Por Augusto Nunes - Jornal do Brasil
Ele abriu a porta do apartamento ansioso por anunciar a opção que tomara. Encontrou na poltrona da sala o irmão mais velho, esperou que interrompesse a leitura do jornal e, com voz grave, informou: “Fiz uma opção político-ideológica definitiva. Sou marxista-leninista”. Desconsertou-se ao ver que a expressão do primogênito exibia a placidez de quem ouvira o caçula avisar que estava de saída para tomar algumas no bar da esquina. Sem nenhum sinal de abalo, o alvo da notícia formidável reagiu com uma interrogação distraída: “Você já leu muita coisa sobre isso?”, perguntou. “Li o suficiente”, mentiu naquela noite de outubro de 1968 o estudante de 19 anos que, em janeiro, trocara a cidade interiorana pelo Rio.

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Até então, o plano era cursar a Faculdade Nacional de Direito, depois o Instituto Rio Branco e, se Deus ajudasse, virar embaixador em Paris. Sempre com voz distraída, o irmão quis saber se aquilo estava de pé. “Não”, ofendeu-se o convertido. “O dever de um revolucionário é fazer a revolução”. E então soltou a declaração decorada para matar no nascedouro aquele sorriso de Mona Lisa: “Estou disposto a qualquer sacrifício para implantar no Brasil o socialismo. Não tenho dúvidas sobre o que devo fazer na vida”.

“Que bom!”, retomou a leitura do jornal o irmão. “Tudo o que eu queria era ter 19 anos e nenhuma dúvida. Estou com 25 e cheio delas”. Ambos em silêncio, só o caçula escutou o estrondo das interrogações soterrando o poço de certezas inaugurado na manhã daquele dia. A ironia feita de 19 palavras induziu o revolucionário de 19 anos a passar os meses seguintes flagelando-se com perguntas. As respostas o aconselharam, no fim de 1969, a recusar a adesão à luta armada, quase imposta a ovelhas desgarradas por pastores implacáveis. Quem se afastava do rebanho não tinha o direito de proclamar-se dissidente. Tanto os que renunciaram ao combate quanto os que se juntaram à resistência democrática eram, todos, desbundados.

Além da generosidade genuína, além da cólera provocada pela ditadura brutal, sufocante, liberticida, além da pressa em erradicar a tortura, além do inconformismo com um país injusto, também a vigilância ameaçadora dos jovens comandantes engrossou a procissão dos passageiros da utopia que se meteram na travessia da picada do penhasco. Quem começasse a percorrê-la teria de avançar até a chegada – ainda que não houvesse chegada.

Os desbundados de 1968 sofriam condenações morais. Na virada da década, quem tentasse desviar-se do caminho ou propor mudanças de rota estaria exposto aos castigos reservados pelo código penal da luta armada aos traidores, vacilantes ou desertores. Qualquer desses adjetivos justificava a aplicação da pena de morte. Os juízes eram jovens demais, os réus estavam longe da maturidade. Mas os componentes do tribunal agiam com a soberba dos veteranos. Os carrascos, também.

Márcio Leite de Toledo tinha 19 anos quando foi enviado a Cuba pela Aliança Libertadora Nacional para fazer um curso de guerrilha. Ao voltar em 1970, tornou-se um dos cinco integrantes da Coordenação Nacional da ALN. Com 19 anos, lá estava Carlos Eugênio Sarmento Coelho da Paz. Em outubro, durante uma reunião clandestina, os generais garotões souberam da morte de Joaquim Câmara Ferreira, que em novembro do ano anterior substituíra o chefe supremo Carlos Marighela, assassinado numa rua de São Paulo. Márcio propôs uma pausa na guerra antes que fossem todos exterminados.

Já desconfiado de Márcio – não era a primeira vez que divergia dos companheiros – Carlos Eugênio convenceu o restante da cúpula de que o dissidente estava prestes a traí-los e entregar à polícia o muito que sabia. Montou o tribunal que aprovou a condenação à morte e ajudou a executar a sentença no fim da tarde de dia 23 de março de 1971, no centro de São Paulo. Antes de sair para o encontro com a morte, o jovem que iria morrer escreveu que “nada o impediria de continuar combatendo”. Não imaginava que seria impedido por oito tiros.

O assassino quase sessentão admite que o crime foi um erro, mas não se arrepende do que fez. A guerra, essas coisas acontecem, explica o justiceiro impiedoso. Depois do crime, ele se tornou muito respeitado pelos companheiros, que o conheciam pelo codinome: Clemente.

 

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