Novas gravações foram entregues por acaso à Procuradoria pela própria JBS
Letícia Casado - Folha de São Paulo - 04/09/2017
BRASILIA, DF, BRASIL, O procurador geral da república Rodrigo Janot durante pronunciamento à imprensa para falar sobre uma possível revisão do acordo de delação premiada da JBS. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress, PODER)
Janot disse que a nova prova foi entregue pela JBS
A gravação da conversa que pode levar à anulação da delação dos executivos da JBS foi encontrada em meio a um material referente ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), apurou a Folha. Nesta segunda-feira (dia 4), o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, afirmou que determinou abertura de investigação de indícios de omissão de informações sobre práticas de crimes no acordo de executivos da JBS.
O problema surgiu após os delatores da JBS entregarem à PGR (Procuradoria-Geral da República) novos áudios de conversas gravadas secretamente. Aparentemente os delatores não sabiam que estavam gravando a própria conversa, disse Janot aos jornalistas.
“PIAUÍ RICARDO 3” – O material está classificado como “Piaui Ricardo 3 17032017.wav” e contém um diálogo de cerca de quatro horas entre Joesley Batista, um dos donos da JBS, com Ricardo Saud, executivo do grupo.
 
Eles entregaram o áudio como se fizesse parte de material que trata do senador do Piauí. Também entregaram áudio envolvendo o deputado Gabriel Guimarães (PT-MG).
 
O procurador-geral assinou portaria que instaura um procedimento de revisão dos acordos de Joesley, Saud e Francisco de Assis, diretor jurídico do grupo –ou seja, de três dos sete delatores da JBS.
 
AVISO A FACHIN – Antes de fazer o anúncio a jornalistas, Janot foi ao gabinete do ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no STF (Supremo Tribunal Federal), avisar sobre as medidas que iria tomar. Ele também procurou a presidente da corte, ministra Cármen Lúcia.
 
O objetivo do procurador-geral era evitar com que Fachin e Cármen Lúcia fossem surpreendidos pelas notícias, disseram pessoas a par do assunto.
 
As conversas foram rápidas. Janot disse que iria abrir o procedimento, fazer uma coletiva de imprensa e protocolar uma petição.
 
DUAS CLÁUSULAS – No acordo de delação dos executivos da JBS há duas cláusulas que tratam sobre a perda de efeito da colaboração. De acordo com Janot, mesmo que os delatores percam os benefícios, as provas continuam sendo válidas.
 
Ou seja, ele poderia usar o material em uma segunda denúncia contra o presidente Michel Temer – que já foi denunciado ANTES por Janot, acusado de corrupção passiva, justamente por causa da delação da JBS.
 
O procurador-geral foi questionado se o episódio poderia atrasar alguma nova denúncia. Ele disse que não.
 
SUSPEITAS – No procedimento aberto para investigar as conversas dos delatores, Janot afirma que há indícios de crimes cometidos por agentes da PGR. É uma referência ao advogado Marcelo Miller, que trabalhava em sua equipe.
 
A jornalistas, Janot disse que também há menções a agentes do STF (Supremo Tribunal Federal). Uma fonte disse à Folha que os delatores tratam “de maneira genérica” sobre o Supremo.
 
A gravação foi feita em 17 de março, dez dias depois de Joesley ter gravado o presidente Michel Temer no Palácio do Jaburu e dias antes de assinarem o acordo com a PGR. O material chegou à Procuradoria na quinta-feira (dia 31) às 19h. Os delatores entregaram os novos arquivos de áudio e os investigadores passaram o fim de semana trabalhando no material. Na manhã de domingo uma procuradora encontrou a conversa suspeita, disse Janot.
 
 
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