Ao mudar de posição sobre a morte do procurador que a acusava, a presidente argentina sinaliza desespero diante de um crime que ameaça instituições e seu governo
EDITORIAL
O Globo - 23/01/2015 
 À medida que avançam as investigações sobre a morte do procurador especial argentino Alberto Nisman, mais o caso ganha contornos de uma trama policial de ficção. Nisman foi encontrado morto com um tiro na cabeça no banheiro de seu apartamento, às vésperas de formalizar no Congresso argentino denúncias contra a presidente Cristina Kirchner e o chanceler Héctor Timerman, acusando-os de conspirar para encobrir o envolvimento do Irã no atentado contra a Associação Mutual Israelita Argentina (Amia), em que morreram 85 pessoas e centenas ficaram feridas. Passados mais de 20 anos, o caso continua sem solução.

Em sua última entrevista, feita no programa “A Dos Voces”, do canal Todo Notícias, no último dia 14, Nisman, encarregado de investigar o caso, fez, com equilíbrio, duras acusações contra Cristina e Timerman, baseadas em escutas telefônicas e uma exaustiva investigação. O procurador garantiu ter provas contundentes para sustentar suas denúncias e afirmou ter sido ameaçado. E, de fato, a divulgação das transcrições dessas gravações revelam um longo histórico de encontros secretos entre autoridades argentinas e iranianas. Segundo Nisman, esses encontros tiveram o intuito de encobrir a participação iraniana no atentado contra a Amia, em troca de acordos comerciais.

Num primeiro momento, a morte do procurador foi tratada como um caso de suicídio, embora as ações e o temperamento de Nisnam não indicassem tal possibilidade. A ideia se sustentava em alguns elementos, como a arma encontrada ao lado do corpo, e no fato de o apartamento estar trancado por dentro. Como a perícia não encontrou resíduos de pólvora nas mãos de Nisman, especulou-se sobre uma encenação para sugerir suicídio. Especialistas, porém, disseram que armas de baixo calibre nem sempre deixam vestígios. Por outro lado, o chaveiro chamado para abrir o apartamento afirmou que, na verdade, uma das portas não estava trancada e, em seguida, voltou atrás, afirmando que havia duas fechaduras, uma delas trancada.

Chamam mais atenção do que a sucessão de versões que cercam o caso os contraditórios comentários de Cristina Kirchner. Após aderir à tese de suicídio, em texto postado em sua página no Facebook logo após a morte do procurador, a presidente argentina agora crê, com fé inabalável, que a morte de Nisman foi um assassinato realizado por inimigos do governo, que alimentaram o procurador com dados falsos, levando sua investigação a uma conclusão equivocada. A nova posição da presidente argentina, pegando de surpresa o próprio governo, traz sérias implicações como, por exemplo, jogar luz sobre a incompetência da cúpula de segurança encarregada de proteger Nisman. Mas trata-se igualmente de uma mudança de estratégia que evidencia desespero de Cristina K. diante de um evento que põe em questão instituições do país e seu próprio governo.
 

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