Por Paulo Chagas
Caros amigos
Há muito não me permito acreditar no acaso. Não por que ele não exista, mas porque não lhe dou o crédito simplista de acidente, contingência ou casualidade, já que traz consigo, sempre, um ensinamento, uma informação ou, até mesmo, uma centelha para a meditação.
Foi assim que um “Bom Dia”!, dito no refeitório de um hotel de estrada, colocou-me em contato com o advogado Luiz Carlos Lopes Moreira, professor, ex candidato a governador do Rio Grande do Sul, oficial R2 de Cavalaria e criador de cavalos Árabes.

Mantivemos rápida, mas boa e simpática conversa sobre coisas comuns às nossas vidas, embora nunca antes nos tenhamos encontrado.

Finalizamos a prosa com uma troca de direções e com a sua gentileza de brindar-me com um livro de sua autoria, no qual consta sua proposta de governo para o estado gaúcho.

Luiz Carlos emoldurou a gentileza com o comentário de que iniciara mal sua campanha ao colocar a “boa política, a transparência e a ética” como os três primeiros parâmetros de sua proposta, afastando, assim, grande parte do apoio que julgava necessário e comprometido com a gestão da coisa pública. Nada de novo ou de extraordinário no Brasil da era pós-moral!

Reiniciando minha viagem, passei a ler a proposta do meu novo amigo para o honroso cargo de Governador dos Gaúchos.

Foi aí, exatamente à folha 8, que encontrei a negação do acaso, ao deparar-me com uma citação à qual, provavelmente, nunca teria acesso. Tratava-se de um trecho do livro “Diário de um Mago”, de Paulo Coelho, que transcrevo:

“O homem nunca pode parar de sonhar; o sonho é o alimento da alma, como a comida é o alimento do corpo. Muitas vezes, em nossa existência, vemos nossos sonhos desfeitos e nossos desejos frustrados, mas é preciso continuar sonhando, senão nossa alma morre.

O bom combate é aquele que travamos a pedido de nosso coração. É aquele que travamos em nome de nossos sonhos. E nós matamos nossos sonhos porque temos medo de combater o bom combate.

O primeiro sintoma de que estamos matando nossos sonhos é a falta de tempo. Aliás, as pessoas mais ocupadas são as que têm sempre tempo para tudo... (...) na verdade, elas tinham medo de combater o bom combate.

O segundo sintoma da morte de nossos sonhos são nossas certezas. Porque não queremos aceitar a vida como uma grande aventura a ser vivida, passamos a nos julgar sábios, justos e corretos no pouco que pedimos da existência. Olhamos para além das muralhas do nosso dia-dia, ouvimos o ruído de lanças que se quebram, o cheiro de suor e de pólvora, as grandes quedas e os olhares sedentos de conquista dos guerreiros. Mas nunca percebemos a alegria, a imensa alegria que está no coração de quem está lutando, porque para estes não importa nem a vitória nem a derrota, importa apenas combater o bom combate.

Finalmente, o terceiro sintoma da morte de nossos sonhos é a Paz. A vida passa a ser uma tarde de Domingo, sem nos pedir grandes coisas, e sem exigir mais do que queremos dar. Achamos então que estamos maduros, deixamos de lado as fantasias da infância, e conseguimos nossa realização pessoal e profissional. Mas na verdade, no íntimo de nosso coração, sabemos que o que aconteceu foi que renunciamos à luta por nossos sonhos, a combater o bom combate.

Certa vez um poeta disse que nenhum homem é uma ilha. Para combater o bom combate, precisamos de ajuda. Precisamos de amigos e, quando os amigos não estão por perto, temos que transformar a solidão em nossa principal arma. Tudo o que nos cerca precisa nos ajudar a dar os passos de que precisamos em direção ao nosso objetivo. Tudo tem que ser uma manifestação de nossa vontade de vencer o bom combate. Sem isso, sem percebermos que precisamos de todos e de tudo, seremos guerreiros arrogantes. E nossa arrogância nos derrotará no final, porque vamos estar de tal modo seguros de nós mesmos, que não vamos perceber as armadilhas do campo de batalha”. (Os grifos são meus)

Ao perceber a “lição do acaso”, lembrei-me de imediato do desafio que se impõe ao nosso futuro Comandante do Exército, meu amigo Gen Ex Eduardo Dias da Costa Villas Bôas, após os 12 anos em que a Força, disciplinadamente, tem aguardado uma mudança de atitude, já que, sem perceber, os Chefes que o antecederam não se deram conta de que, para que o combate que travaram fosse “o bom combate”, precisavam “de todos e de tudo”!

Sem querer e sem efetivamente sê-lo, tornaram-se “arrogantes” e, desapercebidamente, foram vítimas das “armadilhas do campo de batalha”.

Caro amigo Villas Bôas, compartilhando contigo a oportunidade do acaso, desejo-te sucesso e que continues a não temer o bom combate, que não permitas a morte de tua alma e que a alimentes com o mesmo sonho que fez com que nossos pais e os grandes Chefes Militares que com eles ombrearam arriscassem suas vidas e suas carreiras e, assim, nos legassem a democracia que hoje desfrutamos ao lado dos que contra ela nunca deixam de conspirar.

Desejo que teu coração se encha da alegria de quem ousa lutar pelo que sabe que é certo, que aceites o desafio, não da aventura, mas do risco inerente ao bom combate!

Desejo que nunca renuncies à luta por tuas convicções, que não te deixes violentar por promessas efêmeras ou pela falsidade castradora dos afagos dos hipócritas que estremecem só de pensar no “rugido do leão”(*) ou na “cólera das legiões”!

Desejo que nunca te permitas dispensar a ajuda dos amigos, do teu Alto Comando e de tudo e todos que querem e podem estar contigo. Que não percas a confiança nos que verdadeiramente querem o teu sucesso, porque dele depende o sucesso do Exército. E, finalmente, que a humildade que te define como um grande líder militar continue a manter à distância a arrogância que, além de deixar-te só, te cegará para as armadilhas que os falsários da verdade colocarão em teu caminho!

Com sinceridade e especial apreço,

Paulo Chagas

(*) A Fábula, de Jacornélio M. Gonzaga.

Comentários  
#4 Lopes 05-02-2015 15:19
“Uma sociedade de ovelhas costuma dar lugar a um estado de lobos”!
(José Manuel de Almeida 1785 - 1835)
É exatamente o que estamos vivendo, espero que este nosso CHEFE que ora assume o mais alto escalão do EB não nos decepcione como os de antes.
#3 paulo ricardo da roc 22-01-2015 16:45
Desejo que nunca renuncies à luta por tuas convicções, que não te deixes violentar por promessas efêmeras ou pela falsidade castradora dos afagos dos hipócritas que estremecem só de pensar no “rugido do leão”(*) ou na “cólera das legiões”!>
Há controvérsias. Os do "rugido do leão" construiriam esta frase assim: -"Desejo que nunca renuncies à luta por tuas convicções, que não te deixes violentar por promessas efêmeras ou pela falsidade castradora dos afagos dos "PASTORES DE OVELHAS" que estremecem só de pensar no “rugido do leão”(*) ou na “cólera das legiões”!
PRRPAIVA, CEL INF E EM
#2 MARAT 22-01-2015 11:33
Caro General Chagas:
"A PAZ QUEREMOS COM FERVOR,..." Porém, como diz a letra de outra música, PAZ sem voz não é PAZ é MEDO.
Se as pessoas de bem, os indignados, as vítimas, enfim, todos os que sofrem consequências deste governo nefasto, não tomarem os rumos de seus destinos, nada mudará.
#1 Mayrseu Bahia 22-01-2015 11:22
Desafio expresso, muito oportuno e estimulador, para alimentar as nossas esperanças debilitadas
ao longo do tempo.
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