Para resgatar corpos, eles enfrentam abelhas, carrapatos, espinhos, calor...
Por Laura Diniz 

 
Eles fazem a barba. Na selva. Quando os homenzarrões da Força Aérea Brasileira (FAB) descem dos helicópteros na Fazenda Jarinã, em Peixoto de Azevedo (MT), depois de dois dias no mato, trabalhando no resgate dos corpos de vítimas da queda do Boeing 737-800 da Gol, nem parece que a mochila nas costas pesa 20 quilos, que estão arranhados por espinhos, foram picados diversas vezes por abelhas, têm carrapato nas pernas, tiveram comida racionada, tomaram pouca água e fizeram muita, muita força. Assim são os integrantes do Para-Sar - 'Para' de pára-quedistas; 'Sar' do inglês Search and Rescue (busca e salvamento) -, também chamado Esquadrão Aeroterrestre de Salvamento.

 
"Para que outros possam sobreviver" é o lema no boné laranja, marca registrada dessa tropa de elite, orgulho da FAB. No resgate das vítimas do maior acidente aéreo da história do Brasil, eles também enfrentam dificuldades singulares na história do esquadrão.

O dia dos cerca de 90 integrantes do Para-Sar na Fazenda Jarinã começa cedo. Por volta de 5 horas, tomam café. Às 6 horas, já se posicionam no campo de futebol que virou pista para helicópteros. Vão para a mata em pequenos grupos. Alguns chegam à clareira onde os helicópteros conseguem pousar. Outros descem de rapel ou guincho em locais mais distantes.
No início da operação, andavam em grupos de quatro ou cinco pessoas, procurando corpos e pedaços do avião. Depois, os grupos passaram a ser maiores, cerca de oito, para trazer os corpos. 'O primeiro é o esclarecedor, que vai com o facão, abrindo o caminho. O segundo fica de olho na bússola e os outros, olho no terreno', explicou o comandante do Para-Sar, tenente-coronel Josbecasi Moreira Lima. Eles medem o espaço percorrido contando os passos. A cada 100 metros, um deles dá um nó numa cordinha pendurada no cinto do uniforme.
Além de extremamente fechada, a mata é abafada e úmida. De sábado para domingo, na pressão para abrir a clareira com facões, enxadas e moto serras, alguns militares tiveram princípio de desidratação e cãibras. Até agora, ninguém se machucou. Segundo Lima, em uma hora, os soldados andam quatro quilômetros numa estrada limpa, um quilômetro na selva, 500 metros na Reserva do Xingu, onde estão os corpos, e 200 metros no local do acidente, quando chove.
A vida dos soldados é infernizada por vespas e marimbondos. Eles usam fita crepe nos punhos para manter o uniforme vedado e tela protetora na cabeça. Quando se cortam nos espinhos, os militares usam um spray antiinflamatório. Entram na mata só depois de passar Vick Vaporub no nariz, porque o odor dos corpos em decomposição é muito forte. O efeito só dura uma hora. Quem tem contato com os corpos usa luvas no braço todo, amarradas nas costas, para não escorregar, porque suam muito.
No começo da semana, iam para o mato sem data para voltar. Agora, como a logística de procura e retirada de corpos, vão pela manhã e tentam voltar ao entardecer. Mesmo assim, levam tudo, caso tenham que pernoitar. A mochila tem rede (com tela e capa para proteger de mosquitos e da chuva), saco de dormir, muda de roupas, ração, panelinha, kits médico, de sobrevivência (anzol, linha canivete, fósforo, lanterna etc.), de higiene pessoal e de limpeza do armamento, banquinho de alumínio e corda de 5 metros. No uniforme, além das armas, carregam bússola, munição e kit para fazer fogo. A ração tem 2 mil calorias, o que permite passar até 30 horas na floresta. O kit contém pó de café, torrada, geléia, jujuba, uva passa, macarrão e sopa. Levam água desmineralizada e pílulas para esterilizar água captada no mato.
Um militar do Para-Sar ouvido pelo Estado diz que, durante a missão, pensa nas famílias das vítimas. 'Todo mundo gosta do conforto da cidade grande, mas o meu desconforto lá embaixo é muito menor que o das famílias', afirmou. 
 
 Soldados aprendem rapel, escalada e mergulho
 
No Para-Sar soldado barrigudo não tem vez. "Já pensou alguém ver um e pensar: 'Aquele cara ali que vai fazer o resgate?'", disse, em tom de brincadeira o comandante do esquadrão, tenente-coronel Josbecasi Moreira Lima. Preparo físico para os militares do Para-Sar é essencial. Periodicamente, treinam descer de helicópteros em rapel e guincho. Enquanto outros militares correm 2 km em 12 minutos, de short e camiseta, os soldados de elite da FAB correm 5 km em 25 minutos, de calça e bota. Nadam fardados, como fariam na selva ou no mar - às vezes de mochila.
O esquadrão, que nasceu esquadrilha em 1963 e encorpou 10 anos depois, é sediado no Rio e tem 120 homens efetivos, com idade média de 35 anos. Para ser do Para-Sar, é preciso ser militar de carreira aprovado em testes físicos e psicológicos, bem como receber boa avaliação de sua trajetória profissional. O primeiro curso é o de busca e salvamento (Sar). Aprendem-se noções de socorro pré-hospitalar, como imobilização de fraturas e ressuscitamento; resgate com escalada para trazer vítimas de montanhas; salvamento no mar descendo pelo guincho do helicóptero; e sobrevivência na selva.
O Brasil têm sete equipes Sar: Manaus (AM), Recife (PE), Santos (SP), Rio de Janeiro (RJ), Santa Maria (RS), Campo Grande (MS) e Belém (PA). Além disso, muitos militares fazem o curso e voltam a suas unidades. Para ser do grupo de elite, o soldado aprende a saltar de pára-quedas e a fazer mergulho autônomo. O Para-Sar não tem aviões nem helicópteros. O grupo é levado por outros esquadrões aos locais onde precisa agir.
Comentários  
#4 DR MILTON CAP REFOEB 16-08-2015 23:01
São heróis anômalos!
#3 tiago haran 10-04-2014 03:15
Parabéns vcs são orgulho da nossa nação,verdadeir os guerreiros de fé,que arriscam suas vidas para salvar outras!!!
#2 Carlos Rocha 13-03-2014 17:59
Parabéns ao esquadrão para-sar pela coragem e determinação em salvar vitimas ou buscar para os familiares os corpos de seus entes queridos. vocês são verdadeiros "anjos da vida mas bravo que o mar"
#1 Eduardo H.S.DOlivier 03-12-2013 00:10
Raça de Guerreiros!
O corpo que não vibra é como um esqueleto que se arrasta!
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