Plácido Fernandes Vieira
CORREIO BRAZILIENSE - 02/08/2014
Sempre me lembro de 1984, que considero o maior romance do século 20, quando ocorrem cenas patéticas como a de Lula chamando o presidente mundial do Santander de "meu querido" e se vangloriando da demissão de uma funcionária do banco espanhol. Quem te viu, quem te vê. O big boss do PT se refere à demitida como aquela que não sabia de "porra nenhuma". O crime que ela cometeu: alertar correntistas sobre investimentos que ganham ou perdem valor quando Dilma sobe ou desce nas pesquisas eleitorais.

No mundo todo, com exceção de ditaduras, é assim. Trata-se de uma obrigação de analistas informar sobre o que influencia o sobe e desce do mercado. Tanto que corporações financeiras internacionais acompanham com lupa tudo o que acontece em cada país e orientam os clientes para riscos e oportunidades. No momento, todas, sem exceção, veem com apreensão o cenário econômico brasileiro. Não à toa. O FMI e o FED (o banco central americano), por exemplo, apontam o Brasil entre os cinco países emergentes mais vulneráveis do mundo, ao lado da Índia, da Turquia, da Indonésia e da África do Sul. Pois é: o planeta inteiro está "errado" ou "conspira" contra o governo do PT.

Sim. É verdade que existiu, no Brasil, terrorismo de empresários contra Lula. Como é o famoso caso de Mário Amato, que alardeava uma fuga em massa de investimentos se o petista fosse eleito. Errou feio. Não só os empresários não fugiram do país como o temido sindicalista se tornou o político mais querido dos donos do PIB. Uma prova é a recente romaria ao Instituto Lula e o beija-mão dos poderosos para que o ex-sapo barbudo seja o candidato a presidente no lugar de Dilma.

Outra vez volto a Orwell. No livro lançado em 1948, ele associa 1984 ao triunfo do Estado totalitário sobre as liberdades individuais. Estaríamos, todos, então, sob o jugo do Grande Irmão. Que reescreve a história, muda o sentido das palavras, cria uma nova língua e a tudo e a todos subjuga. Liberdade de expressão? Esqueça. É crime ter opinião própria. Vigora o pensamento único do partido. Câmeras mantêm cada um sob vigília até quando a pessoa está dentro de casa. Felizmente, todos os mecanismos de opressão que o escritor imaginou à época não se concretizaram em 1984. Mas já existem hoje. E parece haver quem morra de vontade de colocá-los em prática no Brasil-sil-sil-sil.

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