BRASÍLIA E BUENOS AIRES - O Globo - Com aeroportos fechados por opositores, presidente da Bolívia foi de novo impedido de transitar em parte do país
A operação de resgate do presidente boliviano Evo Morales em território brasileiro mobilizou o alto comando das Forças Armadas, em Brasília, entre a tarde e a noite de quarta-feira. Mais uma vez impedido de visitar uma região opositora do país, Morales se viu praticamente refém de manifestantes, que fecharam os três aeroportos mais próximos a Cachuelo Esperanza, no departamento de Beni - fronteira com o Brasil - que visitava para assinar um contrato de construção de uma hidrelétrica. Sem ter como retornar a La Paz, o presidente foi obrigado a pedir ajuda ao Brasil.

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Por volta das 18h de quarta-feira, o comandante do Exército, general Enzo Martins Peri, levou as primeiras informações sobre a crise ao ministro da Defesa, Nelson Jobim. O Exército atendeu ao pedido do governo boliviano e autorizou o pouso de um avião militar King Air na base de Guajará-Mirim, em Rondônia. Com o sinal verde, os agentes que acompanhavam Morales em Cachuelo Esperanza conduziram o presidente até o Rio Mamoré, na fronteira entre os dois países. De lá, a comitiva seguiu numa embarcação militar até Guajará-Mirim. O Exército providenciou a iluminação da pista para permitir a decolagem do bimotor boliviano rumo a La Paz.

 

Presidente convoca referendo sobre nova Carta

O Estado-Maior boliviano acionou o Exército brasileiro depois de ser informado de que os três aeroportos mais próximos a Cachuelo Esperanza haviam sido ocupados por militantes da União Juvenil de Beni, uma entidade estudantil que apoiou a revogação do mandato do presidente no referendo do dia 10.

Os protestos contra Morales se intensificaram desde a sua vitória no referendo revogatório. As manifestações têm se concentrado na região da Meia Lua, que reúne os departamentos rebeldes de Santa Cruz, Beni, Pando e Tarija. Em agosto, durante a campanha pelo referendo, Morales já havia sido impedido de descer em Santa Cruz e também teve que cancelar um encontro com os presidentes da Venezuela, Hugo Chávez, e da Argentina, Cristina Kirchner, em Tarija por causa das manifestações. Dias antes, o carro do ministro da Presidência, Juan Ramón Quintana, sofrera um atentando.

Segundo a imprensa local, o helicóptero que levou Evo Morales para Cachuelo Esperanza não poderia retornar para La Paz por falta de combustível. Quando tentou pousar em Guayaramerín para reabastecer, foi atacado com pedras. O presidente ficou no helicóptero enquanto os militares asseguravam sua segurança. Somente à noite, Morales foi para um posto da Marinha boliviana e levado de barco ao Brasil.

O governo do presidente boliviano tentou minimizar ontem o incidente. Segundo assessores do ministro dos Hidrocarbonetos, Carlos Villegas, o aeroporto de Guayaramerín não foi utilizado por problemas de infra-estrutura, e não por protestos.

- O presidente se reuniu com muitas pessoas em Cachuela Esperanza e acabou saindo de lá muito tarde. O problema é que a pista do aeroporto não tem luz e, por isso, fomos obrigados a pedir ajuda ao Brasil - comentou uma fonte do Ministério dos Hidrocarbonetos.

Após voltar a La Paz, Morales convocou para o dia 7 de dezembro o referendo para a aprovação da nova Constituição. Os governadores opositores, no entanto, já disseram que não vão permitir que o pleito seja realizado em suas regiões. Morales também está enfrentando a revolta da imprensa, indignada com as declarações do presidente que, antes de viajar para Beni, chamou jornalistas de "sujos e corruptos, por se venderem aos interesses de empresários e políticos". As declarações de Evo Morales foram feitas em Cochabamba.

Em sua coluna no "La Razón", o jornalista Humberto Vacaflor, presidente da Associação de Jornalistas de La Paz, chamou Morales de narcotraficante, por "enviar pasta de coca para Hugo Chávez." A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) também protestou, afirmando em nota que "ofensas contra jornalistas não contribuem para a manutenção da sociedade democrática."

COLABOROU: Janaína Figueiredo, de Buenos Aires

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