Por Aristóteles Drummond
O mundo está em crise. Independentemente deste fato, o Brasil tem pela frente imensos problemas a resolver. Na educação, na saúde, na habitação, no emprego, na qualidade de vida do cidadão e de nossos produtos. E do meio ambiente, procurando uma infra-estrutura compatível com o crescimento. Temos setores defasados, sem recursos há muito tempo. O próprio funcionalismo, sem aumentos, sem treinamento, anda desmotivado e o nível dos serviços caindo. E mais: por motivos vários, a corrupção se incorporou ao cotidiano dos gastos públicos, desde os municípios mais modestos aos altos escalões da República.

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A missão dos homens responsáveis é enorme. O presidente Lula, com todos os equívocos que possa cometer, tem sido um chefe de Estado que ganha credibilidade aqui e no resto do mundo. Tem uma visão pragmática da realidade nacional e internacional. Mas carrega um fardo no grupo de companheiros da primeira hora, que a ela já chegaram com uma bagagem que nada tem com a sua. Lula foi um líder sindical, tornou-se líder partidário, líder nacional e presidente da República, confirmado pela população com um segundo mandato. De certa maneira, une o Brasil. Nunca esteve metido na luta armada e preso não sofreu nenhum constrangimento.

Agora surge uma crise desnecessária, sem base política, ética ou legal em torno de um revanchismo inaceitável. Contestar a generosa anistia proposta pelo presidente João Figueiredo e aprovada pelo Congresso é uma afronta à sociedade brasileira. Afinal, os atingidos por supostas torturas também cometeram atos de terrorismo, com mortes, inclusive de inocentes. Foram muitas as famílias enlutadas pela ação dos que fizeram a chamada opção pela luta armada. Está tudo nos livros e nos arquivos.

A população do Rio de Janeiro acaba de mostrar que anistia é anistia, dando significativa votação ao deputado Fernando Gabeira, um homem público amadurecido e sério, que, na juventude, seqüestrou um diplomata estrangeiro, que chegou a sofrer ferimentos na ação. Belo Horizonte também elegeu um antigo militante, que esteve preso, tornou-se empresário de sucesso, democrata, admirado e respeitado. O governo está cheio de ocupantes de altos cargos que pegaram em armas em nome de ideais revolucionários; jamais democráticos. Eram todos radicais, militantes de partidos comunistas – inclusive, na própria denominação – admiradores de Fidel Castro, Guevara etc.

Não tem o menor sentido essa afronta as Forças Armadas, a oficiais que tem o respeito e a solidariedade de seus companheiros de farda, por estes saberem que são vítimas do ódio, do ressentimento, da mentira. Um deles, o Coronel Carlos Alberto Brilhante Ulstra já nos brindou com seu primoroso livro A verdade sufocada, que deveria ser lido por todos que andam dando, de boa fé, palpite nesse assunto. O livro, mais os muitos artigos de Jarbas Passarinho, e as obras dos então militantes demonstram fartamente que o esquecimento é o melhor e mais saudável caminho.

Alguns políticos de oposição ao regime militar – autoritário, mas não ditatorial – como o deputado Miro Teixeira, que votou a anistia, já se pronunciaram pelo ponto final da questão. Reabrir feridas de um lado não teria sentido. Para colocarem oficiais no banco dos réus, é preciso que o mesmo ocorra com todos os que pegaram em armas e mataram inocentes. Até na oposição, na história da anistia, havia vozes que concordavam na exclusão dos chamados "crimes de sangue". Mas João Figueiredo quis anistia ampla, geral e irrestrita, como pediam nas ruas os mais radicais.

Além de ódio, ignorância e falta de patriotismo, levantar este assunto é prova de não ter outra contribuição a oferecer ao país do que a luta entre irmãos. Mas o bom senso prevalecerá e os militares contam com o respaldo da sociedade séria, inclusive a que não apoiou o regime de 64, o Judiciário que é pela lei e não tomaria uma decisão política e só política. O que, evidentemente, não é o nosso caso, que nos mantemos fiéis àqueles princípios, sem negar o valor e a participação positiva de outros segmentos do pensamento nacional. Democracia é uma coisa; revanchismo, sem base legal ou moral, é outra.

 

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