Sérgio Pinto Monteiro*
Manhã de 30 de março de 1964. Há exatamente cinquenta e um anos, um jovem universitário, tenente R/2 do exército brasileiro, se apresentava como voluntário para a defesa do Palácio Guanabara, sede do governo estadual.
Em tempos da guerra fria, o presidente João Belchior Marques Goulart, insuflado por setores expressivos da esquerda brasileira, deixava-se seduzir pela ideia de implantar no Brasil uma república sindicalista totalitária e, em seguida, evoluir para o modelo cubano-soviético. Hoje, a farta documentação existente, não somente confirma como, praticamente, esgota o assunto. Além do que, vários líderes do próprio movimento já admitiram, explicitamente, tal objetivo.

> O recém-criado Estado da Guanabara, governado por Carlos Frederico Werneck de Lacerda, opositor ferrenho do governo do presidente Jango, era uma constante preocupação para a esquerda revolucionária. Orador inflamado, grande administrador, Lacerda era um dos mais importantes líderes da resistência democrática brasileira contra o avanço do totalitarismo que ameaçava levar o nosso país para bloco soviético.

O plano de defesa do Palácio Guanabara começou a se delinear ainda no segundo semestre de 1963. O cenário político de então já mostrava, claramente, a disposição do governo federal em retaliar o Estado da Guanabara por sua oposição radical ao sistema dominante. O governador Lacerda, ao lado de importantes lideranças civis e militares, defendia, ostensivamente, a queda do presidente João Goulart. Odiado pela esquerda brasileira, principalmente pelos comunistas, Lacerda - que na sua juventude renegara o marxismo-leninismo - sabia dos riscos a que o seu governo estava exposto numa situação de confronto com o presidente Jango, especialmente se houvesse o envolvimento das Forças Armadas. Valendo-se da antiga amizade desenvolvida com um grupo de oficiais da Força Aérea Brasileira quando do episódio do atentado que, em 1954, vitimou o Major Aviador Rubens Florentino Vaz, no qual ele próprio foi também atingido, o governador Lacerda nomeou para Secretário de Segurança do Estado o Coronel Aviador Gustavo Eugênio de Oliveira Borges, e incumbiu-o de elaborar um plano de segurança e defesa para a sede do governo estadual, no Palácio Guanabara.

No documento, de 1963, foram priorizados investimentos em três setores dos organismos policiais do Estado: comunicações (em especial via rádio), transportes (inclusive viaturas do tipo “choque”) e armamento (especialmente metralhadoras).

Com o agravamento da situação nacional, onde greves intermináveis, orquestradas pelo movimento sindical, infernizavam a vida da população, o presidente Jango, apoiado pelos políticos esquerdistas, pregava, ostensivamente, as chamadas “reformas de base” que nada mais significavam do que o rompimento com as estruturas jurídico-institucionais do país.

As forças armadas, por sua vez, eram atingidas em cheio por ações que visavam enfraquecê-las nos seus pilares fundamentais: hierarquia e disciplina. Praças incentivadas e se rebelarem contra as ordens dos oficiais. Na Marinha, onde a situação era mais grave, um grupo de marinheiros apoiados por fuzileiros navais comandados pelo Almirante Cândido da Costa Aragão foram protagonistas de um triste episódio de desordem e quebra de hierarquia, somente controlado por forças do Exército. Na ocasião, o governador Lacerda fez violentos pronunciamentos em defesa da honra da Marinha e contra as atitudes daqueles militares. Temia-se uma ação violenta do Alte Aragão contra a sede do governo do Estado.

Na tarde do dia 30 de março, o dispositivo de defesa da sede do governo estadual estava acionado. Em cinco linhas de defesa, a partir do hotel Glória, a polícia militar (com vários batalhões), e as polícias civil e de vigilância, reforçadas por centenas de voluntários armados (comandados pelos Coronéis Burnier - FAB - e Martinelli - Exército), se preparavam para enfrentar um ataque dos fuzileiros navais do Alte Aragão, cujas tropas avançadas, acompanhadas discretamente por patrulhinhas da Polícia Militar, começavam, nos primeiros minutos da madrugada de 31 de março, o deslocamento da Ilha do Governador em direção ao Palácio Guanabara.

Ao mesmo tempo, chegavam as primeiras notícias de que o comandante da 4ª Região Militar, General Olímpio Mourão Filho e o governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto, se declaravam rebelados, não mais obedecendo ao poder central. Era o desencadeamento da Operação Popeye, planejada de há muito pelo Gen Mourão. Em consequência, estava formado o “Destacamento Tiradentes”, com tropas do Exército e da Polícia Militar do Estado de Minas Gerais, que marchava para o Rio de Janeiro, sob o comando do General Antonio Carlos da Silva Murici.

A partir daí, todos conhecemos o desfecho e as consequências do Movimento Civil-Militar de 1964. Os fuzileiros navais do Alte Aragão retornaram aos quartéis e para felicidade dos cariocas - e dos brasileiros - não houve o confronto que mancharia a nossa história militar.

Como partícipe daquele dispositivo militar montado para rechaçar um eventual - mas esperado - ataque à sede do governo estadual, descrevi, sumariamente, uma pequena parte do que a minha memória reteve, tanto tempo já decorrido. O objetivo maior deste texto é a preservação da história de um importante episódio daqueles dias, onde se misturaram emoções, patriotismo, desprendimento, coragem, solidariedade, lealdade e companheirismo. E cada vez maior, a minha inabalável convicção de cumprimento do dever.

Há 51 anos, a nação esteve muito próxima de ser lançada numa aventura socialista, decadente e totalitária. O Movimento Revolucionário de 1964, deflagrado com o apoio da esmagadora maioria da população brasileira - é inegável, basta consultar o noticiário da época - proporcionou ao país um período de comprovado desenvolvimento econômico e nos conduziu à normalidade democrática dos dias atuais, onde não deveria haver mais espaço para sectários, revanchistas ou revolucionários de plantão. Tentar reescrever a História daqueles dias ao arrepio da verdade, além de impatriótico, é missão impossível. O passado é inexorável e sua história é definitiva. Ao reverso do amanhã, que depende fundamentalmente das nossas ações. A nação espera que seus líderes e governantes, de todos os matizes, inspirados nas lições do passado, mantenham os olhos voltados para um futuro de progresso, democracia e paz.

*o autor é professor e oficial da reserva não remunerada do Exército Brasileiro. É presidente do Conselho Nacional de Oficiais da Reserva e vice-presidente do Conselho Deliberativo da Associação Nacional dos Veteranos da FEB. É membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil e da Academia Brasileira de Defesa. O artigo é pessoal e não necessariamente reflete as posições das instituições mencionadas.

 

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