Enquanto várias nações e potências se articulam por meio de acordos bilaterais e blocos estratégicos, país permanece preso ao emperrado Mercosul por vício ideológico
Editorial
O Globo - 21/04/2015 
Um acordo no Congresso americano anunciado na semana passada colocou os EUA mais perto do que poderá se configurar no maior bloco comercial do planeta. Trata-se da Parceria Transpacífica (TPP, na sigla em inglês), que reúne 11 países da Ásia e das Américas, cerca de 40% do PIB mundial e quase 800 milhões de consumidores. Republicanos e democratas chegaram a um consenso para autorizar o presidente Barack Obama a concluir as negociações pelo sistema fast-track, isto é, sem possibilidade de emendas do Legislativo, que terá que aprovar ou rejeitar em bloco o projeto.

Se por um lado, a medida é estratégica para o governo americano, que tenta conter o avanço da influência chinesa — cujo sinal de vigor mais recente está na adesão de economias europeias ao Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB) —, por outro, ela ilumina velhos equívocos da política de comércio externo do Brasil. Tangido por interesses ideológicos que remontam aos tempos da Guerra Fria, o governo do PT resiste a firmar acordos bilaterais vantajosos, que poderiam integrar o país a regiões comercialmente importantes e ajudar nossa indústria, já fortemente afetada pela queda dos preços das commodities, baixo crescimento, tributações exorbitantes e os erros da política econômica do governo.

Em vez disso, o Brasil insiste no Mercosul como principal via de seu comércio externo. E justamente num momento em que o bloco sul-americano se isola cada vez mais, abatido por crises internas — como o calote argentino e a crise econômica e política venezuelana — que dificultam as conversações em andamento, sobretudo com a UE.

Quando Colômbia, Chile, Peru e México anunciaram a criação da Aliança do Pacífico, o governo brasileiro reagiu prometendo refundar o Mercosul, para integrá-lo ao processo crescente de acordo multilaterais. Até agora, porém, os países do bloco mal conseguiram resolver problemas internos, querelas tarifárias e desentendimentos gerados pela adoção de medidas protecionistas de suas indústrias, como é o caso das alíquotas argentinas impostas a produtos brasileiros.

Enquanto o país fica para trás, ancorado no Mercosul, o mundo vê surgir inúmeras iniciativas de acordos comerciais, bilaterais e multilaterais, como alternativa às negociações no âmbito da Organização Mundial do Comércio. Questões como serviços, investimentos, convênios tecnológicos e propriedade intelectual, que emperraram na OMC, ganham nova possibilidade por meio dessas negociações, mais diretas e simples. Blocos de vários tamanhos e importância se formam e dão a seus membros ganhos de produtividade e competitividade. Os exemplos são muitos, assim como as vantagens. O Brasil, porém, continua preferindo se manter à margem.

 

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