Correio Braziliense - 13 Set 2014 
VISÃO DO CORREIO - Editorial  

A piora da perspectiva de crédito do× Brasil, divulgada terça-feira pela× Moody's, cristalizou a impressão de que a política econômica do governo se confinou no próprio buraco que cavou. A recessão na indústria, o investimento produtivo engavetado e a grave desconfiança do mercado após o forte intervencionismo estatal e o persistente malabarismo fiscal deram argumentos de sobra para a agência norte-americana de classificação de risco ameaçar a nota brasileira de rebaixamento mais adiante.

Para o governo, a notícia não poderia vir em pior hora, a menos de um mês do primeiro turno da eleição na qual× Rousseff disputa o segundo mandato presidencial. O sinal externo ruim para a solvência do país não se traduz só na aposta de persistência do baixo crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) nos próximos anos, em razão de problemas estruturais. Ele sugere algo mais grave: a crescente cautela do capital internacional em relação a investir em títulos de dívidas de governo e de empresas brasileiras, o que pode conter o ingresso de dólares, acentuando as perdas da já debilitada conta externa do país. Mas o que se revela curioso nesse quadro inquietante é que o próprio× Palácio do Planalto já vinha agravando as próprias limitações, evidenciadas pelo pessimismo geral de empresários, analistas e consumidores. Pressionada pelo calendário eleitoral,× Dilma perdeu neste último ano de gestão o espaço de manobra que teria para adotar medidas corretivas e abrir espaços para o investimento privado, sobretudo em infraestrutura.

Sem recorrer a medidas fiscais para controlar a inflação, próxima do teto de 6,5% anuais da meta oficial de 4,5%, a chefe do× Executivo sucumbiu ao dilema imposto pela recessão técnica, aflorada no segundo trimestre, mantendo juros anuais básicos de 11%, pois reduzir a taxa alimentaria a escalada dos preços. Outro impasse: desvalorizar o real melhoraria os números da balança comercial, mas alimentaria o dragão da carestia. Restou apelar ao estímulo ao consumo, sustentáculo da expansão do PIB nos últimos anos e que se ressente com o endividamento das famílias e com outros indicadores ruins da economia.

Esse esforço derradeiro se contradiz com as promessas de austeridade e de controle inflacionário, além de render resultados pífios. Por fim, o governo deu tiros extras no pé ao insistir em maquiar as contas públicas. E ao reiterar a saída do ministro da Fazenda, Guido Mantega, em eventual segundo mandato, a presidente tentou conter o desânimo do mercado. Mas só conseguiu enfraquecer ainda mais a governança da economia.

As justificativas alegadas para as dificuldades da economia, como estiagem prolongada e mudanças no calendário durante a Copa do× Mundo, de nada serviram para mudar o mau humor em relação ao cenário. Com isso, os três principais aspirantes à Presidência assumiram postura de fiadores de um tempo de transições na economia.

Dilma promete equipe e alvos renovados; Aécio Neves (PSDB), a retomada da estabilidade monetária, da credibilidade do mercado e do crescimento sustentável; e Marina Silva (PSB) se coloca como a portadora dos anseios gerais de virada. O elo comum a todos é a percepção de que o eleitorado nacional, sobretudo o público mais escolarizado, deu sinais inequívocos de esgotamento com a atual governança econômica.
 

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