Odebrecht nega responsabilidade por problemas técnicos que levaram à paralisação de hidrelétrica - Marília Martins*, Ronaldo D'Ercole, Chico de Góis e Gerson Camarotti
NOVA YORK, QUITO, SÃO PAULO e BRASÍLIA. O governo do Equador não vê possibilidade de acordo com a Odebrecht, e o presidente Rafael Correa afirmou ontem que a controvérsia é com a empresa, não com o governo brasileiro, e que isso foi expressado ao colega Luiz Inácio Lula da Silva. Já o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, acredita em acordo e garantiu que não há possibilidade de calote do Equador ao empréstimo de US$242,9 milhões feito pelo BNDES para a construção da hidrelétrica San Francisco:

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- Este empréstimo foi feito num convênio de pagamento de créditos recíprocos (CCR) firmado pela Aladi (Associação Latino-americana de Integração). Eu não conheço caso de descumprimento de pagamento de CCR. Se houver uma conversa adequada, pelo que eu sei, a Odebrecht está disposta a reconhecer seus erros e a assumir a sua parte. Nessas condições, deixar de pagar seria totalmente absurdo.

O CCR funciona como uma câmara de compensação de compromissos financeiros entre países sul-americanos, e o não pagamento caracterizaria um calote em todas essas nações. Correa ordenou terça-feira o confisco dos bens da Odebrecht, expulsou dirigentes e militarizou a obra de San Francisco.

A Odebrecht nega responsabilidade pelos problemas técnicos que levaram à paralisação da hidrelétrica. Segundo ela, houve "aumento significativo de sedimentos" não previsto na água do rio Pastaza, provocado pela erupção de um vulcão. Apesar disso, a empresa se dispõe a fazer os reparos com custo estimado de US$25 milhões. Mas se recusa a pagar US$43 milhões para compensar a paralisação da usina, que deve durar três meses. Quer depositar a garantia numa conta até que uma auditoria internacional apure as causas.

A Odebrecht diz que continua a conversar com o governo equatoriano para normalizar suas atividades no país. A empresa tem mais quatro obras, no valor de US$650 milhões, em andamento. Em outra frente, ela tenta convencer os sócios na usina - Alston e a Vatech - a assinar acordo de compromissos.

A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, disse que o governo tratará com tranqüilidade, depois do referendo de domingo no Equador, a polêmica.

- O presidente já disse que o BNDES não tem relação com o Equador. Não emprestou para o Equador. Emprestou para a empresa. Não vamos complicar mais a situação.

A Odebrecht reafirmou ontem que não tem qualquer compromisso com o BNDES. O banco também explicou que o empréstimo foi dado a uma estatal do Equador, não à Odebrecht.

No Palácio do Planalto, a avaliação é que foi uma bravata política a ameaça do presidente do Equador. Segundo um ministro que analisou o episódio, está clara a estratégia de Correa para fortalecer sua posição no referendo constitucional. A determinação no Planalto é evitar uma crise com o Equador.

(*) Correspondente, com Fabiana Ribeiro e agências internacionais

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