Por Altino Machado às 9:02 am

Homens do Exército brasileiro ocuparam durante a noite de quinta-feira as cabeceiras das pontes das cidades de Epitaciolândia e Brasiléia, no Acre, que dão acesso à Cobija, capital do departamento de Pando, na Bolívia, onde vigora estado de sítio há mais de uma semana. Pelo menos 17 pessoas morreram no dia 11 em Pando numa chacina supostamente executada a mando do governador de Pando, Leopoldo Fernándes, preso desde a terça-feira pelo governo boliviano sob a acusação de ter contrariado o estado de sítio. Sgundo a Federación Sindical Única de Trabajadores Campesinos de Pando, existem 106 pessoas desaparecidas

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Dez dias após o auge do tensionamento na fronteira, dois oficiais que se deslocaram  para posicionar 10 homens armados nas duas pontes, disseram que não estavam autorizados a prestar qualquer esclarecimento sobre a operação. Eles assumiram as posições que eram ocupadas por  homens da Polícia Militar do Acre, responsáveis pela segurança na ponte Wilson Pinheiro, em Brasiléia, e na de Epitacilânida, onde funcionava um posto de fiscalização da Receita Federal.

Na quarta-feira, a Receita Federal suspendeu o serviços de alfandegário do posto de fiscalização da fronteira. A suspensão da fiscalização foi ordenada pelo superintendente da 2ª Região Fiscal, José Tostes Neto, sob a alegação de que o conflito em Cobija provocava insegurança no posto.

Várias lojas foram saqueadas e incendiadas na Zona Franca de Cobija na semana passada, o que afugentou  a maioria dos turistas brasileiros que costumam adquirir produtos importados, principalmente eletrônicos e de informática. Porém, algumas lojas voltaram a funcionar e os poucos brasileiros que  aparecem atravessam a fronteira de volta ao Brasil sem ter a quem declarar as compras.

A assessoria da Receita Federal do Acre havia informado que a suspensão vai vigorar até a data em que se restabeleçam as condições de segurança indispensáveis ao funcionamento do posto. A Receita Federal informou que durante esse período a entrada de mercadorias compradas na Bolívia está proibida, embora há dois dois dias não haja ninguém para cumprir a proibição.

Bolivianos que saquearam lojas em Cobija têm atravessado a fronteira para oferecer mercadorias aos brasileiros. Na praça central de Brasiléia um jovem exibia um notebook Asus que foi saqueado de uma das maiores lojas importadoras de Cobija. Ele pagou R$ 50,00 pelo equipamento.

 ONU já atende refugiados

Um pequeno grupo de bolivianos refugiados em Brasiléia por causa do medo de se tornarem vítimas de alguma represálias por parte do Exército boliviano que dominam Cobija reuniu na noite de ontem, em plena praça da cidade, com Tânia Maia (vestida de preto), funcionária em Brasília do Ancur (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados).

- Nós estamos aqui para observar e relatar as nossas impressões ao escritório em Brasília para que ele possa decidir o que fazer caso haja necessidade de apoiar algum pedido do governo brasileiro - disse Tânia Maia.

Já existem mais de 400 bolivianos cadastrados pelo governo estadual. Parte deles está em abrigos, mas outro tanto está na casa de familiares em Epitaciolândia e Brasiléia ou na fazenda de amigos na região.

O cônsul boliviano em Brasiléia, José Luis Mendes Chaurara, disse que foi procurado ontem por um deputado boliviano para apoiar a viúva de um engenheiro que foi assassinado pelo camponeses no dia 11, quando o governo de Pando tentou barrar a marcha deles em direção à Cobija.

- Nós estamos aqui para ajudar a todos os nossos compatriotas dentro de nossas atribuições legais, mesmo quando possamos ter pensamentos divergentes - afirmou Chaurara, um militante de esquerda que se formou no Acre em heveicultura e que já trabalhou para a ONU na África em decorrência de sua especialização acadêmica em relações internacionais.

Alguns refugiados bolivianos em Brasiléia e Epitaciolândia buscaram proteção em território brasileiro apenas se sentirem inseguros, mas também existem os que tiveram participação direta no massacre. Essas questões não são abordadas pela comissão criada pelo governo estadual para atendê-los.

A “tropa” do Forró da Cacilda

Enquanto homens do Exército se movimentavam para ocupar as duas pontes na fronteira, em Brasiléia, na rua da Goiaba, o movimento era de homens e mulheres que frequentam o Forró da Cacilda. A casa existe há quase 30 anos e sempre abre nas noites de quinta-feira.

- A gente já tentou fazer o forró nas noites de sexta e sábado, mas o povo gosta mesmo é na quinta-feira. Brigas, tiros e balas? Ah! Isso acontece de vez em quando, mas na rua, quando a festa termina. Aqui dentro temos cinco seguranças muito bem treinados para agir - exlica Wanda Miranda, a filha que assumiu a direção da casa após a aposentadoria de Cacilda.

Uma semana após o massacre que abalou a aparente vida pacata na fronteira Brasil-Bolívia, não foi registrada a presença de bolivianos no Forró da Cacilda, embora a boate Lennon, a mais badalada de Cobija, esteja fechada por conta do estado de sítio. Loren Fernándes, irmão do governador de Pando e dono do estabelecimento, está refugiado em Brasiléia com a família.

Outras atrações da noite pandina em Cobija são quatro prostíbulos que normalmente atraem brasileiros e bolivianos por causa das mulheres brasileiras levadas basicamente do Acre e de Rondônia.  O mais antigo e disputado é o “Las Poderosas”.

Além de oferecer produtos eletrônicos e casas de prostituição, a cidade também concentra traficantes de cocaína pura e contrabandistas de armas sofisticadas. Em maio, por exemplo, 80 homens da Força Especial de Luta Contra o Crime,  conseguiram prender uma quadrilha que desde o começo do ano havia assassinado 12 desafetos na disputa por território do narcotráfico.

A cidade é uma das portas de saída na rota por onde passa boa parte da cocaína e armas ilegais distribuídas em território brasileiro. Na Estrada do Pacífico, que liga o Brasil ao Peru,   a fiscalizacão é precaríssima. A rodovia tem facilitado a passagem dos narcotraficantes peruanos, bolivianos e brasileiros. O Acre nada exporta através da estrada, mas importa muita cocaína, que ingressa livremente por falta de estratégia de segurança dos governos federal e estadual para a região.

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