No saudoso sítio, o petróleo minava atrás do galinheiro...

Por Jarbas Passarinho

Em 1965, os brasileiros ouviram empolgados, pelo rádio, em cadeia nacional, a entusiástica palavra do general Juarez Távora, chefe da Casa Militar da Presidência da República, anunciando a descoberta de petróleo em Nova Olinda, no Amazonas. Dizia ele que a produtividade dos poços era maior que a dos venezuelanos. A pátria estava em festa. A Petrobras contratou para dirigir a exploração o geólogo americano Walter Link, um dos cinco mais conceituados profissionais no mundo.

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Em 1957, fui servir na Petrobras, missão de interesse do Exército. Passei na empresa três dos anos mais fascinantes de minha vida. Vi desmoronar nosso sonho com Nova Olinda. Seis poços foram perfurados, produzindo petróleo de um pequeno corpo lenticular de areia, um pequeno reservatório logo esgotado. Acompanhei a pesquisa nas rochas sedimentares do Maranhão ao Acre, na maioria paleozóicas. Vultosos investimentos aplicaram-se em sísmica, geologia e gravimetria, preparatórios da locação de poços a perfurar. Cobrimos 1 milhão de rochas sedimentares, até chegar às orlas do mar, sem achar petróleo numa região mitológica, onde se dizia ter mais petróleo que água no Rio Moa, no Acre.

Terminou o contrato com Link, sem que se achasse petróleo. A estatal francesa o substituiu, sem resultado. Em 1963, vieram os soviéticos. Revisaram tudo. Novas perfurações secas. Não perderam, todavia, a viagem. Venderam-nos possantes, mas inúteis e caras sondas de maior capacidade de perfuração e se foram. Anos se passaram com a exploração terrestre com resultado modesto, até que a Petrobras, evoluída a tecnologia de perfuração, passou à exploração de petróleo no mar, até 200 milhas da plataforma continental, cuja soberania devemos à determinação do presidente Médici.

No início dos anos 1960, perfurou-se o primeiro poço na plataforma continental brasileira. Em pouco tempo, surpreendentemente a sonda encontrou massa salina. Já estava a Petrobras no pré-sal, sem saber. O poço foi abandonado porque “não estávamos preparados para a exploração em áreas com tectônica halocinética”, disse a Petrobras. A exploração no mar chegou a resultados excelentes, quando começou a exploração na Bacia de Campos.

Em 1984, a descoberta do campo gigante de Albacora, e logo em 1985 o supergigante Marlim, tudo durante o ciclo militar. Fase épica do desenvolvimento dos campos da Bacia de Campos, próximo da auto-suficiência sustentável, que dependia de aumentar a produção de plataformas maiores, só fabricáveis no exterior. Já feita a licitação, Lula, eleito, a cancelou, porque “estaríamos tirando emprego de brasileiros para dá-los a Cingapura”. Ato de nacionalismo delirante, pois nossa indústria naval não podia construir a superplataforma. Não por nos faltar capacidade técnica, mas porque não temos estaleiros com dimensão necessária, segundo testemunho do presidente da OIP.

Uma simulação da plataforma indispensável, pouco maior que as que tínhamos, anos depois foi saudada como tendo sido a construção no Brasil. Mas se tratou de montagem. A auto-suficiência — festejada com estardalhaço — proporcionou equilíbrio instável entre consumo e produção e logo mostrou isso. O presidente da Petrobras advertiu, em plena comemoração demagógica, que a auto-suficiência sustentada dependia da aquisição de plataformas construídas no estrangeiro. Advertiu, mas calou-se, dócil subordinado. Não demorou e a pesquisa sísmica, há anos sendo feita, ainda na Bacia de Campos, localizou enormes jazidas abaixo da camada de sal, que se estende contínua até a Bacia de Santos.

O campo Jubarte, na Bacia de Santos, no Espírito Santo, levou dois anos para produzir o show, na linguagem petrolífera, como se deu em Nova Olinda. A garantia da produção do Jubarte, no entanto, parece assegurada, aliada ao aperfeiçoamento da tecnologia de perfuração no sal, uma barreira de 1km de espessura. Tem a considerável vantagem em relação a Tupi e franjas, onde o sal é o dobro e a profundidade é de quilômetros a mais — está a 300km da costa. Afastada a hipótese de problemas técnicos posteriores, geólogos e geofísicos de alta credibilidade prevêem que a produção do pré-sal será concretizada na altura do ano 2015.

Agora Lula manda comprar no exterior plataformas que vão “dar empregos a Cingapura”. Ignora o esforço histórico da Petrobras, que achou as jazidas gigantescas e quer apartar dela o pré-sal em favor de uma empresa estatal onde ele empregue a renda do petróleo conforme seus interesses políticos.

Se não mudarem a Constituição e Lula vencer em 2010 e reeleito em 2014, estará fazendo a festa por antecipação. Por ora é como diz o provérbio popular: o bolo não é para quem o faz, mas para quem o come. Indevido, porém, é o nacionalismo exacerbado de ligar a saga do petróleo a Monteiro Lobato. Escritor admirado, sua contribuição, quanto a petróleo, foi polêmica e indevida. Cita-lhe a ministra Dilma, de um livro infanto-juvenil, O Sítio do Pica-Pau Amarelo, esta frase: “Achamos petróleo atrás do galinheiro”. Como no pré-sal está o petróleo, achado em Jubarte, quem seria o galinheiro da imagem metafórica da ministra?
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