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Categoria: Diversos
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 Memória -  jornada das foices II
Porto Alegre - Praça da Matriz - 08 Agosto 1990
De cabo a mártir
"Aqui tombou um herói brigadiano em
defesa da sociedade gaúcha."

Por Marcelo Gonzatto

Defesa @ Net - Passados 18 anos da Batalha da Praça Matriz e da degola do PM Valdeci de Abreu Lopes, o assunto merece ser analisado. Em especial por um participante agora em alto posto federal que particpou da farsa de maquiagem e esconder o assassino.

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A partir de hoje, quem cruzar pelas proximidades da mais famosa esquina gaúcha vai ler essas palavras em uma placa instalada no coração de Porto Alegre, como homenagem ao cabo Valdeci de Abreu Lopes - vitimado por um golpe de foice durante enfrentamento com colonos sem-terra há 18 anos.

A autorização para assentar a pedra, com 1m20cm de altura, e uma placa de inox no Centro foi concedida ontem, no segundo dia de reuniões do Conselho Municipal do Patrimônio Histórico Cultural para avaliar a proposta da BM. Na quarta-feira, ao ouvir as razões do projeto do comandante da corporação, Paulo Roberto Mendes, os conselheiros pediram mais tempo. O impasse era o tombamento da Esquina Democrática pelo patrimônio histórico, o que impediria alterações físicas no no cruzamento das avenidas Borges de Medeiros e Andradas.

A placa de homenagem ao cabo Valdeci de Abreu Lopes — vitimado por um golpe de foice durante enfrentamento com colonos sem-terra há 18 anos — foi descerrada por volta das 11h30min desta sexta-feira na esquina democrática, no cruzamento das avenidas Borges de Medeiros e Andradas, em Porto Alegre.

"Aqui tombou um herói brigadiano em defesa da sociedade gaúcha", diz a placa.

A cerimônia, que se estendeu por quase uma hora, causou congestionamento no Centro, pois as ruas próximas ao evento tiveram de ser bloqueadas.

Ontem, diante de uma centena de militares, 15 dos 17 conselheiros estavam presentes e votaram a favor da homenagem. A aprovação saiu após a BM aceitar a condição de deslocar o monumento cerca de 30 metros para cima do ponto zero da Esquina Democrática, preservando o ponto histórico.

A cerimônia de descerramento da placa ocorrerá às 11h30min de hoje - para coincidir com o momento em que o então soldado, promovido postumamente a cabo, foi degolado por uma foice em 8 de agosto de 1990.

Apesar da garantia da BM de que o monumento não tem intenção de reabrir antigas feridas, pessoas ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra criticam a iniciativa. Para o deputado estadual Dionilso Marcon (PT), a placa é uma provocação:

- Se somar os mortos, temos muito mais gente do que o Valdeci. Mendes faz isso para cutucar o movimento. Apesar disso, não acredito que vá aumentar a tensão com a Brigada.

Mendes reafirma que o significado da placa é de estimular a paz:

- Aquele triste fato deve significar um não a qualquer tipo de violência. Essa é a idéia do monumento.

O conflito
- Há 18 anos, o centro de Porto Alegre se transformou em campo de guerra, quando policiais militares e sem-terra se enfrentaram com tiros de festim, gás lacrimogêneo, foices e pedras.
- O conflito, que se prolongou por oito horas, resultou em 72 feridos e um morto - o PM Valdeci de Abreu Lopes, então com 27 anos.
- O cenário trágico começou a se desenhar ainda na madrugada, quando cerca de 400 colonos se instalaram na Praça da Matriz, diante do Palácio Piratini.
- No fim da manhã, quando representantes dos sem-terra, deputados e secretários acertavam uma saída pacífica, estourou a batalha campal
- O estoque de sangue no Hospital de Pronto Socorro, para onde iam as dezenas de vítimas do enfrentamento, ficou com o estoque zerado.
- O incidente mais grave ocorreria por volta das 11h30min na Esquina Democrática, cruzamento das avenidas Borges de Medeiros e Andradas. Ali, Valdeci acabou cercado por manifestantes e teve a garganta cortada.
- Seis integrantes do movimento sem-terra foram condenados como co-autores do assassinato.
- Valdeci já tem uma homenagem na Capital - uma obra de arte que leva seu nome, instalada em um canteiro da Rua Silva Só.
zerohora.com
Em slideshow, veja fotos da época sobre o conflito no Centro, comentadas pelo fotógrafo Ronaldo Bernardi