Percival Puggina
Tribuna da Imprensa - 16/06/2014
Vários jornalistas e opinadores da mídia descobriram, após exaustivas investigações, que as vaias e os insultos dirigidos à presidente durante o jogo de estreia do Brasil na Copa provieram de uma elite com “caixa” suficiente para adquirir os custosos ingressos que davam acesso às cadeiras do Itaquerão. Ali não estava o “povo”. E, menos ainda, o povão. É claro que se Dilma tivesse sido aplaudida (como era aplaudido o presidente Médici quando entrava no Maracanã), jamais recusariam à efluente plateia o direito de ser identificada como imagem viva do “povo”.

A contradição nos coloca diante de mais um problema gerado pelo petismo. Para entender o que acontece é preciso saber como funcionam essas coisas na cabeça dos que foram doutrinados pelo Partido dos Trabalhadores. Eles são o povo quando vaiam e jamais são vaiados pelo povo porque isso significaria vaiar a si mesmos. E é assim que pensam, por mais que a presidente Dilma, nos últimos meses, recolha apupos onde quer que vá.

Todos os grandes teóricos da esquerda são unânimes em afirmar a importância do partido e de sua disciplina interna, na qual repousa indispensável elemento de coesão e mobilização. Com efeito, nenhum grupo social se reúne tanto quanto esses denodados militantes para os quais nada se sobrepõe à convocação partidária. Os demais cidadãos, mesmo quando politicamente alinhados, têm outros compromissos e se ocupam, também, com atividades que vão dos joguinhos de futebol aos aniversários dos parentes, do fim de semana na praia aos prazeres da carne, das responsabilidades profissionais às irresponsabilidades de um filmezinho na televisão. “Coisas do mundo, retratos da vida”.

SÃO O PRÓPRIO POVO…
A capacidade de juntar gente acaba produzindo presunçosa conseqüência: os companheiros se reúnem sob a sólida certeza de que são o próprio povo, seja numa assembleia do OP, numa passeata do Fórum Social, numa reunião de seu “coletivo”, numa assembleia de professores, seja, ainda, para ocupar uma rua, bloquear uma estrada, invadir uma fazenda, assassinar reputações, ou insultar aqueles a quem se opõem.

Agora mesmo, a presidente acaba de assinar um decreto, o tal Decreto nº 8243, que institui os sovietes no Brasil através de um certo Programa Nacional de Participação Social. Esse ato normativo, que atropela a Constituição e o Congresso Nacional, pretende trazer o povo para a definição dos projetos e das políticas públicas. E quem é o povo para o governo petista? O povo é formado pelos movimentos sociais, coletivos, sindicatos e outros entes, “institucionalizados ou não”, que o PT sabidamente constitui, domina e instrumentaliza.

Nada na vida social é mais heterogêneo do que o povo. Ele não tem coisa alguma a ver com certas pinturas ideologizadas que o representam com as individualidades indiscerníveis e os punhos simiescamente erguidos ao alto. É em virtude da pluralidade inerente à composição social que a democracia, institucionalizada como regime, só pode ser representativa. E é em virtude dessa pluralidade que as formas de democracia direta, na Constituição Federal, estão restritas a plebiscitos, referendos e iniciativa popular na apresentação de propostas legislativas. E é bom que seja assim, acima e muito além das pretensões hegemônicas do PT, porque só assim se preservam as maiores riquezas de uma sociedade, que são os indivíduos que a compõem.
• P. Puggina
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