O Globo - 05/10/2014 9:49
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Senhora,

Não tenho mais interesse na política brasileira. Só leio sobre a China. Perdi a curiosidade pelo seu governo quando a senhora, estando em Nova York, foi ao Metropolitan Museum perder tempo numa exposiçãozinha do pintor holandês Frans Hals. Podendo ficar só com o “Juízo Final” de Van Eyck, ou o “Juan de Pareja” de Velázquez, ocupou-se com um retratista de bêbados de bochechas vermelhas. O Hals é um daqueles pintores que a gente vê uma tela e viu todas. Com diz o Nelson Rodrigues, bonitinhos mas ordinários.

Escrevo-lhe para lembrar-lhe que as roubalheiras da Petrobras tomarão conta da agenda nacional. A senhora terá alguns meses ou quatro anos para cuidar dessa ferida. Durante o tucanato, quando eu disse que todos os diretores da Petrobras tinham conta na Suíça tomei um processo que azucrinou meus últimos dias de vida por aí. Dizer que eram todos foi um exagero. O tucanato nunca quis saber como diretores da Petrobras compravam casas nos melhores condomínios do Rio. Sabemo-lo. Numa contratação milionária, o cunhado de um magano visitou o empreiteiro 24 horas depois do fechamento do negócio. À época, coisa de US$ 1 milhão.

Conta na Suíça, como a senhora vê, o “amigo Paulinho” tem, com um saldo de US$ 24 milhões. Aprendi alguma coisa aqui onde estou. Não posso dar nomes nem cifras, mas façamos a conta. De onde saiu esse dinheiro? A primeira trilha, óbvia é a das grandes empreiteiras, mas elas estão em todas. Ofereço-lhe dois caminhos para exercitar sua curiosidade. Primeiro, negócios com ativos como campos de petróleo em Angola. Nesse mercado, uma comissão decente pode ficar em 5%, chegando a 10%. Não preciso dizer-lhe dona Isabel dos Santos, filha do presidente angolano é a mulher mais rica d’África. Sempre que a senhora ouvir a palavra “Angola”, pense em chamar a polícia. No segundo caminho ficam as compras de equipamentos. Tomemos o exemplo dos navios de produção de petróleo, os FPSO. Existem centenas. A Petrobras tem 40 e está construindo mais seis. Cada um vale US$ 1,3 bilhão. Numa tabela inspirada em Madre Teresa de Calcutá, cada um pode render 1% de comissão. Se deixar, vai a 3%. Com dois navios, a 1%, qualquer “Paulinho” amealharia US$ 26 milhões. Não se faz um negócio desses apenas com um amigo. Digamos que alguém borrifou 0,5% do contrato para baixo e outros 0,5% para cima. Será?

A senhora ou quem chegar ao segundo turno precisa prestar atenção ao que o presidente Xi Jinping faz na China. Ele sabe que não vai acabar com a roubalheira, mas sinalizou de forma drástica que sua mão pesada pode cair seletivamente em cima dos larápios. Primeiro ferrou o Bo Xilai, uma mistura de Paulo Maluf e Lula que se alinhava para mandar no país. Botou-o na cadeia. O Xi sabia que Bo era protegido pelo czar da Segurança Pública. (Lembre-se que esse mandarim vinha do setor petrolífero.) Ferrou-o. A senhora dirá que os órgãos competentes do seu Estado ferraram o “amigo Paulinho” e que aqui há uma democracia. A diferença persiste. Sua faxina não limpou sequer o quarto da empregada. A senhora condena os tais malfeitos, mas cala sobre os malfeitores. Está aí a ata da reunião do Conselho da Petrobras mostrando que seu ministro da Fazenda louvou os “relevantes serviços prestados à companhia” por Paulinho.

Daqui de onde estou, a gente vê com serenidade as coisas aí debaixo. Outro dia, a Lota Macedo Soares, a maluca beleza que criou o Aterro do Flamengo, lembrou-me que avisou ao Eike Batista para o risco que corria exibindo-se como o homem mais rico do Brasil. Lota advertiu-o para a urucubaca: os homens mais ricos da China e da Rússia acabaram na cadeia. Ele não lhe deu atenção, quebrou, e agora seus advogados temem que o Ministério Público queira colocá-lo na cadeia. Eu acho que algum procurador fará fama encarcerando-o numa sexta-feira sabendo que um habeas-corpus poderá soltá-lo na segunda. Onde estavam os negócios de Eike? Na Petrobras.

Marco, o sábio
O ex-vice presidente Marco Maciel é conhecido pela sua economia de palavras e pela valorização que dá ao óbvio: “As consequências sempre vêm depois”, costuma ensinar.
Com o sufoco de Marina em queda, e Aécio em alta, vale recordar uma conversa que ele teve com um marqueteiro às vésperas de uma eleição:
O marqueteiro: “A linha do nosso candidato está em ascensão, e a do nosso adversário, em queda.” Marco: “O senhor acha que a intersecção das duas linhas ocorrerá antes ou depois do dia da eleição?”

A cana está dura
Está no texto do documento com que o ministro Teori Zavascki homologou o acordo de colaboração do “amigo Paulinho” com a Viúva:
“Encontram-se atualmente em curso, segundo a petição, mais de 40 procedimentos investigatórios, no âmbito dos quais foram expedidos mandados de busca e apreensão, de condução coercitiva e de prisão”.
Tomara que disso resultem mais pulseiras eletrônicas em tornozelos “amigos”.

Outra ponta
Já colaboram com a Viúva, o comissário Paulinho, o operador financeiro Youssef e um de seus laranjas.
Se as coisas derem certo, entrará na fila algum diretor (ou ex-diretor) de grande empresa.

Tunga
Quem não paga os impostos ganha Refis, mas quem compra livros é tungado pela Receita Federal. Um infeliz comprou um dicionário da Universidade de Cambridge e foi tungado em R$ 27,46, ou US$ 11, pela Receita Federal.
Como a obra custou US$ 14,90, fica entendido que os impostecas cobraram uma alíquota de 70% na importação do livro. Pela lei, esses perigosos objetos estão livres de impostos.

Lei de Heitor Ferreira
Dentro de algumas horas serão conhecidos os resultados da eleição, começando a temporada de interpretações.
Para esse jogo, continua em vigor a lei de Heitor Ferreira, enunciada diante dos surpreendentes resultados de 1974, quando o MDB derrotou a ditadura. Ele era o secretário particular do presidente da República e explicou:
“Foi realizada uma eleição, e cada cidadão teve um voto. Eles foram contados, e o número de votos dados aos candidatos do MDB foi superior àquele dado aos candidatos do governo”.

Parolagem
A doutora Dilma disse no debate da TV Globo que é praxe no serviço público dar aos funcionários “o direito” de pedir demissão. Esse teria sido o caso do afastamento do “amigo Paulinho” da diretoria da Petrobras.
Se Paulinho tivesse o costume de chegar atrasado e descalço ao serviço, nada mais natural. O problema é que ele roubava, como confessou ao Ministério Público. O governo da doutora deu-lhe um direito que não tinha, comprou uma encrenca e não quer assumir a responsabilidade pelo ato que praticou.

A culpa do porteiro
O presidente da empresa de Correios, comissário Wagner Pinheiro, diz que o carteiro filmado distribuindo propaganda do PT não cometeu ilegalidade alguma.
Já os materiais de propaganda de outros partidos que não chegaram aos destinos, informa o doutor Wagner, perderam-se por culpa dos porteiros.
Deve ser. Afinal de contas, o escândalo do mensalão começou na ECT, mas até hoje não se descobriu a identidade do porteiro.

 

Comentários  
#1 Dalton C. Rocha 05-10-2014 15:59
O petróleo é dos árabes. E a Petrobrás é dos políticos e de seus funcionários.
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