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Categoria: Diversos
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 Por Elio Gaspari
O caso ensina como fazer amigos e influenciar pessoas para ganhar dinheiro mercadejando uma empresa falida.
NOSSO GUIA e a comissária Dilma Rousseff quiseram "salvar" a Varig. Produziram um caso clássico de malversação dos poderes do Estado. Deram ordens e conselhos, atropelaram procuradores e burocratas. Ao fim, ferraram-se a Viúva e a turma que estava no andar de baixo. Deu tudo errado para todo mundo, menos para meia dúzia de aventureiros. Em 2006, a Varig era a segunda companhia aérea do país. Devia R$ 7,9 bilhões na praça, metade disso à Viúva ou a empresas que vivem debaixo de sua saia. Não pagava o combustível, as prestações dos aviões, o INSS dos empregados e devia R$ 2,3 bilhões ao fundo de pensão de seus trabalhadores, o Aerus.

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Havia duas maneiras de olhar a questão. Na primeira, via-se uma concessionária de transportes públicos administrada por sucessões de salteadores ou incompetentes. Operava com um prejuízo de cerca de R$ 100 milhões mensais e tivera oito presidentes em cinco anos. Empregava 180 funcionários por avião, enquanto sua principal concorrente tinha 50. Fora ao ralo porque ao ralo atiraram-na.

Noutra perspectiva, não se deveria usar linguagem tão dura com a Varig. Era preciso olhá-la como um patrimônio nacional, com 61 aviões, 11 mil funcionários e 6.700 aposentados. Em 2005, transportara 13 milhões de passageiros. O caso demandaria visão estratégica e consciência social.

Valendo-se do patrimônio da Viúva, o governo pôs em campo um poderoso combinado: Casa Civil, BNDES, Procuradoria da Fazenda, Anac, Ministério da Defesa e, acima de todos, Lula. Parecia que vendiam a Varig, mas como a empresa virara lixo, o que se vendia era a concessão das linhas, uma propriedade do povo brasileiro.

Praticaram-se dezenas de mágicas financeiras, legais e burocráticas. Passados dois anos, os credores micaram. Micou também a Viúva, dona das linhas e das posições aeroportuárias concedidas à empresa. As rotas da Varig foram canibalizadas. Os aposentados, postos na chuva. Um comandante que contribuiu para receber R$ 6.500 mensais do Aerus, está obrigado a se contentar com R$ 870. Numa só canetada, foram demitidos 5.500 funcionários. Em dezembro de 2006, quando Lula posou para uma foto ao lado dos novos proprietários da Varig e de seus advogados, 9.000 pessoas haviam perdido seus empregos. Aconteceu exatamente o que se dizia querer evitar.

Micaram a Viúva e quem estava no andar de baixo. Nenhum dos responsáveis pela pilhagem da empresa perdeu uma gravata. Nenhum magano das tribos de consultores visigodos que se lançaram sobre o espólio da empresa foi convidado a devolver o que ganhou.

A farra favoreceu sobretudo os aventureiros que compraram a empresa. Pagaram US$ 24 milhões na entrada e receberam US$ 275 milhões na saída, oito meses depois. Um desses doutores, o "amigo Marco Audi" (nas palavras de Nosso Guia), diz que pagou US$ 5 milhões pelo serviços do advogado Roberto Teixeira, compadre e hospedeiro de Lula. O doutor nega que essa seja a quantia. Que se entendam.

Se o governo não tivesse feito nada, deixando o mercado se arrumar, o resultado teria sido semelhante para quem estava no andar de baixo. A visão estratégica e a consciência social serviram para dar alegria a quem estava no andar de cima. O caso vale um estudo paralelo: como fazer amigos, influenciar pessoas e ganhar dinheiro comprando e vendendo uma empresa falida.