e execuções da maioria dos 59 guerrilheiros do PC do B desaparecidos no Araguia –, o coronel Lício Maciel, o tenente José Vargas Jiménez e um morador, José Rodrigues da Silva, que diz ter visto o sepultamento de vários 12 corpos de guerrilheiros na antiga base do Exército, em Xambioá.

Texto completo  

Em entrevista ao Jornal do Brasil, Curió confirmou que os mortos foram 59, diz que revelará o paradeiro da maioria deles em agosto e afirma que divulgará o relatório com os nomes, circunstâncias em que foram mortos e os locais para onde foram transladados depois de uma operação de remoção dos corpos, provavelmente em 1975.

– Curió tem informações de campo e, se quiser, pode ajudar a localizar os restos mortais dos guerrilheiros – diz a ativista Diva Santana, integrante da comissão e irmã de uma guerrilheira desaparecida (Dinaelza Santana Coqueiro).

Sob o comando do secretário de Direitos Humanos, Paulo Vannucchi, a comissão organizará uma expedição à região do Araguaia a partir de julho. O grupo organizará um conjunto de depoimentos de moradores e guias que ajudaram o Exército no extermínio da guerrilha, para montar um organograma sobre os locais onde os corpos poderiam ter sido enterrados. O Ministério da Defesa também criou força-tarefa em que participam Exército, Marinha e Aeronáutica, para cruzar os dados existentes e ouvir oficiais que estiveram na linha de frente dos combates. Essa comissão tentará cumprir a sentença da juíza federal Solange Salgado, de Brasília, que mandou o governo encontrar os corpos ouvindo oficiais e abrindo os arquivos que as Forças Armadas sempre negaram existir.

Na entrevista ao JB Curió desmente a versão das Forças Armadas. Disse que guardou os documentos sobre a guerrilha, mas só os revelará no livro que será lançado em agosto e garante que não prestará depoimento a nenhum órgão oficial, seja das Forças Armadas ou de qualquer setor do governo.

– Vou abrir o jogo. Não existem desaparecidos – afirma o prefeito, que pretende exorcizar os fantasmas do Araguaia esclarecendo o episódio através de documentos que abrangem todo o período da luta armada no Bico do Papagaio, de 1972 a 1975. Ele afirma que as ossadas desenterradas foram divididas e enterradas novamente em locais cujo endereço é um segredo "fechado". Só Curió e os guias que o ajudaram sabem exatamente onde ficam esses locais.

Dos militares convidados pela Comissão de Mortos e Desaparecidos, apenas o tenente Vargas, conhecido como Chico Dólar, aceitou participar. Em entrevista ao JB, ele contou que chefiou um grupo de combate com a missão de exterminar os guerrilheiros e detalhou as prisões e métodos de tortura aplicados contra militantes do PC do B e moradores. Também apontou locais onde seus homens viram ossadas na mata. O coronel Lício Augusto Ribeiro Maciel, o oficial que descobriu o foco guerrilheiro no Araguaia, um major conhecido como Doutor Asdrubal e um dos principais comandantes do massacre, diz que não comparecerá. Convidado, sugeriu aos membros da comissão que leiam o livro que lançou recentemente sobre o episódio.

Prefeito sub-judice de Curionópolis (PA), aos 73 anos, o homem que se transformou em arquivo vivo da Guerrilha do Araguaia, diz que todos os esclarecimentos serão dados no livro.

– Depois não falo mais nada –, afirma.

Ele diz ter recusado um convite da TV Globo para ser a estrela de um programa especial sobre o conflito. Como protagonista de pelo menos oito combates importantes na selva e principal comandante das operações, afirma que revelará informações que podem ajudar os familiares a encontrar a maioria das ossadas de guerrilheiros, entre elas as dos principais dirigentes do movimento, como Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão.
Adicionar comentário