Merval Pereira 
O Globo - 03/10/2014
Em momentos tensos como os da reta final desta eleição presidencial, em que se disputa ainda quem vai para o segundo turno ou, no limite, se a disputa termina já no primeiro turno com a reeleição da presidente Dilma, as teorias da conspiração andam soltas e, junto com muitas desconfianças indevidas (se as urnas eletrônicas são seguras é uma pergunta muito comum nestes últimos dias), surgem ações, como a dos Correios a favor do PT , que justificam o alerta que está sendo dado.

A confissão do deputado petista de que "há o dedo" dos militantes petistas dos Correios na subida de intenção de votos da presidente Dilma em Minas é de uma clareza exemplar , e o presidente dos Correios, Wagner Pinheiro, ouvindo tudo aquilo calado, como se estivesse recebendo um elogio. No fundo, era um elogio mesmo o que o deputado estava fazendo.

O aparelhamento dos Correios pelo PT parece ter efeitos disseminados pelo país, prejudicando principalmente candidatos a deputado federal de outros partidos em diversos estados. O PSDB está recebendo informações de candidatos de outros partidos que também estão se considerando afetados por essa estranha falha seletiva dos Correios.

Fatores extracampo podem afetar o resultado da eleição, ainda mais quando a nossa Justiça Eleitoral, como todo o aparelho judicial, é lenta. Os repetidos casos de governadores que são cassados depois de exercerem a maior parte de seus mandatos não nos deixam mentir .

Aliás, caminhamos para uma grave crise institucional no próximo governo, seja qual for o eleito. O processo em curso da delação premiada do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e do doleiro Yousseff vai colocar no caminho da cadeia uma leva de políticos e autoridades que serão eleitos dentro de poucos dias. A acreditar nas palavras do ministro Teori Zavascki, são deputados, senadores e governadores que se locupletaram com as verbas da Petrobras.

Disse o ministro do Supremo Tribunal Federal, ao chancelar o acordo de delação premiada, que há nos depoimentos de Paulo Roberto indicações de "vantagens econômicas ilícitas oriundas dos cofres públicos" (...) "distribuídas entre diversos agentes públicos e particulares". Confirmando o noticiário que tem saído na imprensa, Zavascki disse que "(...) há elementos indicativos, a partir dos ter mos do depoimento, de possível envolvimento de vá ri as autoridades detentoras de prerrogativa de foro perante tribunais superiores, inclusive de parlamentares federais".

Além do STF , portanto, governadores que têm foro no Superior Tribunal de Justiça (STJ) estão na lista dos denunciados. Esse é um tema que continuará pautando os debates políticos nesta eleição e que pode afetar o resultado dela caso surjam novos vazamentos dos depoimentos.

Outro fato que pode afetar o resultado final da eleição, especialmente na definição de quem será o adversário da presidente Dilma no segundo turno, é a estrutura partidária, o que favorece o candidato tucano, Aécio Neves. Referindo-se à eleição de 1989, de que ele participou como um dos apoios políticos do então candidato Collor de Mello, o dirigente nacional do PTC Daniel Tourinho acha que a candidata do PSB, Marina Silva, em razão da fragilidade da sua estrutura partidária, deverá perder algo em torno de 4% dos votos no dia da eleição, e, em sentido inverso, o candidato do PSDB, com uma estrutura partidária muito mais capilarizada, deverá crescer cerca de 4%.

Ele lembra a eleição de 1989, quando, logo após a apuração do primeiro turno, a primeira pesquisa dava a Collor uma vantagem de 15 pontos percentuais frente a Lula. À véspera da eleição, porém, essa diferença estava reduzida a 1%. Ou seja, um quadro claro de ascensão de Lula e queda de Collor . Ao final da apuração dos votos do segundo turno, o resultado apontava a vitória de Collor com 5% de votos a mais do que Lula.

Para ele, a fragilidade da estrutura partidária da candidatura de Lula àquele tempo ante a que dava apoio a Collor fez a diferença.

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