Por Jarbas Passarinho
Um proficiente jornalista, já entrado em anos de atividade honesta, me disse, há não mais de seis meses, que um governante para ser bem-sucedido na sua gestão precisa mais do que de um Legislativo dócil. É-lhe essencial a sorte. Acho que ele estava pintando o retrato ou cinzelando o busto do presidente Lula. A sorte o tem protegido a valer, na profissão, o dedo mínimo perdido, longe de abatê-lo, abriu-lhe as portas da política sindicalista. De um posto menor, em uma chapa de velhos dirigentes, galgou o de presidente do sindicato. Em entrevista à Playboy, de julho de 1979, conta como se impôs, a começar pela eleição, apoiada por um suposto líder, com quem começou a carreira de dirigente dos metalúrgicos.

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Procurado por jornalistas, o antigo protetor começou a responder às perguntas. Lula tomou-lhe a palavra e logo fez sentir que não era nenhum títere ou lambaio dos antigos líderes metalúrgicos. Respondeu, ele mesmo, às perguntas, fazendo-se reconhecer como presidente e não boneco de ventríloquo. O irmão mais velho ensaiou levá-lo para o Partido Comunista. Negou-se a aceitar a cooptação. Creio eu, não por incompatibilidade ideológica, mas por perceber que lá já havia um comandante indisputável com renome de herói, apesar de só ter amealhado derrotas, ora numa longa marcha cuja proeza fora não se deixar aprisionar pelas forças legalistas que os perseguiam e, em 1935, ordenado uma revolta que lhe valeu a prisão e a rendição de seus seguidores.

Quando Lula se projetou liderando greves, o autoritarismo já havia acabado desde a Emenda Constitucional nº 11, de outubro de 1977, que revogou as medidas de exceção subseqüentes ao AI-5. A imprensa era totalmente livre. Vi-o pela primeira vez na TV, declarando não aceitar a sentença arbitral do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo e não reconhecê-lo. Certamente não leu Thoreau, o ideólogo da desobediência civil, mas era grave a declaração, mesmo num regime de democracia plena. Deve ter concluído que era hora de desafiar o último governo do ciclo Militar, moribundo, "um tigre de papel", para plagiarmos Mao-Tse Tung.

Contendor beneficiado por discursos em que os palavrões lhe valiam a intimidade verbal com sua platéia e o caráter de lutador indômito, consolidou liderança que mostrou sua força nas eleições para a Constituinte. Provou a unção das urnas. Foi o deputado federal mais votado do Brasil. Isso, todavia, não era mais que objetivo secundário. Se os oposicionistas o buscavam como afluente de rio, concluiu que poderia ser o próprio rio. Fundou o seu partido, pois para ele não passavam todos, de oposição e de governo, de "farinha do mesmo saco".

Fundou-o sob a bandeira da ética para reformar o mau conceito em que eram — e são — tidos todos os políticos. E, sem ler Lênin, adotou uma réplica perfeita do "centralismo democrático". Ou seja, quem discordasse das suas decisões seria punido até com expulsão do partido, como aconteceu com os três dissidentes do veto à eleição indireta de Tancredo Neves. Batido fragorosamente na eleição em que se reelegeu FHC, não desistiu. Sabia que era o único líder capaz de tentar vencer. O senador Suplicy tentou ser o candidato, receoso que depois de três derrotas, Lula estivesse desqualificado para nova eleição. Viu na tentativa do senador uma audácia, especialmente porque pedia que o partido decidisse a candidatura pelo que lhe parecesse o melhor, depois das primárias, no âmbito partidário.

Lula o desprezou, negou a votação nas primárias, impôs-se candidato e tentou pela quarta vez, servindo-se da "fadiga do material" do governo tucano, atropelado pela economia e pelo arrastão da eletricidade que os deuses lhe ofereceram. Fez história, François Mitterrand tentou três vezes até vencer. Com Abraham Lincoln se deu o mesmo: três vezes candidato, para chegar à vitória. Trazido nos braços do povo e nos 80% de popularidade, enfrentou o que é governar sem ter maioria no Legislativo. Logo seus auxiliares de confiança, movidos pelos deuses da arte da trapaça compraram (sem ele saber) os votos dos "picaretas" que disse ter conhecido na Constituinte na Câmara dos Deputados, para aprovar as reformas em que FHC tinha fracassado.

Descoberto o escândalo que dilacerava o galhardete da ética, que empunhava, a popularidade baixou para 20% e parecia o fim da proteção dos deuses. Goelbbes veio do fundo do inferno e lhe ajudou: "Diga mil vezes que jamais soube de tal imoralidade, e esses beócios que se dizem decepcionados logo acreditarão. Se necessário, queixe-se de que foi traído. Nunca dizendo por quem. Assim as novelas se mantêm até o último bloco. Em último caso, use um delator que o poupava e aceite pedido de demissão do delatado principal, concedida com carta elogiosa".

Dias depois, Lúcifer deu folga a Fouché para trazer-lhe outro conselho: "Não imite a guilhotina que matou seu inventor. Crie um cartão corporativo e deixe que se corrompam, mas os tenha ministros para lhe ficarem mais submissos. Guarde a aparência fazendo uma fraudulenta entrar num free shop por mera curiosidade e deixe que o clamor popular obrigue-a a demitir-se ela mesma, como prova de sua defesa da ética. Para dar mais solidez ao seu governo, chame o pessoal da antiga Arena para ajudá-lo a exemplo dos jacobinos, para guilhotinar Robespierre. Ainda em meio ao segundo mandato, os deuses, depois de 50 anos de monopólio da Petrobras, deram-lhe a auto-suficiência em petróleo e o pré-sal. Quanta sorte!

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